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“Viagens à Terra Nova – Memórias de um tempo” e “Viagens à Terra Nova II (Marcas)”

No verão de 2017 quando de uma deslocação da Revista de Marinha ao Norte e encontro com os seus representantes locais, ouvimos falar pela primeira vez em termos muito elogiosos nesta obra publicada em 2016, sobre “os nossos heróis da Terra Nova”, pescadores oriundos do concelho de Caminha, quase todos da comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora, sem dúvida “um dos concelhos que contribuiu com maior número de pescadores para a frota bacalhoeira portuguesa”. Pouco tempo depois, foi-nos amavelmente oferecido o conjunto dos dois volumes, cuja leitura e análise muito nos interessou, mas que só agora foi possível comentar.

Da autoria da Profª Dra. Aurora Botão Rego, natural de Vila Praia de Âncora e doutorada em História pela Universidade do Minho em 2013, esta obra publicada com o valioso apoio da Câmara Municipal de Caminha, é um trabalho de grande envergadura e muito interesse, revelador de um património inestimável e que só foi possível realizar graças à iniciativa de uma historiadora de grande sensibilidade, notável sentido de solidariedade e capacidade de trabalho.

Ao longo de dois volumes, respetivamente, de 412 páginas o primeiro e 250 o segundo, a autora retrata-nos a vida duríssima, recheada de perigos, dos homens de Vila Praia de Âncora e Caminha, através da recuperação de elementos identificativos que permitiram retirar do anonimato 740 pescadores, o que só foi viável pelo estudo afincado e minucioso de todos os Livros de Inscrição Marítima desde 1893 até 1992 e as Fichas de Registo do Grémio, bem como pelas interessantes entrevistas realizadas a muitos dos que ainda ali vivem (alguns tendo iniciado a sua vida no mar aos 14/15 anos e hoje com idades compreendidas entre os 89 e os 44 anos ) e algumas  famílias.

Viagens à Terra Nova
Vila Praia de Âncora, sem dúvida “um dos concelhos que contribuiu com maior número de pescadores para a frota bacalhoeira portuguesa”

Com excelente encadernação e conceção gráfica de Carlos da Torre, fotografia da autoria de António Manuel Garrido Barreiros e Jorge Simão Meira, no segundo volume a historiadora apresenta-nos ainda o significado das tatuagens que os pescadores faziam, como marca das saudades e simultaneamente elemento revelador de um espírito de modernidade adquirido no contacto com as populações do Canadá em St John’s, assim como dos medalhões com fotografia dos seus maridos que as mulheres – mães, viúvas e filhas, com vidas não menos heroicas como aqui nos narram em primeira pessoa – traziam ao peito, como sinal de fidelidade, orgulho e muita saudade… e que a maioria dos homens apreciava ao chegarem das suas viagens e longas ausências.

Curioso salientar como “mecha” que levou a autora a interessar-se tanto pelo tema da pesca do bacalhau, o facto de ter sido contactada por … Jean-Pierre Andrieux, um canadiano de St John’s e grande amigo dos portugueses e , acima de tudo, grande entusiasta e admirador da Frota Branca, que em 2014 perguntava quem era Dionísio Cândido Quintas Esteves, do qual apenas sabia que era um pescador de Vila Praia de Âncora e ali se encontrava sepultado, e a quem queria erigir um memorial em homenagem a todos os demais pescadores  que ali perderam as suas vidas.

Conforme nos explica a Profª Dra. Aurora Botão Rego, foi esta a razão que a levou a propor uma investigação de que resultariam estes dois volumes, tendo obtido imediata concordância do Presidente da Câmara de Caminha, Dr. Miguel Alves e seu Vice-Presidente, Dr. Guilherme Lagido.

No primeiro volume apresenta-se uma introdução ao aparecimento desta comunidade piscatória, sua pobreza, razões de procura de sustento em mares distantes na pesca do bacalhau e análise quantitativa global das origens e  comportamentos dos pescadores; procede-se à identificação de um grupo inesperadamente numeroso de 740 pescadores e referem-se as suas alcunhas; em seguida, as suas memórias são recuperadas e divulgadas através de entrevistas, relatos da dura faina  e de tempestades, acidentes e episódios de vida a bordo, histórias pessoais e fotos; por fim, a identificação dos barcos, as suas “casas flutuantes” durante viagens que chegavam a durar nove meses com trabalho muitas vezes entre as 12 a 38 horas seguidas, sob temperaturas negativas. No segundo volume, aborda-se todo o simbolismo e histórias reais por trás das tatuagens dos homens e dos medalhões das mulheres.

Com renovadas e sinceras felicitações à Autora por um trabalho de grande qualidade e incontornável interesse para a Cultura Portuguesa, e à Câmara Municipal de Caminha pela excelente iniciativa de apoiar a sua publicação, a Revista de Marinha muito agradece a oferta desta obra.

Os interessados em adquirir estes dois livros, que custam 20€ cada, poderão faze-lo nos Postos de Turismo de Caminha, tel. 25 892 1952, turismo@cm-caminha.pt e Vila Praia de Âncora 25 891 1384.