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Património Cultural Marítimo

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Saint-Jean-de-Luz e Ciboure

Com um passado ligado ao mar que hoje ainda resiste, mesmo longe dos tempos áureos da pesca à baleia, atum e sardinha, depois também da indústria conserveira, é nos anos 20 e 30 do século XX, após a chegada do caminho-de-ferro à vila, que Saint-Jean-de-Luz se torna uma das estâncias balneares da moda em França. Ciboure, do outro lado do La Nivelle, ainda se manteve mais tempo ligada às actividades da pesca, mas o turismo também acabou por ali chegar, e de ambas não saiu até hoje, nem a pesca!

Uma embarcação tradicional entra a barra do La Nivelle, vendo-se a Grand Plage de Saint-Jean de Luz (imagem www.saint-jean-de-luz.com)

Foram também terras de corsários, actividade desenvolvida desde o século XVI até …ao século XIX! “Renard basque” (raposa basca), de seu nome Etienne Pellot Monvieux, foi o último corsário e morreu em 1856, ano em que esta actividade foi abolida em França. Muitas ruas de Saint-Jean-de-Luz têm nomes de corsários que trouxeram riqueza e fama à sua terra.

Pormenor do Monumento aos Corsários, marinheiros e pescadores bascos (foto Miguel Machado)

Mas vários foram os nomes sonantes que noutras actividades mais pacíficas, ao longo dos anos aqui residiram e contribuíram para o reconhecimento destas duas pequenas vilas do País Basco francês. Entre outros, destacam-se Maurice Ravel (1875-1937), compositor, natural de Ciboure; Jacques Thibaud (1880 – 1953), violinista; Pierre Benoit (1886 – 1962), romancista, em Ciboure viveu e faleceu; Henri Matisse (1869 – 1954), pintor. Ao André Pavlovsky (1891 -1961), o arquitecto cuja obra mais conhecida hoje iremos aflorar – os faróis de Ciboure e Saint-Jean-de-Luz –  que aqui faleceu, podemos juntar o seu colega de profissão Joseph Hiriart (1888 – 1946) e mais pintores como Gustave Colin (1828-1910) e Ramiro Arrue (1892- 1971), também falecido em Saint-Jean-de-Luz.

Henry Matisse 1869-1954 (foto de Robert Capa 1949)
Henry Matisse 1869-1954 (foto de Robert Capa 1949)
Jacques Thibaud 1880-1953
Jacques Thibaud 1880-1953
Maurice Ravel 1875-1937
Maurice Ravel 1875-1937

Depois da 2ª Guerra Mundial e da ocupação alemã, a região voltou a ter a sua dose de celebridades. O director do departamento de política internacional da Time Magazine instalou-se em Ciboure em 1947 e pela sua casa passaram nos anos seguintes nomes como Ernest Hemingway, Roberta Capa, Pablo Casals, Orson Wells.

Os faróis

As suas linhas são de tal forma elegantes que se inserem na arquitectura dominante nas duas vilas, sem qualquer choque visual

Os faróis actuais, construídos em 1936, foram desenhados por André Pavlovsky, o arquitecto que mais influência teve na região nos anos 20 e 30 do século XX.

As linhas dos faróis são de tal forma elegantes que sendo perfeitamente visíveis, até pelas suas dimensões, ao mesmo tempo inserem-se na arquitectura dominante nas duas vilas, sem qualquer choque visual. Têm atraído a atenção de todos, são hoje dos símbolos mais reproduzidos para efeitos turísticos – toda aquela parafernália de souvenirs baratos que sempre vemos em locais muito visitados – mas também e não menos, inspirando artistas, nomeadamente pintores e fotógrafos que os reproduzem em obras de grande qualidade – e elevado preço – e com grande liberdade interpretativa. Vários livros também já foram publicados sobre estes faróis e são referência obrigatória em tudo o que seja publicação sobre a região.

Livros sobre os faróis de Saint-Jean-de-Luz (foto Miguel Machado)
Livros sobre os faróis de Saint-Jean-de-Luz (foto Miguel Machado)
Uma das várias galerias de arte com obras retratando os faróis de Saint-Jean-de-Luz (foto Miguel Machado)
Uma das várias galerias de arte com obras retratando os faróis de Saint-Jean-de-Luz (foto Miguel Machado)
Os faróis são tema dum mural num parque de estacionamento (foto de Miguel Machado)
Os faróis são tema dum mural num parque de estacionamento (foto de Miguel Machado)

Foram inscritos no “Inventário dos Monumentos Históricos” de França, em 1993, e “…testemunham a personalidade do arquitecto, formado por múltiplas influências culturais e respeitando a tradição da arquitectura rural da região…” (tradução livre).

Marcando o estreito canal de acesso ao porto – de pesca e recreio – os dois faróis são hoje os ex-libris mais conhecidos de Saint-Jean-de-Luz e de Ciboure. Os faróis estão, um, o vermelho, a jusante do alinhamento do Porto na primeira vila, e o verde, a montante, em Ciboure, duas localidades separadas apenas pelo rio La Nivelle, mas unidas pela ponte Charles de Gaulle.

O farol de Saint-Jean-de-Luz, visto de jusante (foto de Miguel Machado)
O farol de Saint-Jean-de-Luz, visto de jusante (foto de Miguel Machado)
O farol de Saint-Jean ao amanhecer (foto de Miguel Machado)
O farol de Saint-Jean ao amanhecer (foto de Miguel Machado)
O farol de Saint-Jean ao cair da noite (foto de Miguel Machado)
O farol de Saint-Jean ao cair da noite (foto de Miguel Machado)
O interessante perfil do farol de Saint-Jean-de-Luz (foto de Miguel Machado)
O interessante perfil do farol de Saint-Jean-de-Luz (foto de Miguel Machado)

A descrição oficial do farol de Saint-Jean-de-Luz no Inventário de 1993 é a seguinte (em tradução livre):

… de planta quadrada, é um edifício estreitando em direcção ao topo e coberto com um telhado hexagonal… …A fachada norte apresenta uma larga faixa vertical vermelha da porta de acesso ao penúltimo nível, sendo a última janela rodeada por uma moldura também pintada de vermelho. Uma varanda de proa embeleza o segundo andar ao norte e ao sul…”

O farol de Cibourne (foto de Miguel Machado)
O farol de Cibourne (foto de Miguel Machado)
O farol de Cibourne à noite mostra a sua luz verde (foto de Miguel Machado)
O farol de Cibourne à noite mostra a sua luz verde (foto de Miguel Machado)

E o de Ciboure:

… Anteriormente havia neste lugar – como em Saint-Jean-de-Luz – uma torre quadrada com um terraço, de onde se iluminava a entrada do porto. Pavlovsky incluiu este trabalho na parte inferior de sua criação… …de planta quadrada, tem a forma de um volume aguçado em direcção ao topo. Este farol é sublinhado ao sul por duas paredes coroadas com um frontão, sendo a parede superior recuada. Estes dois níveis superiores, com cobertura de telha, abrigam o sistema óptico. Na fachada norte, em direcção ao oceano, o vão das aberturas é sublinhado por uma larga faixa vertical pintada de verde, ligando continuamente a base do primeiro andar à penúltima janela do cume. No interior, os dois primeiros andares são dedicados à acomodação do guarda…”

André Pavlovsky

Filho de russos opositores ao regime do Czar e refugiados em França, nasceu em Paris em 1891 e formou-se em arquitectura na Escola de Belas Artes, mas antes, alistou-se na “Legião dos Voluntários Russos” que durante a 1ª Guerra Mundial combateu ao lado das forças francesas. Foi condutor de ambulâncias e observador aéreo de artilharia, tendo alcançado o posto de tenente. Terminada a guerra em 1918, conclui o curso e faz trabalhos de arquitectura no Norte de França. Em 1924 ruma ao sul e instala-se na vila de Saint-Jean-de-Luz, desde cedo mostrando estar interessado em usar o estilo “néo-basco”, mas sobretudo, a partir de 1928, vai afirmar-se como

…um dos representantes mais inventivos de uma arquitectura modernista que leva em conta a alma da região…”

André Pavlovsky 1891-1961
André Pavlovsky 1891-1961

Só em Saint-Jean-de-Luz assinou mais de 40 Villas e desenvolveu um estilo muito próprio que habitualmente costuma ser inserido no “néo labourdin” ou “neo rurale” ou ainda “neo basco”. Passa a trabalhar também a partir de Bayonne, assina obras para o Estado, mas o eclodir da 2ª Guerra Mundial leva-o a realistar-se. Junta-se ao Exército Francês reunificado no Norte de África, participa no Desembarque da Provença (1944) e na Campanha da Alemanha até ao final da guerra (1945).

Com a paz regressa à sua actividade profissional que desenvolve em conjunto com outra grande paixão, a fotografia. André Pavlovski era tenente-coronel na situação de reserva, condecorado com várias medalhas militares, nomeadamente uma Cruz de Guerra, era Cavaleiro da Legião de Honra e Cavaleiro das Artes e Letras. O seu nome ficou para sempre ligado a Saint-Jean-de-Luz, onde morreu em 1961, com 69 anos de idade, e o seu nome está perpetuado nas muitas obras que assinou.