Escaparate

Fragateiros do Tejo

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Da autoria de Marcolino Fernandes, “Fragateiros do Tejo” tem como subtítulo “o quotidiano das populações da Borda d´Água nos anos 40, 50 e 60 do século XX”, e surgiu pela mão da Editora Orfeu, Bruxelas, em 2012.

Trata-se sem dúvida de um importante e excelente retrato de uma época passada, “pintado” a caneta e pincel, numa feliz e talentosa combinação de texto, foto e pintura naif, por um ex-fragateiro, filho, neto e bisneto de fragateiros, nascido e criado à borda d’água, na margem sul, em Sarilhos Pequenos.

Falando-nos de um tempo em que o Tejo era um cenário sempre marcado por múltiplos e diferentes tipos de embarcações à vela, este documento pitoresco, completo, realista, está recheado de recordações comoventes, descrições geniais dos usos e costumes da época, páginas belíssimas, acompanhadas de episódios trágicos e de outros cheios de graça e humor.

Trata-se de uma obra apoiada pela “Associação da Marinha do Tejo” (conhecida graças ao seu grande mentor, o Prof. Dr. Carvalho Rodrigues) e em boa hora escolhida para iniciar a coleção “Temas da Marinha do Tejo”, exatamente como nos explica o Alm. Bastos Saldanha, então Presidente da Direção desta Associação, porque concretiza um dos seus objetivos estatutários … constituir-se como um Pólo vivo da soberania dos saberes e das tradições náuticas e marinheiras dos navegantes do rio Tejo.

Também o seu valor e interesse não escapou ao editor da Orfeu, Dr. Joaquim Pinto da Silva, que justifica a sua publicação logo na primeira página … não editamos o que “sobra” das editoras comerciais, mas antes o que escolhemos do muito que nos chega e que é necessário publicar para que uma cultura sobreviva em todas as suas vertentes e patamares, colocando o comercial no seu lugar importante, mas secundário.

Neste seu rico testemunho pessoal e coletivo, feito de inúmeras recordações de infância, Marcolino Fernandes afirma pretender … perpetuar a memória dos meus antepassados e através deles, todos os fragateiros, que viveram esse período da história do rio Tejo, iniciando-se precocemente no trabalho, nos barcos à vela, quando ainda eram       crianças.

Como nos recorda, os transportes fluviais durante séculos foram assegurados por fragatas, varinos, botes, faluas, canoas, etc., todos eles embarcações à vela tripuladas pelos chamados “fragateiros”. Eram elas que garantiam trocas comerciais, transporte de pessoas e bens, de matérias-primas e produtos acabados, contribuindo para o desenvolvimento das pequenas povoações ribeirinhas e de toda a região sul, mas com o dealbar do progresso tecnológico e industrial, desapareceram quase na sua totalidade, sendo substituídos por batelões, pontes, estradas, caminhos de ferro, camionetas e automóveis.

Tendo a delicadeza de alterar os nomes para a ninguém melindrar, o autor conta-nos episódios reais dessa época que para trás ficou, revelando com minúcia e compaixão, o melhor e o pior de vidas muito duras, de homens e mulheres que nasceram, cresceram, sofreram e sobreviveram num tempo e lugar sem eletricidade, sem água e sem saneamento básico; fala-nos do despertar para a vida daqueles meninos – adolescentes às ordens de arrais por vezes demasiado severos, do seu deslumbramento e espanto quando vinham à cidade de Lisboa, assim como nos descreve a infância dessas crianças que  não tinham  direito a ser crianças, estudavam apenas até à 4ª classe, frequentemente, entre lágrimas, brincadeiras, alguns sucessos, mas muitas bofetadas e “orelhas de burro”,  crianças que corriam descalças pelas ruas de lama, brincavam sozinhas no rio entre inúmeros perigos, alimentavam-se mal, e depressa se faziam homens, contribuindo para o magro orçamento familiar com o seu primeiro  trabalho como “moços de bordo”.

Diz-nos o autor, em homenagem aos antepassados … os nossos pais, embora iletrados, com muitas carências (…), apesar de não nos darem uma educação primorosa, deram-nos, contudo, uma instrução baseada nos mais elevados valores morais e cívicos(…) e acrescenta que foram crianças felizes e na sua maioria até, estranhamente, conseguiram … ficar incólumes aos reais perigos a que nos expusemos(…).

Trata-se de um trabalho notável, com cuidada apresentação, e apesar de já ter sido lançado há algum tempo, a Revista de Marinha quer felicitar autor, editor, e patrocinadores, recomendando vivamente a sua leitura a todos quantos se interessam por conhecer melhor e apoiar a “Marinha do Tejo” da primeira metade do século XX.

O livro em apreço custa 18€, a que acrescem os portes de correio. Os interessados em adquiri-lo deverão contactar com a Editora Orfeu através do e-mail  orfeulivraria@gmail.com.

Fátima Fonseca

Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é editora da "Revista de Marinha" e das “Edições Revista de Marinha”, com as quais colabora regularmente desde 2012.

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