Mergulho

Jamanta – O Gigante Gentil

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

As Jamantas são os maiores representantes da superordem Bastoidea; animais graciosos, curiosos e cativantes, são um dos maiores “prémios” que um mergulhador pode ter durante uma imersão.

Nesta crónica da Revista de Marinha vamos falar um pouco sobre estes magníficos animais que preenchem o imaginário de todos os amantes do mar, pela sua soberba majestosidade e inesquecível beleza. Estes gigantes gentis possuem o maior cérebro entre os peixes, quer em tamanho absoluto quer relativo à sua massa corporal, numa proporção que se aproxima da de elefantes, golfinhos e humanos. Extremamente curiosos, procuram muitas vezes os mergulhadores, demorando-se na sua presença, parecendo partilhar o mesmo fascínio e encantamento que proporcionam a quem tem a fortuna de com eles partilhar um mergulho.

Jamanta – O Gigante Gentil 15Existem diversas espécies de jamanta, sendo a maior a Mobula birostris, que pode atingir uns impressionantes 6 m de envergadura e 2.200 Kg. Os seus esqueletos cartilagíneos têm cerca de metade da densidade de um esqueleto ósseo, garantindo uma “leveza” que proporciona uma grande economia de energia. Esta menor densidade fez com que estes peixes não desenvolvessem evolutivamente uma bexiga natatória, como os seus congéneres ósseos, compensando o seu peso com fígados longos e cheios de óleo. Ainda assim apresentam uma ligeira flutuabilidade negativa, tendo necessidade de nadar permanentemente para se poderem manter na coluna de água, sendo animais pelágicos. Devido à sua vida em “perpétuo movimento”, fundamental para manterem o fluxo de água nas suas brânquias, são animais muito sensíveis a redes de pesca e outros artefactos humanos que os impeçam de nadar, morrendo rapidamente por asfixia.

Estes animais podem ser encontrados normalmente em águas tropicais e subtropicais podendo, no entanto, ser avistados regularmente em águas mais temperadas, preferindo por regra temperaturas superiores a 21º C. Um dos locais icónicos para mergulho e observação destes animais no Atlântico Norte são os Açores, em especial a ilha de Santa Maria, onde a afluência de turismo de mergulho com objetivo de poder estar na presença destes gentis gigantes é significativa durante o período de Verão. Nestas águas podem ser regularmente observadas três espécies, a Mobula birostris (Manta Oceânica), a Mobula tarapacana (Jamanta Chilena) e a Mobula mobular (Jamanta Gigante).

Os Açores são um dos locais de eleição para a observação e mergulho com Jamantas. Nesta foto podemos observar um conjunto de Jamantas Chilenas (Mobula tarapacana).(Fonte: https://nationalgeographic.pt/natureza/grandes-reportagens/1096-o-segredo-das-mantas-ou-como-voar-debaixo-de-agua-mar2014 / Foto - Nuno Sá)
Os Açores são um dos locais de eleição para a observação e mergulho com Jamantas. Nesta foto podemos observar um conjunto de Jamantas Chilenas (Mobula tarapacana).(Fonte: https://nationalgeographic.pt/natureza/grandes-reportagens/1096-o-segredo-das-mantas-ou-como-voar-debaixo-de-agua-mar2014 / Foto – Nuno Sá)

As jamantas reproduzem-se por fertilização interna, ao contrário da maioria dos outros peixes, mas como muitos dos Elasmobrânquios. Apresentam comportamentos complexos de acasalamento, poucas vezes testemunhados, podendo uma fêmea acasalar com até vinte machos. A dança de acasalamento começa com uma fila que pode ter até trinta machos que seguem uma só fêmea, que procuram ser escolhidos para a fertilização dos seus ovos. Depois de selecionado o parceiro, este morde firmemente a barbatana peitoral da fêmea, normalmente a esquerda, garantindo a necessária proximidade para poder introduzir o seu órgão reprodutor, o clásper. Como animais vivíparos, os embriões das jamantas desenvolvem-se no interior do corpo materno onde, após a eclosão, se mantêm no oviduto da mãe até ao momento do nascimento alimentando-se de secreções “lácteas”. O período de gestação é de cerca de um ano. Os juvenis nascem com cerca de 1,5 m, completamente autónomos, sendo “miniaturas” dos adultos plenamente funcionais e independentes. As jamantas são dos animais menos fecundos do oceano, dando à luz uma, raramente duas, crias em períodos de dois a sete anos. Este facto faz com que as suas populações sejam extremamente suscetíveis à pressão humana, nomeadamente piscatória, quer direcionada, quer acessória (bycatching), pela grande dificuldade de recuperação das populações.

Devido ao seu tamanho, as jamantas têm poucos predadores naturais, sendo apenas atacadas por grandes carnívoros oceânicos, como é o caso de Tubarões Tigre, Tubarões Touro, grandes Tubarões Martelo ou Orcas. A frequência dos ataques varia significativamente com a área geográfica em causa, alterando de pontual a muito frequente. Ainda assim, a maioria dos ataques não resulta em morte por parte das jamantas, mas em cicatrizes e marcas desses eventos, apresentando estes animais uma boa capacidade de regeneração e recuperação em relação a ferimentos menos graves.

Embora as Jamantas não tenham muitos inimigos naturais, nalguns locais do globo são vítimas de grandes predadores como são os casos de Tubarões Tigre, Tubarões Touro, Tubarões Martelo ou Orcas. (Fonte:https://www.mantatrust.org/the-cyclone-exclusive-content/2019/05/23/babaganoush-returns)
Embora as Jamantas não tenham muitos inimigos naturais, nalguns locais do globo são vítimas de grandes predadores como são os casos de Tubarões Tigre, Tubarões Touro, Tubarões Martelo ou Orcas. (Fonte:https://www.mantatrust.org/the-cyclone-exclusive-content/2019/05/23/babaganoush-returns)

As jamantas alimentam-se filtrando plâncton e pequenos peixes através de placas filtradoras no fundo da sua garganta, que retêm todos os organismos com tamanho superior a um grão de arroz. Movendo-se com a sua boca aberta, forçam a água através destas fendas bocais com auxílio dos seus apêndices cefálicos, consumindo por semana cerca de 10% do seu peso corporal.

Quando não se estão a alimentar e ou em transito entre áreas de alimentação, as jamantas são frequentemente encontradas em “estações de limpeza”, onde permitem que pequenos peixes e crustáceos as libertem de parasitas e tecido morto ou infetado, no caso de feridas. Este comportamento de mutualismo é fundamental para a sua saúde e bem-estar, viajando longas distâncias para poder disfrutar destes “serviços”.

Quando não se estão a alimentar e ou em transito entre áreas de alimentação, as jamantas são frequentemente encontradas em “estações de limpeza”, onde permitem que pequenos peixes e crustáceos as libertem de parasitas e tecido morto ou infetado, no caso de feridas. (Fonte: SSI – Scuba Schools International)
Quando não se estão a alimentar e ou em transito entre áreas de alimentação, as jamantas são frequentemente encontradas em “estações de limpeza”, onde permitem que pequenos peixes e crustáceos as libertem de parasitas e tecido morto ou infetado, no caso de feridas. (Fonte: SSI – Scuba Schools International)

Depois de uma primeira crónica dedicada à introdução da superordem Bastoidea, que incluí as raias, jamantas, ratões e peixes-serra, dedicamos esta crónica a um dos seus mais conhecidos e populares representantes, a Jamanta. Detalhámos um pouco as suas características, ciclo de vida e comportamento reprodutivo, alimentar e interações com outros seres marinhos. Salientamos o facto destes animais majestosos e gentis estarem sujeitos a grande pressão em termos de sobrevivência, maioritariamente relacionado com a sua captura, voluntária ou acessória, que associada à baixa fertilidade da espécie põe em causa as populações em diversas localizações do globo.

Paulo Gama Franco

Oficial da Armada, com a especialidade de mergulhador sapador. Mergulhador amador desde os 7 anos de idade, é atualmente Instructor Certifier na agência Scuba Schools International (SSI). É também Mergulhador Profissional com a categoria de “Mergulhador-chefe”. Tem uma pós-graduação em “Medicina Hiperbárica e Subaquática”, curso onde é também formador. Atualmente é sócio-gerente e Director Técnico da Escola/Centro/Loja de Mergulho "AZZURRO - Dive Academy".

Comentar