Náutica de Recreio

Enrique Boissier Pérez, um velejador muito especial

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Há cerca de um ano, num encontro da Cofradia Europea de la Vela, em Baiona, na Galiza, a Revista de Marinha esteve presente e conheceu Enrique Boissier Pérez, um velejador experiente e apaixonado do Mar, que sobreviveu a um gravíssimo acidente em terra e cuja história gostaríamos de divulgar, pelo que voltámos a contactá-lo e lhe pedimos a entrevista que agora temos oportunidade de publicar.

Desde já aqui fica o nosso agradecimento pela simpatia com que nos atendeu e acedeu a esta conversa.

 

Revista de Marinha (R.M.): Enrique Boissier Pérez, podes apresentar-te por favor, aos nossos leitores? Conta-nos quem eras antes da tua trágica queda.

Enrique Boissier Pérez (EBP): Nasci nesta maravilhosa ilha de Gran Canaria, na sua capital Las Palmas, já há muitos anos… Conheci a minha mulher, Lasi, quando ainda éramos crianças e quando fui estudar a profissão de topógrafo na ilha de Tenerife, os meus objetivos eram terminar o curso o mais depressa possível para poder casar com a Lasi. E assim que acabei, arranjei logo trabalho e casámos, fundando a nossa família que rapidamente cresceu. Hoje temos quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. A minha mulher foi sempre o meu único grande amor e continua a ser o meu maior apoio e a fiel companheira de toda a vida! Só tem tido que “partilhar-me” com o mar, a minha segunda paixão e obsessão na vida….

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Lasi ao leme do GRAN COCOTERO

R.M. : Podes falar-nos um pouco das circunstâncias em que se deu a tua trágica queda?

EBP: A queda que marcou a minha vida aconteceu já há 30 anos. Foi num fim de tarde de trabalho e preparava-me para regressar a casa. Trabalhava num edifício onde estavam os escritórios do Governo das Canárias, no 7º andar, e como tinha pressa decidi não esperar pelo elevador e descer pelas escadas. Não consigo recordar exatamente o que aconteceu no momento em que comecei a descer as escadas, mas segundo me contaram mais tarde, ao que parece, devo ter escorregado e passei por baixo do corrimão, e com múltiplas escoriações fui caír pelo “fosso” das escadas até que “aterrei” num dos patamares quatro pisos abaixo. Foi aí que me encontraram, alguns colegas de trabalho, quando abriram a porta do elevador. Imediatamente chamaram uma ambulância e a minha mulher.

R.M.: Como foi possível a tua recuperação e quanto tempo levou?

EBP: Bem, na altura fiquei internado durante mais de mês e meio e no primeiro mês estive em coma. Quando acordei, a minha situação era muito crítica: tinha fraturado muitos ossos, os pulmões estavam muito afetados… mas o pior era a cabeça! Uma parte do meu cérebro ficou, literalmente, “às escuras”. Parecia mais um bebé do que um adulto… Não me lembrava de nada. Não sabia comer, não conhecia a minha família, tinha perdido quase por completo a memória. Os médicos não sabiam se eu conseguiria algum dia, voltar a andar, ou mesmo a falar, ou se conseguiria voltar a ser a pessoa que eu era. De facto, nunca voltarei a ser como era… As lacunas de memória, em consequência da queda, foram praticamente definitivas, perdi grande parte da capacidade de visão e muita mobilidade física. Fiquei incapaz de voltar ao trabalho, pelo que me atribuíram invalidez total…

A minha recuperação foi duríssima e jamais teria sido possível – posso garantir! – se não tivesse tido a minha mulher e os meus filhos a ajudarem-me! Durante três longos anos o meu trabalho consistiu em reaprender tudo o que tinha esquecido. Aprendi de novo, a comer, a ler, a escrever, até a fazer contas de somar e subtrair, com jogos de crianças e muita paciência de toda a minha família. De início, foi muito difícil, pois sentia-me frustrado e de mau humor, e manifestava os meus sentimentos com verdadeiros acessos de fúria, que recaíam sobretudo sobre a minha querida mulher… Ela teve uma paciência ilimitada e nunca desistiu de mim! Posso dizer com verdade, que a ela devo a minha nova vida!

R.M.: E hoje quem é o Enrique Boissier Pérez?

EBP: Olha, considero-me basicamente a mesma pessoa que era dantes, embora com as minhas dificuldades físicas. Continuo a amar a minha família e o mar, sou muito sociável e desfruto a vida convivendo com os meus amigos do Clube Náutico ou na Rua Triana. Uma das minhas melhores recordações destes últimos anos foi a minha admissão na Cofradia Europea de la Vela, onde tenho conhecido grandes “navegadores”. O mundo da vela tem estado sempre presente na minha vida e nem mesmo um acidente tão grave como o que sofri me pôde afastar do mar!

R.M: De que modo é que o regresso à vela e ao mar te ajudaram?

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Enrique em plena regata

EBP: Naqueles momentos, apesar de todas as dificuldades físicas que tive de enfrentar, havia uma coisa que me dava força. E era exatamente o meu iate. Por estranho que pareça nunca me esqueci de como se navega. E no meu barco, sentia-me vivo, feliz e capaz de ultrapassar todas as dificuldades. Quando navegava era como se os problemas todos ficassem em terra. A minha família depressa se apercebeu disso e apoiou-me o mais possível para prosseguir os meus sonhos. Passados três anos da minha queda, participei pela primeira vez na regata ARC (Atlantic Rallye for Cruisers), atravessando o Atlântico na companhia de um dos meus filhos e alguns amigos. O êxito foi tal, que depois desta grande aventura, repeti-a mais três vezes!

R.M.: Enrique, desculpa esta pergunta… mas como explicas a tua cura? És uma pessoa de fé?

EBP: Esta é certamente a pergunta mais difícil de responder… Se sou um homem de fé??? É-me difícil dizer… Deus deu-me uma família maravilhosa, uma mulher fantástica, quatro filhos maravilhosos e por isso não poderia sentir-me mais grato… mas também me levou uma filha, a minha princesinha, a número cinco dos meus filhos, quando tinha apenas três anos de idade… Que posso dizer? Que palavras tenho para Ele?  Não sei…é muito difícil responder-te…

Quanto à minha cura e a esta nova vida, creio que ao longo de toda a minha vida tenho amado sempre muito os meus filhos, netos, amigos e a minha adorada esposa, e a todos tenho tentado fazer-lhes chegar o meu carinho, procurando que todos o sintam. E esse amor tem-me sido correspondido, devolvido, talvez Deus me tenha dado forças, talvez a fé da minha mulher tenha sido mais que suficiente para nós os dois…espero que me entendas e desculpa se não consigo responder de outro modo…

R.M.: Enrique, muito e muito obrigada pela tua simpatia e excelente colaboração! Ao terminar esta nossa conversa à distância, queres deixar aqui uma mensagem final de esperança para todos os leitores da Revista de Marinha que possam estar a passar problemas graves de saúde?

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Enrique Boissier Pérez

EBP: Gostaria de dizer-lhes que nunca percam a esperança e quando se sentirem pior, que procurem o apoio da sua família. Eu estava perdido e consegui superar graças ao esforço de todos juntos. Sozinho nunca teria sido possível! Por outro lado, reconheço que esta minha paixão pela vela me ajudou muitíssimo. Propus-me aquela meta de atravessar o Atlântico, quando ainda nem sequer me aguentava de pé … Esse objetivo presente na minha cabeça, levou-me a saltar os obstáculos que tinha pela frente, com muito sacrifício, sim, e mesmo consciente de que não voltaria a ser como anteriormente, foi isso que me levou para a frente…e apesar das minhas limitações, que são muitas, hoje desfruto cada dia como um presente da minha nova vida! A vida é bela!

 

Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é editora da "Revista de Marinha" e das “Edições Revista de Marinha”, com as quais colabora regularmente desde 2012.

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