Marinha de Comércio

Heroísmo e competência dos tripulantes da Atlânticoline salvam 70 vidas

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O acidente do navio MESTRE SIMÃO, ontem no Porto da Madalena, ilha do Pico, nos Açores, tinha tudo para se tornar numa tragédia, mas no final não houve sequer feridos, tendo as sequelas nos passageiros ficado resumidas a alguma comoção pelo susto vivido a bordo do barco encalhado que balançava energicamente apoiado nas rochas, ao sabor da força da ondulação que o atingia.

De facto, eram cerca de 9h30 horas, quando aquilo que aparenta ter sido a ação duma vaga, resultou no galgar dumas rochas do lado leste do porto da Madalena.

O alarme foi recebido na Capitania quase no mesmo instante tendo sido empenhados os meios da Polícia Marítima e da Estação Salva-Vidas da Horta.  As operações de salvamento foram coordenadas no local pela Autoridade Marítima Local, o Capitão do Porto da Horta, capitão-de-fragata Rafael da Silva, em coordenação com Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada (MRCC Delgada) e com o Centro de Comunicações dos Açores.

A importância do treino e formação das tripulações

Mas foram os elevados padrões de treino da Atlânticoline e o sangue frio a competência do mestre e  dos tripulantes do  MESTRE SIMÃO que permitiram retirar todos os 70 ocupantes apenas 30 minutos após o encalhe.

No cais da Madalena, passageiros desembarcam da balsa salva-vidas do MESTRE SIMÃO (foto MGP).

Um tempo recorde, se tivermos em consideração o número de pessoas e os movimentos bruscos do navio, que vibrava e se agitava ao sabor de fortes ondas. De facto tanto a actuação dos tripulantes, como da Autoridade Marítima e dos Bombeiros da Madalena foram enaltecidas pelo presidente do Governo dos Açores. “Os 61 passageiros, bem como os 9 tripulantes do MESTRE SIMÃO, desembarcaram para uma das jangada salva-vidas do navio, aquando do encalhe da embarcação nas rochas. Salienta-se a forma ordeira, profissional e em extrema segurança com que foi cumprido o plano de emergência e abandono, conduzido pela tripulação do navio de passageiros”, adianta a Autoridade Marítima Nacional, em comunicado.

Um relato extraordinário revela-nos os tensos momentos vivídos

Facebook de Joana Maciel

A melhor descrição de tudo o que se passou foi dada por uma passageira na sua página do facebook. Joana Maciel, enfermeira do Pico, a trabalhar no Hospital da Horta, faz um relato impressionante dos momentos vividos a bordo do navio, cuja transcrição aqui se faz:

Não existe fotografia ou filmagem que mostre o que se passou naqueles minutos dentro do barco…
Todos os dias faço a viagem, às vezes 2 viagens por dia e hoje não foi excepção!
Depois de fazer noite no hospital da Horta, sempre contra relógio, apanhei o barco para regressar a casa. A viagem estava a ser boa quando de repente, nas manobras da (tao famosa) entrada da Madalena, fomos apanhados por uma onda… E as rochas cada vez mais perto. Toda agente muito confiante mas, o inevitável aconteceu e o barco embateu nas rochas! As pessoas e a tripulação ficaram surpresas dentro do barco mas por incrível ficaram calmas… As perguntas começavam, «o que aconteceu? E agora?» Tudo olhava para a janela para perceber o que realmente estava a acontecer…. E o pior estava a começar a acontecer! Começaram as vagas e aí sim, não consigo descrever concretamente o que senti. Mas na minha cabeça tudo o que estava a acontecer eu já tinha visto em algum filme, mas agora vivia na primeira pessoa. O som do casco a rasgar nas rochas enquanto começou a baloiçar… O barco baloiçava para a direita, tudo caía para a direita, pessoas a escorregar, miúdos a gritar, o terror nos olhos da população e da tripulação, ninguém estava a perceber o que estava a acontecer… Os marinheiros claramente estavam a fazer um apanhado das medidas de evacuação que têm praticado ao longo dos anos para por em prática, mas desta vez, era mesmo de verdade! Aí começa o mestre a falar ao altifalante, que estava connosco para ter calma e para vestir o colete… «Vestir colete?» Aos anos que viajo neste barco e nem sabia onde estavam os coletes de salvação. Eu olhava para cima, mas acho que muita gente ficou com a mesma dúvida, e lá no meio dos gritos uma voz dizia «os coletes estão por baixo do banco». Mal conseguia desprender, aquela mola era tao dura e a força estava não sei bem onde… Nas pernas, nos braços, agarrada as costas do banco para me manter em segurança, confesso que achei que hoje não saía dali viva…
Vi os marinheiros que se encontravam ali ao pé, o olhar deles, o terror, mas ao mesmo tempo vi a calma e a força ou dever de se porem em segurança e dar apoio a quem precisava.

“ Seja o que Deus quiser”

Aqueles minutos pareciam eternidades, e o que se podia fazer dentro do barco foi feito, mas aquela espera era desesperante… Mais uma vaga, mais aquele som do casco na rocha, mais um grito e mais coisas a andar de um lado para o outro.

E esperar para quê? Nada mexia na rua e tudo mexia no barco…

Mais uma vaga, mais aquele som do casco na rocha, mais um grito e mais coisas a andar de um lado para o outro.

O barco baloiçava para a esquerda, lá iam coisas dos meus pés para o bar…. O barco baloiçava para a direita, lá vinham coisas do bar para os meus pés… Sacos, garrafas, malas, caixas de café, caixa de metal dos guardanapos e por fim a máquina do café. A máquina do café? Sim, a máquina do café veio me ter aos pés….

Nas mesas do bar era só miúdos (equipas de futebol), e no início da viagem era música de um telemóvel e gargalhadas, mas naquele momento, uns gritavam, outros estavam em pânico e outros apenas fechavam os olhos com tanta força que acho que no fundo queriam apenas acordar e ver que aquilo não estava a acontecer… As lágrimas só lhes caíam. Lá voltavam os marinheiros e, ora se agarravam quando vinha a onda, ora davam resposta aos pedidos da população….
Mas, lá veio a notícia que as ajudas já vinham, «Será que nos vamos safar desta?!!» A tripulação pediu às pessoas para descalçar os sapatos e deixar as bagagens e as bagagens de mão. Os marinheiros a fazer os possíveis e impossíveis para pôr a população e a eles próprios fora de perigo, porque aqueles marinheiros são como nós, pessoas com medos, com famílias e com filhos, e ainda no meio deste caos, ainda existem pessoas que estavam preocupadas por deixar o sapato da marca tal ou a mala XPTO. Mas eles controlaram sempre tudo muito calmamente!

A tripulação organizou as pessoas para que, uma a uma, conseguissem abandonar o barco, e assim foi. Quando descíamos pelas mangas, acho que todas as pessoas pensaram o mesmo, «já nos safámos! Estamos fora de perigo!» Mas não! Os nossos corações ainda aguentaram mais um bocadinho, eram 61 pessoas, uma a uma, pareciam horas e, mais uma vaga, mais aquele som do casco na rocha e mais um grito! E desta vez era o barco que parecia que caía em cima de nós!

Primeiros crianças, depois senhoras e depois homens… depois a tripulação…. E por fim o mestre. Ele não devia querer abandonar o barco quando ele desceu! Da sua cara com lágrimas nos olhos de desolação nunca me vou esquecer…

Quando temos um familiar às portas da morte este mestre, os restantes mestres e respectiva tripulação saem das suas casas e com condições muito piores, saem com o barco para salvar mais uma e outra vida.

Hoje aconteceu um imprevisto mas este mestre e equipa salvaram 61 vidas e foi essa equipa maravilhosa que o fez com poucos recursos!

Hoje ia acontecendo uma tragédia, mas dentro do barco fez-se tudo o que se podia fazer. Foi tripulação que evitou essa tragédia, e é triste o que se lê nas redes sociais…

Amanhã voltarei às minhas travessias entre o pico e o faial como de costume, mas com uma maior admiração e respeito por esta tripulação.

Obrigada a toda a tripulação e ao mestre por me trazerem todos os dias para junto da minha família!

Obrigada

Entretanto, segundo o comunicado da Atlânticoline de ontem, dia 9 de janeiro, , continuam a decorrer as peritagens para encontrar uma solução para a remoção do navio.

O NM MESTRE SIMÃO

O ferryboat MESTRE SIMÃO, da companhia Atlânticoline, chegou aos Açores atracando no porto da Horta, ilha do Faial, no dia 23 de outubro de 2013. Foi o primeiro dos dois navios de 40 metros encomendados pela Atlânticoline aos Estaleiros Armon, num investimento total de 18,6 milhões de euros, para substituir os conhecidos “cruzeiros” na ligação das ilhas do Triângulo. O segundo navio foi baptizado GILBERTO MARIANO.

O seu patrono, Mestre Simão foi um mestre muito respeitado devido ao seu heroísmo e bravura nas ligações marítimas das ilhas do triângulo.

Principais características:

Comprimento: 40 m
Boca: 10,75 m
Pontal: 5,05 m
Arqueação: 748 TAB
Sistema Propulsor: 2 x MTU 16V4000 – 2240 kW / 1800 rpm
Velocidade: 14 Nós
capacidade para 344 passageiros e 8 viaturas

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada.

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