Ciência e Tecnologia

D CARLOS I: dois meses e meio em África

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NRP D. CARLOS I esteve na costa ocidental africana entre 1 de outubro e 22 de dezembro

O navio, que largou de Portugal no 1 de outubro, foi empenhado em diversas atividades de cooperação com a Guiné-Bissau e Cabo Verde, mas também com o Senegal, Mauritânia e Marrocos, visando a realização de um conjunto de atividades contributivas para o esforço integrado de segurança cooperativa da CPLP, na costa ocidental africana, e para satisfação dos compromissos internacionais assumidos por Portugal com outros países africanos.

A bordo cinquenta militares, entre marinheiros, fuzileiros, mergulhadores e técnicos de saúde e hidrografia

Atracado em Bissau (foto MGP)

A bordo do navio, para além da guarnição de 37 militares, estiveram também embarcadas: uma equipa da Brigada Hidrográfica do Instituto Hidrográfico, uma equipa de fuzileiros do pelotão de abordagem, uma equipa de mergulhadores e um médico da Marinha, num total de 50 militares.

A missão enquadrou-se no âmbito da cooperação técnico-militar e de ações de apoio à diplomacia, em particular com os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e decorreu dentro da iniciativa MAR ABERTO 17, sob égide da Direcção-Geral de Política de Defesa Nacional (DGPDN).

Missão na Guiné-Bissau

O NRP D. CARLOS I, chegou a Bissau a 12 de outubro, tendo como objectivo principal a realização duma missão hidrográfica .

Membros da equipa médica em Bissau (foto MGP)

Adicionalmente, numa componente de apoio humanitário, o D. CARLOS I apoiou a Organização Não Governamental para o Desenvolvimento “Meninos do Mundo”, transportando desde Portugal, material de apoio (roupas, brinquedos e material escolar) para crianças carenciadas. ​O material foi entregue aos orfanatos “Lar Bethel” e “AMIC” (Associação dos Amigos da Criança). Vários militares da guarnição do NRP D. Carlos I colaboraram na distribuição dos bens, e a equipa médica do navio realizou várias consultas de observação às crianças.

No que respeita aos resultados dos trabalhos de hidrografia, para além do levantamento hidrográfico no rio Geba e de acessos ao porto comercial de Bissau, regista-se a descoberta de cinco navios afundados, que recurso à tecnologia de ponta multifeixe instalada a bordo ficaram completamente retratados. Note-se que o último levantamento hidrográfico tinha sido feito em 1967.
A Marinha portuguesa, que está também a estudar as alterações das marés, descobriu uma diferença de 50 centímetros entre a maré prevista e a real e 50 minutos de desfasamento.  O último estudo das marés fora realizado nos anos 50 do século XX.
O navio despediu-se de Bissau no dia a 27 de outubro e rumou a Cabo Verde.

Os trabalhos em Cabo Verde

O D. CARLOS I esteve em Cabo Verde de 6 de novembro a 3 de dezembro para realizar trabalhos de hidrografia e ações de vigilância e fiscalização, no âmbito dos acordos de cooperação com Cabo Verde.
O navio chegou a 06 de Novembro ao porto da Praia, onde apresentou cumprimentos protocolares às autoridades locais e largou no dia seguinte para as ilhas da Boavista e do Sal, para dar início aos trabalhos hidrográficos. Posteriormente esteve no Mindelo de 14 a 17 de novembro e regressou à Praia a 28.

levantamento do Porto de Sal Rei, Boa Vista (foto MGP)

Os trabalhos em Cabo Verde visaram a obtenção de dados dos fundos dos portos do Porto Novo (Santo Antão) e Porto Grande (Mindelo), no canal de São Vicente e de um banco a noroeste da ilha de Santo Antão, permitindo a Cabo Verde atualizar a informação de segurança marítima das cartas náuticas dos seus portos comerciais.
A guarnição do navio realizou diversas ações de cooperação com os militares da Guarda Costeira de Cabo Verde, no âmbito da partilha de informação nas áreas da emergência médica e suporte básico de vida e áreas técnicas da manutenção e operação de máquinas marítimas.
Coincidindo com a segunda fase da permanência do navio na cidade da Praia, decorreu, a 29 e 30 de Novembro, um seminário sobre segurança marítima com a participação de responsáveis militares e políticos da área da defesa de Portugal e Cabo Verde.

Cooperação técnico-militar na Mauritânia

Comandante Palma Ribeiro em cumprimentos às autoridades mauritanas (foto MGP)

Esteve atracado no porto comercial de Nouakchott, no período de 31 de novembro a 3 de dezembro, período durante o qual realizou ações de formação aos Fuzileiros da Marinha da Mauritânia, especificamente em técnicas de abordagem e reconhecimento de praia pelo Pelotão de Abordagem dos Fuzileiros Portugueses, bem como instrução de mergulho pela equipa de Mergulhadores da Armada e também emergência médica em combate pela equipa médica naval portuguesa.

As visitas a Dakar e a Casablanca

Atracado em Dakar, Senegal (foto MGP)

Mais recentemente o navio visitou Dakar, no Senegal, onde estabeleceu contacto com a diáspora e com a Marinha daquele país.

Largou de Dakar no dia 12 de dezembro e atracou em Casablanca no dia 18, tendo efectuado atividades no âmbito das relações de cooperação bilateral entre Portugal e Marrocos.

 

 

Da vigilância de submarinos, na Guerra Fria, à Oceanografia e Hidrografia

O navio, ainda com a pintura cinzenta, no cais de Alcântara, à chegada Portugal, em 1997 (foto MGP)

O NRP D. CARLOS I, ex-USNS(*) AUDACIOUS (T-AGOS 11) era um navio norte-americano da classe STALWART, uma classe de dezoito navios especializados em vigilância oceânica, mais propriamente deteção antecipada de submarinos. Com o colapso da ex-União Soviética e da frota de submarinos russa, aqueles navios foram desactivados prematuramente e oferecidos aos países aliados dos EUA. O USNS AUDACIOUS foi transferido para Portugal em 1997. Em Portugal, juntamente com o seu irmão NRP GAGO COUTINHO, ex-USNS ASSURANCE (T-AGOS 5), sofreu importantes trabalhos de adaptação tendo sido equipado com aparelhos e sistemas sofisticados para a execução de trabalhos hidrográficos ou oceanográficos. Ambos os navios dispõem hoje de áreas laboratoriais para pesquisar parâmetros biológicos, físicos e químicos, entre outras capacidades, executando missões científicas de apoio às operações militares e à comunidade científica, em águas nacionais e internacionais.

(*) USNS – United States Naval Ship, é o prefixo dos navios detidos pela marinha norte-americana, não armados e operados por uma tripulação civil.  É o caso dos navios de reabastecimento, de pré-posicionamento logístico e do Special Mission Program (a que pertenciam o AUDACIOUS e o ASSURANCE) do Military Sealift Command. Estes navios têm no seu indicativo visual a letra T, que significa uma tripulação civil.

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada.