Património Cultural Marítimo

O Centro de Interpretação do Barco Rabelo

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Desde criança que me fui habituando a ver o rio Douro, se bem que, nesses tempos, ainda pejado de barcos rabelos, de rabões e de muitos outros barcos desta família. Por essa altura, eram apenas barquinhos que via vogando no rio. Nem sequer me passava pela cabeça o que eram rabelos, rabões, barcos de passagem ou outros da mesma família. Conheci o rio antes de começar a ser domado pela barragem do Carrapatelo e antes das novas estradas de ligação à Régua por Mesão Frio. Ainda se circulava por Santa Leocádia ou pelo Marco de Canavezes e, a partir de Ribadouro, seguia-se, já com vista para o rio Douro, embora ainda por uma estrada muito, mas mesmo muito sinuosa. Nessa época ainda os rabelos eram reis e senhores do rio que Torga descreveu como

O Doiro magro e viril, que ainda não há muito desci de barco rabelo e de credo na boca, a saltar de sorvedouro em sorvedouro”

e que, agora, domesticado pela primeira barragem nos diz:

ei-lo agora entoirido, manso, paralítico, passeado numa lancha a vapor, sem sobressalto de qualquer ordem”.

Aspeto dum Barco Rabelo com pipas de vinho a navegar no rio Douro (Foto Guedes, Coleção Casa do Infante, c.1900)
Aspeto dum Barco Rabelo com pipas de vinho a navegar no rio Douro (Foto Guedes, Coleção Casa do Infante, c.1900)

Foi o tempo em que os meus olhos de criança, primeiro, e já de rapazote, depois, se deliciavam olhando para um rio ainda vivo, com os rabelos enfrentando a rebeldia do Douro, carregados de barris e de velas quadrangulares de pano-cru enfunadas pelo vento, com o arrais empoleirado, em equilíbrio em cima da apègada, agarrado à espadela, de olhar sempre alerta para descobrir os remoinhos e os penedos que afloravam das águas e representavam perigo para a sua embarcação; ou os barcos de passagem que via atravessar o rio, de margem a margem, ajoujados de pessoas ou de géneros, pois as pontes ainda não eram muitas nem o rio estava domesticado pelas barragens que o transformaram numa sucessão de lagos de águas calmas. Se a melhoria das vias de comunicação, rodoviárias e ferroviárias foram, aos poucos, substituindo os rabelos, as barragens deram-lhes o golpe de misericórdia.

Hoje, já a juventude não poderá presenciar estas embarcações, verdadeiros ex-libris do Douro, vogando por vezes em frotas, mais ou menos numerosas, rio-abaixo transportando barris de vinho do Porto, ou rio-acima fazendo transporte de géneros. Nem mesmo poderão apreciar a azáfama das descargas nos cais dos armazéns das caves na Ribeira de Vila Nova de Gaia. Com o desaparecimento dos rabelos, tudo o mais também se foi! O progresso tem destas consequências…

Agora, para se saber o que foram estas emblemáticas embarcações, só terão o exemplar em exposição no Museu do Douro, na Régua, ou aquela dúzia que estaciona, sonolenta, na Ribeira de Gaia mas que, em vez de velas quadrangulares de pano-cru, ostenta velas coloridas, com as cores das caves suas proprietárias, e que acordam do seu sono letárgico uma vez por ano, para participarem na regata anual das festas sanjoaninas do Porto e Vila Nova de Gaia.

... aquela dúzia que estaciona, sonolenta, na Ribeira de Gaia, e que acorda do seu sono letárgico uma vez por ano, para participarem na regata anual das Festas Sanjoaninas
… aquela dúzia que estaciona, sonolenta, na Ribeira de Gaia, e que acorda do seu sono letárgico uma vez por ano, para participarem na regata anual das Festas Sanjoaninas

No entanto, para comprovar a importância e a nobreza destas embarcações, são bastantes as freguesias e as localidades ribeirinhas do rio Douro que as ostentam nos seus brasões.

Convirá, na circunstância, referir que a história do concelho de Mesão Frio se confunde com a história de Portugal, o que faz dele não só dos mais antigos da região duriense, mas também do país. Recebeu foral em Fevereiro de 1152, concedido pelo nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, havendo registos da sua existência anos antes do seu reconhecimento como rei. Nessa época, no século XII, tomava o nome de Meijon-frio.

Porém, o seu período de maior prosperidade, viria a ser conseguido após a demarcação pombalina, no século XVIII. Com a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, cujos capítulos foram aprovados por alvará régio assinado por Sebastião de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, em 10 de Setembro de 1756, busca-se assegurar a qualidade do produto, evitando adulterações, equilibrar a produção e o comércio, além de conseguir, com tal alvará, estabilizar os preços. Origina-se, assim, o aumento da produção vinícola, em especial dos vinhos generosos que, por arrastamento, vai beneficiar as condições socioeconómicas locais.

Alberto Pereira, Presidente da Câmara Miunicipal de Mesão Frio e Isabel Ferreira, Secretária de Estado da Valorização do Interior, procedem ao descerramento da placa com os seus nomes. (imagem CM Mesão Frio)
Alberto Pereira, Presidente da Câmara Miunicipal de Mesão Frio e Isabel Ferreira, Secretária de Estado da Valorização do Interior, procedem ao descerramento da placa com os seus nomes. (imagem CM Mesão Frio)

Finalmente e felizmente, é de louvar ter surgido uma autarquia que resolveu dar ao barco rabelo e aos marinheiros que os guarneceram o merecido reconhecimento ao criar o Centro Interpretativo do Barco Rabelo, que foi inaugurado no passado dia 30 de Novembro de 2020, coincidindo com a comemoração dos 868 anos da fundação de Mesão Frio. Neste dia, que foi também feriado municipal, ocorreu uma sessão solene no Auditório Municipal presidida pela Secretária de Estado da Valorização do Interior, Isabel Ferreira. Compuseram também a mesa de honra, o presidente da Câmara Municipal, Alberto Pereira, o presidente da Assembleia Municipal, Carlos Silva e o autor da obra literária “Rabelos & Barcas de Passagem no Concelho de Mesão Frio”, Bernardino Vieira de Oliveira.

Num primeiro momento, foi apresentada a obra literária de Bernardino Vieira de Oliveira; autor local, “Rabelos & Barcas de Passagem no Concelho de Mesão Frio”. Esta obra nasceu com o intuito de prestar homenagem às gentes ribeirinhas, em especial da freguesia de Barqueiros, de onde era oriunda a maior parte dos marinheiros dos barcos rabelos que transportavam as pipas de “vinho fino” para as caves do Porto e Vila Nova de Gaia. Num segundo momentos foram entregues condecorações a personalidades que trabalharam ou trabalham na Câmara Municipal de Mesão Frio e que, por bons serviços, elevaram o nome do concelho. Finalmente, procedeu-se à inauguração do Centro Interpretativo do Barco Rabelo numa freguesia ribeirinha do rio Douro.

O Centro Interpretativo do Barco Rabelo está instalado numa antiga escola primária do lugar da Rede (imagem CM Mesão Frio)
O Centro Interpretativo do Barco Rabelo está instalado numa antiga escola primária do lugar da Rede (imagem CM Mesão Frio)

Nesta inauguração, que ocorreu pelas 12 horas, foi descerrada uma placa comemorativa pela Secretária de Estado da Valorização do Interior, Isabel Ferreira, tendo estado também presentes o Presidente da Câmara Municipal de Mesão Frio, Alberto Pereira, o Vice-presidente, Paulo Silva, o presidente da Assembleia Municipal, Carlos Silva, o presidente da Junta de Freguesia de Vila Marim, Vítor Fonseca, o Deputado da Assembleia da República, Francisco Rocha, o vogal da Comissão Directiva do Norte 2020, Humberto Cerqueira e o Presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), Gilberto Igrejas.

Este Centro Interpretativo do Barco Rabelo está instalado numa antiga escola primária do lugar da Rede, próxima da estação ferroviária, na freguesia de Vila Marim, concelho de Mesão Frio. Foi uma operação candidatada ao aviso NORTE-28-2018-37 – Estratégias de eficiência colectiva PROVERE – Projectos Âncora, com um investimento total e elegível de 250.474 €, apoiado em 204.850 €, ao que corresponde uma taxa de comparticipação de 81,78%.

Os visitantes percorreram com interesse a exposição (imagem Reinaldo Delgado)
Os visitantes percorreram com interesse a exposição (imagem Reinaldo Delgado)

É pena, porém, que o Centro Interpretativo seja tão exíguo, reduzido a duas salas, e o espólio que acolhe seja ainda escasso, o que, apesar disso, não deixa de ter interesse. Numa das salas figura uma vela de rabelo e, juntos, alguns barris, idênticos aos que este barco transportaria, numa alusão àquela emblemática embarcação. Na parede, uma representação, em corte e em grande escala, da estrutura construtiva de um barco rabelo. Na outra sala são exibidos filmes multimédia da faina dos rabelos.

Poderá considerar-se o embrião de um verdadeiro Museu. Uma vez que a freguesia de Barqueiros era a maior fornecedora de marinheiros para os rabelos, é provável que por lá seja possível a existência de objectos pertencentes a estas embarcações.

Também não seria descabido pensar-se na constituição de um Grupo de Amigos que, se for activo, muito poderá contribuir para o enriquecimento de um tal eventual equipamento que, de resto, é bem merecido. Por certo, não deverão faltar modelistas capazes de construir maquetas de rabelos, rabões, barcos de passagem, valboeiros e embarcações da família dos barcos rabelos. E, porque não, procurar patrocinadores para a construção de um rabelo? Não dará para se pensar nisso? Por esta amostra, centralizada no Centro Interpretativo do Barco Rabelo, a autarquia parece capaz de empreender voos bem mais ambiciosos.

Oxalá, seja capaz de não esmorecer. O barco rabelo bem merece esse esforço!

(artigo redigido com a colaboração de Reinaldo Delgado)

N.R.  O C.I. do Barco Rabelo encontra-se aberto ao público, no horário normal de expediente, das 9 às 13 horas e das 14 às 17 horas e a entrada é gratuita. Também tem página no Facebook

Contactos do C.I. do Barco Rabelo:

Tel. 254 090 209  / e-mail. cibrabelo@cm-mesaofrio.pt

 

Fernando Paiva Leal

Arquitecto, nascido e residente em Paredes, distrito do Porto. É membro do Grupo de Arqueologia Naval do Noroeste e da Confraria Marítima de Portugal. Por opção não respeita o acordo ortográfico.

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