Marinha de Guerra

EL-MELLAH pela primeira vez em Portugal

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Na manhã do 24 de julho o novíssimo navio escola EL-MELLAH, da Marinha de Guerra da Argélia, atracou pela primeira vez num porto português, mais concretamente no Cais da Rocha, em Lisboa. A sua estadia durou até 27 de julho, dia em que largou com destino a Portsmouth.

O EL-MELLAH, que em português significa “o marinheiro”, foi projetado pelo famoso arquiteto naval Zygmunt Choren[1], através da Choren Design & Consulting Design, tendo sido construído nos estaleiros polacos Remontowa Shipbuilding SA, em Gdansk. Foi lançado à água em 7 de novembro de 2015, com o número de amura 938, foi mastreado em dezembro de 2016 e entregue à Marinha de Guerra Argelina em 21 de outubro de 2017, numa cerimónia onde a bandeira da Argélia foi içada pela primeira vez. Não existindo na Marinha Argelina conhecimento para operar um grande veleiro o seu contrato de construção incluiu o adestramento da sua guarnição a bordo do navio escola polaco DAR MLODZIEZY[2], que possui um aparelho velico semelhante.

EL-MELLAH significa “o marinheiro” em Português e possui o número de amura 838
EL-MELLAH significa “o marinheiro” em Português e possui o número de amura 838.

País com tradições marinheiras, a sua capital, Argel, foi um importante porto corsário, chegando a disputar o domínio do mar Mediterrâneo e parte do Atlântico Nordeste com as diversas potências marítimas europeias, atacando a sua navegação. O seu navio de eleição foi o Xaveco, de formas finas com dois ou três mastros e aparelhado, normalmente, com vergas de bastardo.

 Um Xaveco Espanhol a dar combate a duas galeotas argelinas (óleo sobre tela - 1902 de Ángel Cortellini y Sánchez- Museo Naval de Madrid).
Um Xaveco Espanhol a dar combate a duas galeotas argelinas (óleo sobre tela – 1902 de Ángel Cortellini y Sánchez- Museo Naval de Madrid)

Muito bom de bolina o xaveco podia ganhar barlavento aos navios que lhe tentavam dar combate, furtando-se a este se assim o entendesse. Para repelir os ataques destes e de outros corsários Portugal, no início do século XVI, criou três armadas com o intuito de proteger a navegação portuguesa: A Armada do Estreito, que operava nas proximidades do estreito de Gibraltar com o objetivo de impedir a passagem dos corsários do Mediterrâneo para o Atlântico; a Armada da Costa, que protegia a navegação junto à costa de Portugal Continental e a Armada da Ilhas, que operava ao largo dos Açores com o intuito de proteger os navios em torna-viagem do Oriente, África e Brasil.

 EL-MELLAH a navegar à vela. (foto gentilmente cedida pelo Lieutenant-colonel Zoubir Khaouani, comandante do navio).
EL-MELLAH a navegar à vela. (foto gentilmente cedida pelo Lieutenant-colonel Zoubir Khaouani, comandante do navio)

Fazendo base em Orão, o EL-MELLAH está equipado com modernos equipamentos de navegação e comunicações, possuindo condições de habitabilidade amplas, cómodas e modernas. Tem 110 metros de comprimento de fora a fora, 14,5 metros de boca e 8,5 metros de calado máximo. Este veleiro está aparelhado em galera, possuindo uma área velica de 300m2 distribuídas por 29 velas (15 velas redondas e 14 velas latinas). O mastro grande tem 54 metros de guinda. O mastro da gata serve de escape dos gases dos motores principais e geradores. De acordo com o projeto consegue alcançar 17 nós a navegar à vela!

El-Mellah a navegar a todo o pano foto courtesia dos estaleiros Remontowa.
El-Mellah a navegar a todo o pano. (foto cortesia dos estaleiros Remontowa)

Durante a sua estadia em Lisboa o General Cherif Adnane e o Lieutenant-colonel Zoubir Khaouani, comandante do navio, prestaram os usuais cumprimentos às autoridades locais, nomeadamente à Marinha Portuguesa e à Câmara Municipal de Lisboa. Uma delegação constituída pelo General Cherif Adnane e 40 cadetes e militares da guarnição tiveram a oportunidade de se deslocar ao Alfeite, visitando a Escola Naval e a fragata Vasco da Gama. Durante a estadia em Lisboa o navio deu uma receção a bordo para diversas entidades portuguesas e argelinas. A escala do EL-MELLAH em Lisboa não é só fruto da excelente posição geográfica da capital portuguesa, mas também resultado das excelentes relações diplomáticas existentes entre Lisboa e Argel.

Navio em preparativos para largar do Cais da Rocha em Lisboa. (foto do autor)
Navio em preparativos para largar do Cais da Rocha em Lisboa. (foto do autor)

Nos últimos anos tem-se assistido a um significativo aumento da construção de grandes veleiros, de que o EL-MELLAH é um bom exemplo. O principal objetivo deste navio argelino não difere da maioria dos grandes veleiros que servem inúmeras marinhas de guerra: a formação marinheira dos seus cadetes e o apoio à diplomacia do Estado. Um grande veleiro, internacionalmente designado de Tall Ship, cumpre estes desideratos na perfeição.  A navegar, um veleiro é a plataforma ideal para se sentir os elementos, como o vento e as correntes e compreender os seus efeitos. A manobra do seu velame fomenta o trabalho de equipa, a camaradagem e o espírito de sacrifício, atributos essenciais num oficial de marinha. Atracado, um convés de um grande veleiro, principalmente em países com tradição marítima, é o enquadramento perfeito para a realização de receções ou eventos de diferentes tipologias.

Roda do leme de emergência, localizada no exterior ante a vante da ponte. No interior desta encontra os comandos do leme principal constituído por um joystick. (foto do autor)
Roda do leme de emergência, localizada no exterior ante a vante da ponte. No interior desta encontra os comandos do leme principal constituído por um joystick. (foto do autor)

Fazemos votos de que o navio escola EL-MELLAH prossiga a sua missão com mares calmos e ventos de feição, na esperança que volte a praticar um porto português em breve.

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[1] Foi o criador do projeto do navio escola polaco DAR MLODZIEZY. Com base neste projeto foram construídos mais 5 navios para a antiga União Soviética. O DRUZHBA, o KHERSONSES, o MIR, o NADESHDA e o PALLADA.

[2] DAR MLODZIEZY em português significa “O presente da Juventude”. É propriedade da Universidade Marítima de Gdynia.

José Sousa Luís

Oficial da Armada. Comandou a lancha de fiscalização rápida NRP SAGITÁRIO. Foi oficial navegador do NRP SAGRES, formador da Escola de Hidrografia e delegado nacional do Comité do ARM (AtoN Requirements and Management) da Associação Internacional de Sinalização Marítima (IALA). É autor e coautor de vários artigos sobre assuntos relativos à ciência da navegação.

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