Crónicas

Igual entre iguais

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— Mas não sabe quem eu sou?

O problema era mesmo esse, pensou, com o homem à sua frente.

E nem sequer era o maior. Este nem chegava a ser um problema. Havia outro, o verdadeiro. O único.

Atrás dele, havia uma fila interminável de passageiros, que aguardava pelo resultado daquela conversa, nenhum deles também com o passaporte regularizado.

E claro, todos vestidos da mesma maneira da do homem que tinha acabado de lhe fazer a pergunta.

Para ver se pensava melhor, desviou o olhar daquela fila compacta, e deixou-o a vaguear pelo horizonte suavemente ondulado, o que provocava sempre em si uma situação gratificante de serenidade.

Emigrantes a bordo dum cargueiro a caminho do sonho americano, durante a primeira metade do século XX.
Emigrantes a bordo dum cargueiro a caminho do sonho americano, durante a primeira metade do século XX.

Mas agora não. A meia dúzia de braçadas, bastante antes do horizonte, lá estava o navio ancorado, a rodar tranquilo ao sabor de duas correntes, uma quase impercetível que se formava àquela hora no interior da baía, e outra de nós de ferro sólido, que prendia o barco à âncora cravada no fundo.

Um velho cargueiro decrépito, onde ele, se estivesse a bordo, não se atreveria a levantar a tampa da banheira depois do banho, e que por mais estranho que pudesse parecer, o registo dava como oriundo de Hamburgo e pronto a zarpar para a América dentro de instantes, apesar de ele estar convicto de que não conseguia chegar ao outro lado da ilha.

A tarde daquele dia vinte e quatro de dezembro estava quase a acabar, o navio estava quase a zarpar, e aquela fila estava quase a embarcar. Ou não. Apenas dependia dele.

Não fazia ideia de como é que tinham chegado à Madeira, e, lá está, esse também não era um problema seu. O seu problema não era com quem chegava, mas com quem partia.

imagem 5 - As crianças Hélèna e Marcel no colo do Pai Natal, nos Armazéns Eaton, em MontReal, 1945 (Bibliothèque et Archives nationales du Québec)
As crianças Hélèna e Marcel no colo do Pai Natal, nos Armazéns Eaton, em MontReal, dezembro de 1946 (Bibliothèque et Archives nationales du Québec)

Era o primeiro Natal daquela estúpida guerra que agitava o continente, que depois de ter arrasado a Polónia, tinha entrado numa calmaria, como a brisa infernal que sopra nos instantes anteriores à borrasca, quando nem os barómetros conseguem convencer os ingénuos daquilo que se aproxima.

E os que estavam à sua frente não eram nada disso. Mas também não tinham o passaporte em ordem

Drôle de guerre, ou phoney war, ou sitzkrieg, ou um divertimento de guerra, como lhe chamavam os jornais. Gostava de línguas estrangeiras, e de jornais, e por isso tinha ido parar àquele serviço.

Mas nunca imaginou que aquilo lhe ia acontecer.

A ele, naquele dia.

Elementos do Corpo Expedicionário Britânico e da Armée de l'Air num campo de aviação francês, durante a Phoney War, 28 November 1939. (foto IWM)
Elementos do Corpo Expedicionário Britânico e da Armée de l’Air num campo de aviação francês, durante a Phoney War, 28 November 1939. (foto IWM)

O homem especado à sua frente, não deixava de ter razão. Era preciso mais alguma coisa, para que alguém deixasse de duvidar de quem ele era?

Era isso precisamente que se chamava identificação, e não uma caderneta com meia dúzia de folhas, a que faltava um carimbo. Apenas um.

— Sabe ou não sabe?

Sabia.

Sabia bem de mais. A única coisa que não sabia, era o que é que ia fazer.

E do resultado de uma coisa que ele ainda não sabia qual era, dependia o que ia fazer com os outros.

A fila aguardava pelo resultado. Se funcionasse com o primeiro, funcionava com eles todos, e por isso aquela roupa igual, para se fosse preciso, também fazerem a mesma pergunta.

Olhou outra vez para o horizonte e para o barco. A luz da tarde esgaçada, começava a ser apanhada pela malha de prata fina da noite.

Isto permitia ver com maior nitidez a animação que começava a varrer o convés, onde uma concentração de luz mais brilhante mostrava que era ali que ia ser o jantar daquela noite. Uma refrega ínfima de brisa, trouxe-lhe o som de uma orquestra a ensaiar, ou então a exibir as suas limitações.

Cole Porter à data em que compôs Night and Day, para a peça Gay Divorcee (Alegre Divorciado), canção interpretada por Fred Astaire.
Cole Porter à data em que compôs Night and Day, para a peça Gay Divorcee (Alegre Divorciado), canção interpretada por Fred Astaire.

Não interessava. Tocavam Night and day, de Cole Porter, a música mais bonita do mundo.

Estava tudo pronto, apenas faltavam os convidados.

E esses estavam em fila à sua frente.

O barco também tinha o que se lhe dissesse, deixava muitas dúvidas quanto a poder atravessar o oceano. Talvez fosse mais caridoso, não deixar embarcar ninguém.

Ninguém queria aquela gente nas suas terras, ali à sua frente, mas também ninguém queria deixá-los sair.

Deixou o olhar vaguear pelo mar, horizonte fora, contornando o volume iluminado do navio, e fê-lo regressar novamente às águas da baía.

Nesse preciso instante, acendeu-se uma Lua, pálida, mas que tinha todo o ar de que ia ser cheia.

Quase ao mesmo tempo, de bordo chegou-lhe o trecho de que ele conhecia as palavras.

…only you beneath the moon…

Então, pegou no carimbo, e um por um, começou a colocá-lo nos passaportes.

Navio cargueiro escoltado por um navio de guerra, no Atlântico, durante a segunda guerra mundial.
Navio cargueiro escoltado por um navio de guerra, no Atlântico, durante a segunda guerra mundial.

No dia seguinte, bem cedo dirigiu-se ao Golden Gate, para o seu maior prazer do dia de Natal.

Sentou-se na esplanada do primeiro andar, a dar para a avenida empedrada e pejada de jacarandás, e bateu-se com uma pratada de ovos estrelados com bacon, regada a sumo de laranja, e completada com café forte, uísque a condizer, cortado a água, e um charuto Romeu & Julieta número dois.

E um jornal.

Logo na primeira página, em letras gordíssimas, vinha a notícia de que a marinha norte-americana tinha intercetado um velho cargueiro saído do Funchal, carregado de refugiados, e estava naquele momento a ser rebocado e comboiado para os Estados Unidos.

A notícia concluía, informando que por mais estranho que pudesse parecer, os passageiros estavam todos vestidos de Pai Natal.

Pais-Natal

 

Artur Manuel Pires

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.

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