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Fleet Tactics and Naval Operations

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O Naval Institute Press decidiu reeditar em 3ª edição a obra Fleet Tactics and Naval Operations, da autoria do Captain Hughes Jr (Ret) e do Rear Admiral Richardson da USNavy (Ret).

Em boa hora o fez. Esta é talvez a obra mais marcante e referenciada sobre tática e operações navais desde o lançamento da 1ª edição em 1986. Impunha-se uma atualização à luz dos impressionantes desenvolvimentos tecnológicos entretanto ocorridos e que têm transformado profundamente o poder naval. Contrariamente ao que se poderia esperar, os princípios basilares da guerra no mar ao nível tático mantêm-se praticamente intocáveis.

O mar tem sido palco e meio para a confrontação entre povos e nações desde há mais de 2500 anos, tomando apenas por referência a batalha de Salamina entre gregos e persas (480 a. C.). Desde os tempos das táticas de abalroamento e abordagem ao emprego de veículos robotizados, dos navios de linha em madeira aos porta-aviões, dos submersíveis às minas inteligentes e submarinos, da propulsão por remos até à nuclear, das comunicações visuais aos satélites, dos canhões de carregar pela boca às munições guiadas, a que se junta o alargamento da conflitualidade aos domínios do espaço e do ciberespaço, complexificaram-se sobremaneira a estratégia político-militar, e as operações e a tática naval.

Permanece, porém, o objetivo primeiro da guerra naval, o comando do mar e a sua negação aos opositores através da aplicação do poder naval no mar e a partir dele, e a influenciar a evolução dos acontecimentos no mar e em terra. Já o Duque de Wellington tinha reconhecido que na Guerra peninsular foi a superioridade naval que lhe conferiu o poder para sustentar o seu Exército, ao mesmo tempo que impediu o inimigo de fazer o mesmo.

Se a estratégia estabelece os objetivos a atingir, o modo de os alcançar e os recursos para tal necessários, a tática naval é o nível no qual as forças e unidades navais confrontam o oponente numa dada área de operações, ou, como hoje é entendido, agem para produzir efeitos que contribuam para o sucesso das operações. Em suma, nos níveis superiores planeia-se, no nível tático faz-se.

É este o nível em que os autores se focam, recorrendo ao estudo de um vasto conjunto de batalhas navais, começando pela extraordinária vitória em 1798 de Lorde Nelson sobre a esquadra francesa, a norte do Egipto. Da sua análise resultaram seis princípios angulares na tática e nas operações navais, com as adaptações necessárias ao contexto, à geografia e aos desenvolvimentos tecnológicos.

Identificaram deste modo a Liderança, a Doutrina, a adaptação da Tática à Tecnologia, o Propósito a alcançar para satisfazer o objetivo superior, a Manobra para ganhar vantagem e explorar as vulnerabilidades adversárias, culminando com a máxima

attack effectively first

Estes seis pilares são objeto de abordagem individualizada, de cuja substância se apresenta uma pequena súmula.

Capas da primeira edição, Fleet Tactics, Theory and Practice (1986) e da terceira, Fleet Tactics and Naval Operations (2020)
Capas da primeira edição, Fleet Tactics, Theory and Practice (1986) e da terceira, Fleet Tactics and Naval Operations (2020)

Dados os contextos de grande violência e de caos em que se faz a guerra, a liderança é fundamental para incutir confiança e fortalecer a moral dos subordinados e a sua vontade de combater. A afirmação de Napoleão de que o militar está para a tecnologia na proporção de 3 para 1, poderá parecer não ser hoje evidente, mas tal não retira valor à asserção de que “os homens vão até onde o seu líder os levar”.

A doutrina constitui um guia que tem por objetivo educar o pensamento, mas sem substituir a iniciativa. Ajuda a como pensar, mas não o que pensar. Unifica a ação, e reduz do número de decisões de comando. Não deve ser tida como dogmática, mas sim como um padrão de comportamento, gerador de confiança pela previsibilidade na ação dos pares.

Também os avanços tecnológicos e as suas consequências na formulação da tática são uma constante no texto, em linha com a feliz síntese de Clausewitz “To Know tactics, you must Know weapons”. Todavia, a tecnologia, por importantíssima que seja, não é garantia de sucesso. Os oponentes também dela dispõem, e diferentes tecnologias podem equivaler-se em valor militar, fazendo emergir o valor das pessoas e do treino.

No confronto militar há sempre um propósito a alcançar pela tarefa. A finalidade da guerra não passa necessariamente pela destruição do poder militar do inimigo, podendo bastar a capitulação da sua vontade de combater, seja em resultado da coação militar ou fruto do emprego coordenado de outras fontes do poder nacional.  Por isso o chamado Mission Statement compreende sempre duas proposições, a descrição da tarefa a cumprir, com indicações precisas de quem, o quê, onde e quando fazer (who, what, when, where), e o propósito, ou seja, o contributo da tarefa para o objetivo mais vasto do escalão superior. Estabelece-se assim de modo claro a responsabilização dos comandantes por cumprir a tarefa dentro do quadro geral do propósito expresso. Na expressão atual, é fundamental “compreender o contexto”, o que promove o comando descentralizado, a iniciativa e a velocidade de ação.

São hoje raras e menos decisivas as batalhas entre grandes esquadras navais.  A projeção de poder para influenciar os acontecimentos em terra levou ao crescente aproximar do litoral. Porém, o conceito de litoral alargou-se desmesuradamente com a aviação e os mísseis de longo alcance baseados em terra. Proporcionalmente, “encolheram os oceanos” e cresceu a importância da manobra operacional para obter uma posição de vantagem, explorar a surpresa e negar o conhecimento da presença ao inimigo e, concomitantemente, exercer o poder próprio sobre as vulnerabilidades contrárias. Por exemplo, negando as vias de comunicação marítimas imprescindíveis à sustentação do esforço de guerra e à vida dos cidadãos.

Attack effectively first

é talvez a frase mais mencionada pelos autores, que a consideram como a “essência da ação tática para o sucesso no combate naval”. Sustentam-na em bases matemáticas, ilustrando com exemplos históricos a vantagem de atacar primeiro com eficácia pelo que isso acarreta na degradação cumulativa da capacidade oposta para reagir e contra-atacar.

Presentes estes princípios, são analisados os confrontos navais ocorridos nos séculos XVII e XIX. Imperava então a formação em colunas e a curta distância entre navios, como forma de obter uma maior concentração de poder de fogo, proporcionar apoio mútuo e evitar que o inimigo atravessasse a coluna para o bordo contrário, expondo-a a fogo cruzado. Sem visibilidade pelo fumo gerado em combate e com a manobrabilidade condicionada pelo vento, o caos era inevitável. Para lhe dar resposta nasceram a função planeamento, a formulação de princípios, a sistematização em doutrina das experiências havidas, o aproveitamento militar das inovações da tecnológicas e a consciência de que os propósitos podem ser alcançados sem recurso a batalhas decisivas, altamente consumidoras de recursos materiais e humanos.

Nas duas guerras mundiais, “explodiu o pensamento tático”. Os precursores da mudança, timidamente experienciados nas guerras Civil Americana e da Crimeia, foram a propulsão a vapor e a hélice, a construção em ferro e o carregamento dos canhões através de culatras.  Cresceu a velocidade dos navios, a sua dimensão e poder de fogo, a manobra deixou de depender do vento, aumentou a resistência aos impactos e cresceram as distâncias de combate.

Apesar disso, persistiu a formação em linha, ganhando predominância a famosa manobra para cruzar o “T” (guinar atempadamente a esquadra de modo que possa abrir fogo com todo o seu potencial pelo bordo de aproximação do inimigo). A vantagem em alcance dos canhões, passou a ser um elemento decisivo ao possibilitar atacar primeiro. Em síntese, o pensamento tático passou a centrar-se na concentração do poder de fogo, no alcance da artilharia e na mobilidade, ganhando relevância o Comando e Controlo (C2) e o Scouting [1].

A anteceder e durante a 2ª GM houve uma verdadeira revolução no armamento e nos sensores, desde logo a aviação baseada em terra e em navios e o radar. Ficaram em causa as formações táticas até então usadas, discutindo-se as vantagens e inconvenientes entre dispersão e a concentração de forças e as consequências da perda do elemento surpresa, quase obliterado pela capacidade de scouting trazida pela aviação. A arma submarina passou provavelmente a ser um dos poucos meios navais capazes de, com risco aceitável, penetrar nas áreas onde o inimigo pretende preservar a sua liberdade de ação, no que hoje de designa por A2/AD (Anti-Access/Area Denial).

Segue-se a apreciação da evolução da tática na era dos mísseis, com especial enfoque na Guerra das Falkland. Equaciona-se a dicotomia que confronta a escolha entre navios maiores, mais capazes em armamento e sustentação, e navios de menor dimensão, mas equipados com misseis de grande alcance e poder destrutivo. A escolha dependerá de vários fatores, desde o económico, às características da geografia onde irão operar e às capacidades dos oponentes a dissuadir ou coagir. À dimensão não é também alheia a capacidade de sobrevivência após ser-se atingido, lembrando-se que o nela investido tem por objetivo último a preservação da capacidade para continuar a combater. Nas palavras de um Almirante russo há muitos anos,

um bom canhão conduz à vitória, uma boa couraça adia a derrota.

De tudo quanto foi dito, chegam os autores a cinco postulados que enformam a tática naval, cada um constituindo um processo autónomo, mas concorrente com o objetivo final: a atrição pelo poder de fogo, o scouting pela tempestiva localização do inimigo, o C2 para coordenar e sincronizar a projeção de força, a manobra para ganhar vantagem tática e o condicionamento do inimigo na exploração própria dos anteriores postulados.

O grau de interação entre si varia com as circunstâncias e com os meios e as tecnologias em jogo. O aumento do alcance das armas e da velocidade dos projeteis, impõem o aumento da distância de scouting e a redução dos tempos de resposta. Ganha então acuidade o Comando e Controlo enquanto processo capaz de sincronizar no tempo e no espaço a ação da força naval, assegurando a execução coordenada das decisões tomadas.

Hoje os comandantes e os oficiais de ação tática são auxiliados por modernos sistemas de C2 capazes de integrar a informação proveniente de inúmeras fontes e de aconselhar na tomada de decisão. Não obstante, por muito completos e complexos que sejam, não superam o instinto humano forjado ao longo de anos de estudo aturado e de treino constante e exigente. Daí o corolário de que a boa tática provém do bom estudo, da solidez da doutrina e da profundidade do pensamento e da teoria. Não sem se acrescentar algum relativismo, pois “se a teoria ganhasse batalhas, seria um segredo de estado”.

O autor, Capitão de mar e guerra Wayne Hughes (imagem US Navy Nathan K Serpico)
O autor, Capitão de mar e guerra Wayne Hughes (imagem US Navy Nathan K Serpico)

Os últimos capítulos são dedicados às tendências e variáveis da tecnologia e ao seu impacto na tática naval. A tecnologia não ganha guerras por si só, a não ser que acompanhada por uma revolução na tática, afirmam os autores, acrescentando que o ritmo dos avanços científicos é bem mais rápido que a sua aplicação prática ao campo militar. Sendo hoje difícil contrariar a difusão alargada do conhecimento, difícil será encontrar surpresas tecnológicas na confrontação militar entre opositores com semelhantes níveis de desenvolvimento.  A exploração do espaço e do ciberespaço para fins militares, a robotização de meios nos domínios aéreo, terrestre e marítimo e as crescentes distância, precisão e poder destrutivo dos misseis serão realidades incontornáveis nos próximos cenários de guerra.

A área atualmente em mais rápido desenvolvimento é a da Information Warfare, entendida como “o emprego e a proteção da capacidade de compreender, assimilar, decidir, comunicar e agir, ao mesmo tempo que lança confusão no idêntico processo que apoia o adversário”. A informação é hoje um recurso crítico em que maior fluidez e melhor gestão em relação ao oponente, conferem superioridade de informação e, subsequentemente, na decisão.

Associado à informação estão as constelações de satélites de comunicações, radar, guiamento, controlo, vigilância e navegação, mas cujas capacidades não podem ser tidas como garantidas em tempo de guerra, uma vez que serão muito provavelmente dos primeiros sistemas a ser destruídos ou neutralizados. Apesar de todas as facilidades tecnológicas que hoje assistem a tática, os procedimentos e os elementos básicos não podem ser completamente abandonados, ou, na expressão anglófona, “back to basics”.

Por fim, é feita uma análise detalhada ao combate com mísseis e as suas implicações táticas, nomeadamente definindo a dimensão das salvas a lançar. Como princípio geral é entendido que quando forças navais dispersas correm o risco de serem individualmente derrotadas, deve usar-se a concentração para reforçar a capacidade de defesa mútua. Se não se garante a capacidade de atacar primeiro, deve-se usar também a concentração. Se a defesa não puder ser efetiva, então deve combater-se de modo disperso, de modo a dificultar a deteção pelo inimigo, a obter vantagem posicional ou a evadir para evitar o combate.

Tão importante como a concentração é a escolha do momento para atacar. Ao longo dos anos o sucesso tem sido devido não tanto a saber o que fazer, mas a decidir quando fazer. No atual contexto de ameaças multidominiais, “a competição evoluiu da superioridade de informação para a superioridade na decisão”. Não há exagero em afirmar que o scouting nos domínios eletromagnético e ciber serão mais críticos do que na esfera física. Ainda assim, mesmo considerando que hoje a ofensiva poderá começar pelo emprego de instrumentos e meios não cinéticos, mantém-se a aplicabilidade da regra de ouro dos autores, cometer o potencial de força de que se dispõe por forma a

attack effectively first

Fleet tactics não pode ser lido e tido como um manual de tática. É apenas mais um olhar de dois eminentes estudiosos que, escudados nas lições da historiografia dos conflitos navais, ajuda a compreender o valor dos princípios da tática e as razões que lhes subjazem. Só se sabe se se compreende, e só se compreende pelo estudo. Recomenda-se, pois, a sua leitura pausada e atenta, especialmente aos militares da Marinha, na certeza de que, como afirmou Colbert,

a vitória só sorrirá aos que forem capazes de antecipar as mudanças no caráter da guerra, não aos que aguardam por se adaptar após elas ocorrerem

Como também disse T.E. Lawrence,

após mais de 2000 anos de exemplos de guerra, não há desculpa para que quando se combate, não se combata bem

 

[1] A tradução mais comum na língua portuguesa é o reconhecimento, mas fica aquém do conceito anglo-saxónico de scouting, que consiste na informação sobre o opositor obtida por qualquer tipo de meios, reconhecimento, vigilância, observação, imagem, interseção eletrónica, espionagem, criptoanálise, etc.

José Alfredo Monteiro Montenegro

Oficial da Armada. Vice-almirante (ref). Em operações navais destacam-se os cargos de comandante da corveta NRP HONÓRIO BARRETO e da fragata NRP CORTE REAL, de Chefe do Estado-Maior da Força Naval Europeia e, como oficial general, de Comandante Naval.

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