História

Duas esquadras e dois mundos no Tejo (ainda a visita da Home Fleet a Lisboa)

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As esquadras, britânica e alemã, que se encontraram no Tejo, em três de Fevereiro de 1938, encontraram um país substancialmente diferente das suas pátrias, mais atrasado em termos sociais, económicos e culturais.

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Salazar e o MNE da África do Sul, Pirow, na Tapada de Mafra em 28 de Outubro de 1938 – a actividade diplomática era intensa naquela época (Arquivo de O Século ANTT)

Portugal, era governado pelo Professor Oliveira Salazar, que no decorrer da sua longa carreira de chefe de governo (1932 a 1968), teve duas grandes preocupações, verdadeiras obsessões, às quais dedicou toda a atenção possível: o equilíbrio das finanças públicas e a integridade do território.

Esta última podia ser assegurada por duas formas: com umas forças armadas fortes, e/ou com uma diplomacia subtil, coerente e perseverante.

Uma vez que a existência de forças armadas fortes, significava despesas, e estas o desequilíbrio das finanças, Salazar apostou fortemente na condução da política externa. A qualidade desta, exigia apenas a qualidade dos seus recursos humanos, e estes o Professor Salazar tinha-os, se não em abundância (o que é que abundava no país?) pelo menos em número suficiente. Foi buscar aqueles recursos, ao meio rústico e erudito da sua Universidade de Coimbra, a colegas como Mário de Figueiredo ou a mestres como Caeiro da Mata, e misturou-os com o cosmopolitismo competente das Necessidades, expresso por exemplo em Teixeira de Sampaio, o Secretário-Geral, ou Armindo Monteiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros.

O objetivo principal de toda a política externa de Salazar, consistia na premência de subtrair Portugal aos perigos e agruras de um alinhamento comprometido, que nos fizesse entrar num conflito onde teríamos tudo a perder, em sangue e fazenda. Esta última, na forma dramática de territórios.

Durante a guerra civil de Espanha, aquele estado de coisas foi conseguido com o estatuto de não intervenção, e na segunda guerra mundial, com o de neutralidade.

No início de 1938, o conflito mundial estava iminente. E este, para além de constituir mais uma guerra civil europeia, depois de 14/18, seria ao que tudo começava a indicar um equívoco, já que iria opor as democracias decadentes às ditaduras aristocráticas, quando afinal o grande inimigo a abater era o comunismo soviético.

Conservar aquele estatuto, significava promover e manter um equilíbrio entre os dois mundos distintos que aquelas duas esquadras representavam. A razoabilidade burguesa e participada dos ingleses, versus o triunfo da vontade e da força dos esclarecidos alemães.

Descontado o desconforto do paganismo teutónico, Salazar inclinava-se pelo segundo modelo, tão de acordo com as suas leituras coimbrãs de Charles Maurras, e com os seus princípios católicos e monárquicos.

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HMS NELSON e HMS RODNEY, com três couraçados da classe REVENGE

Se há facto demonstrado pela experiência, é que a democracia e o liberalismo se esgotaram no último século, diria o chefe do governo português, ainda durante a guerra, aos microfones da Emissora Nacional, num discurso a vinte e cinco de Junho de 1942.

Mas a esquadra inglesa representava um dos pilares essenciais da nossa doutrina de assuntos externos e de defesa da nação, e no caso particular, do estado, como fosse a veneranda aliança Anglo-Portuguesa, firmada em 1373, e o mais antigo instrumento deste género em vigor no mundo, tantas vezes colocada em causa, ou traída, pelos ingleses, mas também com bons serviços prestados, como no episódio da preservação da independência face às invasões napoleónicas, no transporte da corte e reconhecimento da nossa soberania, no Brasil, entre 1808 e 1821.

Equilíbrio, equilíbrio e equilíbrio. Se a isto se juntasse a prudência e a firmeza, ficava-se com o essencial da política externa portuguesa.

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Armindo Sttau Monteiro, era então, MNE de Portugal

Anglófilo confesso, Armindo Monteiro ousou por duas vezes desfazer aquele equilíbrio, fazendo as Necessidades inclinaram-se para a Inglaterra, e por duas vezes isto custou-lhe o cargo. Na primeira, o de Ministro dos Negócios Estrangeiros, nomeando-se Salazar a si próprio em substituição, e na segunda, o de Embaixador em Londres, sendo substituído no posto pelo Duque de Palmela.

Mas em contrapartida, quando a Juventude Hitleriana pretendeu desfilar pela Avenida abaixo até aos Restauradores, bastou uma conversa entre o Cardeal Manuel Cerejeira, e o Presidente António Salazar, os amigos Manuel e António dos tempos de Coimbra, para o intento se gorar, sob pretexto de que se tratava de um movimento ateu, ou ainda pior, pagão.

A Lisboa que as tripulações das duas esquadras foram encontrar, também ainda não era a colmeia de espiões que seria dentro de três ou quatro anos.

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Tripulações inglesas nas ruas duma cidade

Em 1938, alemães e ingleses ainda conseguiam conversar à mesa das negociações, dos jantares de amigos, ou das tascas e bordéis, que enxameiam as zonas portuárias de todo o mundo.

Com o eclodir e o desenvolvimento da guerra, Portugal e o eixo Lisboa-Estoril iam passar a concentrar a maior quantidade de espiões à superfície da Terra. Afinal, na Suíça também não havia guerra, mas dali não se conseguia partir para os Estados Unidos.

É muito provável que na própria noite de três de Fevereiro de 1938, as tripulações inglesas e alemãs tivessem confraternizado em Lisboa, como o faziam em Xangai, Montevideu ou Istambul, no meio de brindes recíprocos.

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Tripulação alemã no convés dum navio.

Mas estavam longe de adivinhar que dentro de pouco mais do que um ano, os artilheiros iam disparar uns contra os outros, juncando o fundo dos oceanos com os seus cadáveres.

Apesar de toda esta tragédia, o facto de ainda não ter havido outra guerra, talvez seja motivo mais que suficiente para também brindarmos ao seu heroísmo e sacrifício.

 

 

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.