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Tailândia: Um grupo de miúdos, uma equipa de futebol e o seu treinador, numa escapadinha imprudente a uma gruta.

Uma chuvada inesperada e a galeria a encher repentinamente. A solução: ir fugindo da água que sobe, cada vez mais e mais para o interior da cavidade. Encurralados, vão seguir-se vários dias de isolamento, sem luz e comida. Para beber há a água que escorre das paredes e do teto.

Cá fora dá-se a mobilização geral. Autoridades nacionais e locais, marinha tailandesa, espeleo-mergulhadores e tantos outros voluntários anónimos acorrem a oferecer a sua ajuda. Inicia-se a busca, até que nove dias depois mergulhadores de gruta ingleses fazem o achamento.

Equipa-se a galeria. O grupo a resgatar está longe e o percurso não é fácil. É tortuoso, há zonas apertadas e galerias inundadas. Como os tirar de lá?

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Concentração de equipamento de salvamento e mergulho, na câmara de entrada da gruta de Tham Luang (imagem de youtube NTB)

Várias hipóteses são colocadas:

  1. Subir à montanha (a cerca de 800 m acima da galeria), localizar um algar muito fundo e bem localizado e/ou furar até à galeria onde está o grupo e proceder à sua extração. Quanto tempo demorará a abrir uma via pela montanha para instalar um estaleiro e como conseguir a precisão necessária no caminho a abrir até à galeria? Onde se situa esta exatamente? Podem acontecer abatimentos na galeria? Vários algares, alguns deles bastante profundos, são explorados, mas esta opção não parece viável.
  2. Proceder ao resgate pelo mesmo caminho por onde o grupo entrou. Caminho longo, acidentado, com restrições assinaláveis e secções da galeria preenchidas por água. Há necessidade de fazer os resgatados mergulhar em água turva de sedimento ou mesmo em visibilidade zero, lidar com a sua baixa aquaticidade, enfrentar eventuais episódios de desorientação ou mesmo pânico e a impossibilidade de aceder diretamente à superfície. A possibilidade de morte de alguns dos envolvidos é real.

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    Mergulhadores internacionais preparam o equipamento nas imediações da gruta de Tham Luang (foto US Navy)
  3. Esperar que a água desça e que todos saiam como entraram, fazendo o caminho inverso e a seco. A espera será obrigatoriamente de alguns meses, pois as monções estão ainda agora a começar. É imperioso tornar habitável o local onde o grupo se refugiou. Para tal será preciso impedir que o nível da água continue a subir, bombeando o excesso para fora da gruta, gerir a qualidade do ar, passar mantimentos, estabelecer comunicações, combater a hipotermia, resolver questões sanitárias, evitar que surjam infeções e controlar a alteração dos ciclos biológicos por privação à luz.

Esta terceira opção recolhe as preferências, mesmo que uma decisão final esteja longe de estar tomada. É uma opção trabalhosa, que exige persistência, mas que é substancialmente mais passiva para o grupo de resgatados. Contudo requer uma monitorização próxima e frequente do ambiente. Entretanto vão sendo colocados junto do grupo alimentos e água potável, iluminação e vários salvadores, um deles médico. Importa restabelecer as vítimas.

De repente, tudo muda.

O nível de oxigénio na câmara desce vertiginosamente e o dióxido de carbono aumenta, obrigando salvadores não essenciais a abandonar o espaço. A hipotermia vai-se instalando. Suspeita-se de infeções pulmonares entre os rapazes. Mesmo com pluviosidade reduzida, as bombas instaladas, agora ainda mais potentes, não estão a conseguir baixar o nível da água. Espera-se que não avariem. E quando começar realmente a chover? A terceira opção também não vai funcionar.

Mergulho em gruta em condições de fraca visibilidade (foto Rui Luís)

Contudo, é imperioso tomar uma decisão. O salvamento torna-se urgente e é preciso agir. As autoridades viram-se para a única opção possível. A que resta. Retirar as vítimas com recurso ao mergulho. Os riscos já foram avaliados.

Os preparativos são acelerados. Quem não é de cena, sai de cena. A utilização de mergulhadores militares é reduzida ao indispensável. Os mergulhadores de gruta tomam nas suas mãos o mergulho em gruta.

A estratégia é delineada.

Dois mergulhadores por criança, um antes, outro após. Com uma configuração de equipamento em que o salvador dianteiro transporta a garrafa de ar comprimido do resgatado, respirando este através de uma máscara facial, com vedação adequada à compleição franzina, e uma linha de parceiros mantendo ligados o resgatado e o salvador.

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A ausência de sedimentos finos permite uma excelente visibilidade. (foto Rui Luís)

No primeiro dia são salvos 4 rapazes. No segundo dia a operação está mais oleada, os mergulhadores conhecem cada vez melhor a gruta e tudo decorre mais rapidamente. São salvos mais 4 rapazes.

Para poupar aos salvadores o imenso desgaste de sair e entrar da água, e de caminhar a seco transportando o seu equipamento, é de supor que tenha sido utilizado um par de mergulhadores por cada sifão. Os resgatados farão o percurso remanescente, a seco, até à saída, em maca.

Ao terceiro dia importa retirar as últimas crianças que ainda permanecem na câmara da gruta e o seu treinador. É também necessário que saiam os três mergulhadores da Marinha Tailandesa e o médico australiano que acompanharam o grupo até ao fim e todos os espeleo-mergulhadores e equipas de apoio. Tudo decorre sem sobressaltos conhecidos.

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A utilização de circuito fechado, pela não libertação de bolhas de gás expirado, reduz em muito o desprendimento de sedimentos finos acumulados nas paredes e no tectos da gruta. (foto Rui Luís)

Todos terem sido salvos pode levar-nos à tentação de concluir que os riscos eram afinal menores e que o nível de dificuldade não era assim tão elevado. Mas esse é um puro engano, uma ilusão. O desfecho desta operação é um assinalável sucesso, fruto da capacidade técnica e da experiência dos salvadores, da abnegação das equipas de apoio e também da coragem e serenidade dos resgatados.

 

A morte evitável de Saman Gunan:

Um ex-mergulhador de elite da marinha tailandesa. Força mental, destreza, capacidade física, e voluntarismo não o conseguiram fazer voltar. Não possuía formação, nem equipamento adequados ao meio em que desenvolvia a sua tarefa. Nunca deveria ter sido enviado.