Património Cultural Marítimo

Eça de Queiroz e a visita do MIANTONOMOH a Lisboa

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O escritor Eça de Queirós, figura de proa da literatura portuguesa do século XIX, iniciou a sua vida literária na Gazeta de Portugal, no mesmo ano de 1866 em que, terminado o Curso de Direito em Coimbra, se instalou em Lisboa.

O jornal Gazeta de Portugal encontrava-se já numa fase de declínio, terminando a sua publicação no ano seguinte, mas as invulgares prosas de Eça não deixaram de abalar os círculos mais ou menos adormecidos das tertúlias literárias da época. Um desses textos reveste-se de particular interesse por se ocupar da visita à capital portuguesa de uma divisão naval dos Estados Unidos da América composta por duas unidades, uma das quais o monitor USS MIANTONOMOH1.

Terminada a traumática Guerra da Secessão, a administração norte americana decidiu enviar à Europa, numa missão em parte diplomática, em parte prospetiva, uma pequena força de três unidades: as canhoneiras a vapor com rodas de pás Augusta e Ashuelot, e o monitor Miantonomoh. O Ashuelot era uma unidade nova, que depois de escalar Queenstown (Kobh), na Irlanda, abandonou a divisão, rumando a sul para, via Cabo da Boa Esperança, ocupar o posto que lhe estava destinado, em Hong Kong. Toda a viagem dos navios foi preparada como uma operação de charme, necessária depois das perturbações causadas pela luta entre a União e os Estados Confederados, que também nos tocaram no caso dos blockade runners2. O facto de um alto funcionário do Departamento da Marinha, o Assistant Secretary Gustavus Fox acompanhar a missão a bordo do Miantonomoh sublinha a importância atribuída à viagem e aos esperados resultados, cuidadosamente definidos pelo Secretário Gideon Welles.

O Miantonomoh, equipado para navegação oceânica, cerca de 1870 (foto NHHC)

O interesse dos americanos pela evolução das marinhas militares na Europa era grande

O interesse dos americanos pela evolução das marinhas militares na Europa era grande, sobretudo em relação a blindagem, artilharia e propulsão, pois havia uma clara percepção que o tempo dos navios mistos, à vela e a vapor, construídos de madeira, terminara face à rápida evolução das granadas explosivas e incendiárias. O uso de navios blindados, tipo Monitor, no decurso da guerra civil americana demonstrou o seu valor militar, tanto mais que as unidades de construção tradicional nem sempre levaram a melhor. Por esta época, a França lançara a célebre fragata La Gloire, inovando em muitos aspectos, mas sem abandonar o sistema de bordada, levando as principais marinhas mundiais a seguirem-lhe o exemplo, quando possível, mas sem esquecer o que se passara na América. Por isso, havia grande interesse, ou pelo menos, curiosidade, a propósito dos monitores, razão porque a viagem do Miantonomoh despertou entusiasmo entre o público e suscitou alguns receios por parte dos meios mais esclarecidos3, sentimento que o circunspecto Times londrino reflectiu, quando a divisão aportou a Portsmouth, comparando o Miantonomoh a um lobo no redil.

O esquadrão partiu dos Estados Unidos a 5 de Junho de 1866, aportando a Queenstown a 16 do mesmo mês. Durante a maior parte da travessia o Miantonomoh foi rebocado pelo Augusta, o que não cremos ter sido motivado apenas por razões de precaução, mas devido às características do navio, pouco apto para travessias oceânicas. Recordamos o que aconteceu em 1915 com os monitores britânicos Severn e Mersey, rebocados até à África Oriental para participarem no combate contra o cruzador alemão SMS Königsberg. Navios de borda livre reduzida e fraca reserva de flutuação, inspiraram a construção de algumas grandes unidades na segunda metade do século XIX, com resultados duvidosos, quando não desastrosos, como no caso da tragédia do HMS Victoria, na costa do Líbano, em 1893. Todavia, era o aspecto bizarro dos monitores, simples plataformas de artilharia, que em parte despertava interesse.

Eça de Queirós não se ocupou do Augusta, navio de tipo idêntico a muitos outros que aportavam a Lisboa, mas sim do Miantonomoh, que talvez por gralha tipográfica ocorre no artigo como Miautonomah, usando-o como motivo para reflectir sobre o estatuto mundial dos Estados Unidos, superpotência emergente e diferente, cuja ascensão inspirada por uma interpretação especial da Doutrina Monroe e, pelo menos parcialmente, pela ideia do destino manifesto, levou Kipling, uma geração depois da guerra civil, a escrever o poema The White Manʼs Burden como uma polida advertência ao imperialismo americano, apoiado na superioridade industrial e financeira, de que o Miantonomoh constituía uma imagem clara. O monitor e o Augusta aportaram a Lisboa, depois de um longo périplo por vários portos europeus durante o Verão e parte do Outono, em Novembro de 1866, daqui partindo em direcção ao Mediterrâneo, onde se demoraram até Maio de 1867, rumando de Gibraltar para os Estados Unidos, onde chegaram via Canárias, Cabo Verde e Bahamas, em finais de Julho4.

O Miantonomoh, com o Augusta e o Ashuelot, fundeados no porto de St Johnʼs, Newfoundland, no início do cruzeiro europeu (foto NHHC).

 

Em Lisboa, Eça fez parte daquelas multidões que sempre visitavam o navio durante a sua estada nos portos

Em Lisboa, Eça fez parte daquelas multidões que sempre visitavam o navio durante a sua estada nos portos, referidas no relatório que Alexander Murray, comandante do Augusta, apresentou ao Secretário Welles no final do cruzeiro. O texto queirosiano, publicado na edição de 2 de Dezembro de 1866 da Gazeta de Portugal, é relativamente longo e nele podemos distinguir três linhas essenciais: histórica, tecnológica e sociopolítica. É patente a admiração do escritor pelo progresso conseguido pelos americanos desde a chegada dos Pilgrim Fathers, não sem revelar as suas preocupações de ordem social quanto a algumas características da sociedade norte-americana, em especial a sua vertente francamente materialista, que volta a verberar aquando da viagem que efectuou àquele país em 1873, através de impressões transmitidas in loco na correspondência com Ramalho Ortigão, sobretudo quando o exemplifica através da vivência nova-iorquina5.

Dos primeiros emigrantes diz o seguinte no artigo da Gazeta de Portugal, antes de comparar o navio com uma tábua rasa imune às violências do mar: Aquela colónia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, rotos, que dormiam às humidades do ar, numa capa esfarrapada, é hoje a América do Norte – os Estados Unidos. América do Norte significa trabalho, fé, heroísmo, indústria, capital, força e matéria. Ultimamente vi eu o Miautonomah, sinistro e negro caçador de esquadras: é todo a imagem da Amér̶ica – frio, sereno, contente, material, e cheio de fogos, de estrondos, de maquinismos, de forças e de fulminações. É o que amedronta naquele navio: – a frieza na força. A descrição do monitor continua noutros parágrafos: Ele não receia o mar: os outros navios erguem amuradas imensas para conter o encrespamento da onda: forram-nas de cobre, eriçam-nas de pregaria. O Miautonomah não: ele julga a demência do mar um prejuízo: corta a amurada e fica com o convés raso, ao rés da água […]. Como não há mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a amontoação confusa de calabres e de lonas – o tombadilho aberto é cheio de ar e de luz.

Eça realça o aspecto estranho do navio, pouco habitual, navio que deve ter visitado interiormente, como se deduz do que se segue: Dentro são as máquinas, as forças: os motores trabalham solitários, com vozes, impaciências, preguiças, friamente, como as fatalidades da matéria. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flamejantes que dão vida aos maquinismos – vermelhas como corações sobrenaturais: o ar é descido por máquinas de respiração, pulmões terríveis e um vento geral, fecundo, benéfico, escorre constantemente por todo o negro bojo.

O escritor termina com uma nota que se afasta bruscamente do tecnicismo, trazendo o exemplo do poderio bélico para o campo da humana sensibilidade: Ora sobre aquele negro navio, sobre os maquinismos frios, aquelas forças vaporosas, aquelas fogueiras terríveis, no convés, entre as negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoaçando na sua gaiola – canta um canário. Tal é o Miautonomah, navio de guerra da América do Norte.

Digamos que o artigo de Eça de Queirós, mais que procurar descrever um navio de guerra, desenvolve uma reflexão um tanto ambígua sobre a sociedade norte-americana, as suas grandes contradições e as suas ambições internas e externas. Por isso, metade do artigo é preenchido por considerações de ordem filosófica, cultural e social, que não iremos desenvolver uma vez que tal nos afastaria do tema central, o Miantonomoh. Como é sabido, Eça era um admirador das ideias socialistas, defendidas civicamente pela escrita, e de forma mais prática, por exemplo, na defesa dos trabalhadores chineses enviados através de Macau para Cuba, quando foi cônsul em Havana.

O artigo a propósito do Miantonomoh foi escrito pelo autor aos vinte e um anos de idade

Eça de Queiroz cerca de 1868

O artigo a propósito do Miantonomoh foi escrito pelo autor aos vinte e um anos de idade, o que em parte explica o entusiasmo com que exprime as suas opiniões, raramente temperadas por alguma aparente hesitação. Reconhece mesmo, no final do artigo, a existência de forças capazes de levantar a América na defesa de princípios de justiça social, aludindo naturalmente às causas próximas da guerra civil, sem que fale em igualdade. Digamos, em abono da verdade, que em 1866 restava um longo caminho a percorrer depois da vitória da União, no sentido do amor das raças, da liberdade e do direito, como a história recente e a iconoclastia que se agora abate sobre os símbolos confederados parece demonstrar.

A visita a Lisboa da divisão naval dos Estados Unidos que levou Eça, quase de forma premonitória, a vislumbrar o futuro de grande potência naval reservado aquele país, que já então derramava esquadras épicas pelos oceanos e mares do globo, no dizer do escritor, faz-nos recordar as visitas da 6th Fleet norte-americana à nossa capital, nos anos cinquenta do século passado, quando o que aos europeus contemporâneos de Eça parecera estranho se tornara numa verdade incontestável, sob um mote que se aproxima daquilo que o escritor desejava para os Estados Unidos: Power for Peace.

Vejamos as características do monitor USS Miantonomoh, construído no estaleiro de Brooklyn, em Nova Iorque, no decurso da guerra civil e aumentado ao efectivo em 1865. Recebeu o nome, que ocorre com algumas variantes, de um célebre chefe nativo da tribo dos Narraganssett, na Nova Inglaterra6, prática usual nos navios da União. Possuía duas torres, artilhadas com peças de 380 mm, duas em cada torre. Era propulsionado por quatro caldeiras Martin, que foram objecto de polémica por serem consideradas pouco fiáveis em combate7, caldeiras que moviam dois hélices, permitindo uma velocidade de sete nós. O navio, de 3400 toneladas, contava com uma equipagem de 150 homens e durante o cruzeiro à Europa percorreu quase 1800 milhas, sob o comando de John Beaumont8. O entusiasmo popular nos Estados Unidos foi grande, a ponto do compositor Heinrich Fürstnow ter composto uma peça para piano, dedicada ao Secretário Fox, intitulada Miantonomoh-Galop, editada em Nova Iorque em 1867, a qual deve ter sido tocada por muitas meninas prendadas da época.

O Miantonomoh navegando a todo vapor (aguarela de Oscar Parkes)

Como era o navio monitor USS MIANTONOMOH

Para viagens oceânicas o Miantonomoh podia utilizar um mastro de traquete, dotado de velas, e cabinas de pilotagem instaladas sobre as torres, o que não sucedeu durante a viagem europeia, resultando provavelmente da experiência nela adquirida Projectado pelo engenheiro John Lenthall, fez parte de um grupo de quatro monitores cuja construção se iniciou em 1862 (Miantonomoh, Agamenticus, Monadnock e Tonawanda). O casco do navio era de madeira, protegido por uma blindagem de ferro com 13 centímetros de espessura, valor que duplicava na blindagem das torres. Entre as torres existia uma plataforma de manobra e um grande ventilador, blindado como a chaminé, que garantia o arejamento do interior referido por Eça.

A construção do casco em madeira provocou problemas de manutenção complicados, pelo que o Miantonomoh, de novo atribuído ao Esquadrão do Atlântico Norte, foi colocado em reserva em 1870. As experiências da guerra civil e o rápido progresso da tecnologia naval que decorria na época, preludiando o triunfo dos couraçados, levaram a que o Secretário George Robenson desenvolvesse um plano de reestruturação naval, aprovado pelo Congresso em 1874. O Miantonomoh foi desmantelado em Boston em 1875, sob o pretexto de uma reparação aprovada pela lei, surgindo um navio novo com idêntico nome, agora com casco em ferro e armamento superior.

A visita do Miantonomoh não deixou de impressionar os responsáveis pela Armada portuguesa, asfixiada pela crónica falta de verbas, situação que levou Eça a redigir, em 1871, um texto mordaz e acusatório da incapacidade governativa9. Ainda assim, em 1876 chegava ao Tejo a corveta-couraçada Vasco da Gama, espécie de promessa a um país que sempre necessitou de meios navais. Para além da constatação do êxito americano, ainda que imperfeito, as reflexões de Eça de Queirós em torno do Miantonomoh não foram alheias, seguramente à realidade naval portuguesa: Tais coisas me lembraram há dias, ao visitar o Miautonomah, fundeado no nosso Tejo.

 

Notas

1 – Eça de Queirós, O Miautonomah, Prosas bárbaras, Porto, 19287: 71-80; Carlos Reis e Ana Peixinho (eds.), Edição crítica das obras de Eça de Queirós. Textos de imprensa, 1, Lisboa, 2004: 115-122.

2 – R. Madruga da Costa, A valia estratégica dos Açores na manobra naval da Guerra de Secessão Americana, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 19, 2010: 373-386; William Gould IV, Diary of a Contraband: the Civil War Passage of a Black Sailor, Stanford, 2002: 231-236.

3 – Howard Fuller, “A portentous spectacle”. The Monitor USS Miantonomoh visits England, International Journal of Naval History, 4 (3), 2005: 1-31; Empire, Technology and Seapower: Royal Navy Crisis in the Age of Palmerston, Londres, 2013.

4 – Naval History and Heritage Command, Miantonomoh I (Monitor), [https//www.history.navy.mil/research/histories/ship-histories/danfs/html: [consultado a 1.10.2017].

5 – Eça de Queirós, Correspondência, Porto, 1928: 10-21.

6 – John Palfrey, History of New England During Stuart Dinasty, II, Boston, 1865: 112-142.

7 – Edward Dickerson, The Navy Department. The “Double-Ender Boilers”, The New York Times, 15.5.1864.

8 – Donald Canney, The Old Steam Navy, 2, Annapolis, 1993: 68-70.

9 – Eça de Queirós, Uma campanha alegre, 1, Porto, 1979: 134-138.

Doutor em Pré-História e Arqueologia pela Universidade de Coimbra. Membro da Academia de Marinha (emérito) e da Sociedade de Geografia de Lisboa, entre outros. Investigador de história romana e história marítima. Conta com cerca de 200 publicações em revistas especializadas.