Marinha de Guerra

Memórias da Corveta JACEGUAI (parte I)

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No dia 24 de junho de 2021, durante a Operação MISSILEX, o casco da ex-Corveta JACEGUAI foi atingido por mísseis ar-superfície. Primeiramente, por um AM-39 B2M2 Exocet, lançado por uma aeronave AH-15B Super Cougar, seguido de um míssil AGM-119 Penguin lançado por uma aeronave SH-16 Seahawk. A avaria gerada pelos impactos acarretou no afundamento na área marítima da costa do estado do Rio de Janeiro. Nessa posição, estará para sempre o casco do brioso Gato Preto que, felizmente, teve um fim digno do navio de guerra que foi. Ser afundado em alto mar, palco de suas grandes atuações, é o destino natural de um autêntico navio de guerra em todas as marinhas do mundo e com a Corveta JACEGUAI não foi diferente, tendo as águas profundas do oceano Atlântico por sepultura.

A história da vida operativa da Corveta JACEGUAI corresponde à boa parte da minha própria vida como oficial de Marinha, fato do qual sempre me deixou extremamente orgulhoso como profissional e como pessoa, orgulho este que nunca escondi, quer fosse dentro ou fora da Marinha do Brasil. Gostaria de compartilhar nestas linhas alguns fatos históricos bem como as memórias que guardo desse brioso navio de guerra, aquelas que vão além dos registros documentais técnicos de rotina, a fim de permitir uma maior compreensão do que representou a JACEGUAI para a Marinha do Brasil e, em uma abordagem mais pessoal, para mim.

As quatro corvetas classe INHAÚMA operando juntas no início dos anos 90
As quatro corvetas classe INHAÚMA operando juntas no início dos anos 90

Primeira classe de navio projetada e construída no Brasil

A Corveta JACEGUAI (V31) foi o segundo navio da classe INHAÚMA, a primeira a ser totalmente projetada e construída no Brasil, o que foi um marco tecnológico para a Marinha e para o país, permitindo-nos entrar para o rol do seleto grupo de nações com capacidade de projetar e construir navios de guerra. Seu nome homenageia o Almirante Arthur Silveira da Mota, o Barão de JACEGUAI, um dos heróis da Guerra do Paraguai que imortalizou seu nome no famoso episódio da Passagem de Humaitá, comandando o Encouraçado Barroso, o primeiro dos seis navios a irromper a passagem fluvial por aquela fortaleza.

O projeto das Corvetas Classe INHAÚMA (CCI) foi de extrema importância para a indústria de defesa nacional, pois catalisou seu desenvolvimento em uma época econômica difícil, quando o país enfrentava a dura realidade da superinflação que atravessou a década de 1980 e primeira metade da década de 1990. O fato de ser um projeto genuinamente brasileiro, formulado e executado no país, foi de grande estímulo para a ciência e tecnologia, mais especificamente para o setor de construção naval, elevando a autoestima e o orgulho nacionais.

Memórias da Corveta JACEGUAI (parte I) 14
A JACEGUAI flutuando pela primeira vez.

A ideia do projeto era produzir navios de guerra que atendessem às demandas da Esquadra que, por sua vez, reduzia gradativamente seu número de navios de escolta com o envelhecimento e a consequente saída de serviço dos contratorpedeiros da classe ALLEN M. SUMNER e GEARING, herdados da US Navy. A concepção era de um navio de escolta de emprego geral, prioritariamente para defesa aproximada ou afastada do litoral brasileiro. Assim, as CCI foram construídas com capacidade de realizar ações de superfície, guerra antissubmarino, guerra eletrônica, defesa aérea de ponto e de apoio de fogo naval, especialmente para tiros de precisão.

Seu sistema de armas e sensores era integrado por computadores com processamento de dados táticos (CAAIS-450) e de direção de tiro (WSA-421) que podiam aumentar significativamente a quantidade de alvos acompanhados, o que diminuía o tempo de reação. Era dotada de canhões, mísseis e torpedos, bem como de equipamentos de guerra eletrônica e de defesa nuclear, bacteriológica e química (NBQ), além da capacidade de levar consigo uma aeronave orgânica. Sua propulsão era provida por dois motores diesel e uma turbina a gás para altas velocidades (sistema CODOG). Por ocasião de sua incorporação, seus equipamentos formavam o estado da arte e o navio estava habilitado a operar em todos os ambientes da guerra naval.

Centro de Operações de Combate (COC) da Corveta JACEGUAI. As corvetas classe INHAÚMA também usam o CAAIS, mas na versão 450 com computadores FM 1600E
Centro de Operações de Combate (COC) da Corveta JACEGUAI. As corvetas classe INHAÚMA também usam o CAAIS, mas na versão 450 com computadores FM 1600E

Mais que meras coincidências

Conforme dito acima, minha carreira como oficial de Marinha se justapõe à da JACEGUAI, em especial, em seu início. Ainda hoje, intriga-me algumas datas e janelas de eventos marcantes, tanto para o navio quanto para mim, que parecem caprichosamente intercorrer. Por exemplo, o ano de batimento da quilha do navio se deu em 1984, exatamente o ano em que entrei para o Colégio Naval, iniciando minha carreira na MB. Em 8 de junho de 1987, a JACEGUAI foi lançada ao mar. Três dias depois, quando se celebra a Batalha Naval de Riachuelo, eu recebia o espadim de Aspirante da Escola Naval, fazendo meu juramento à Bandeira Nacional. No dia 2 de abril de 1991, ela foi incorporada ao serviço da Armada. Além de abril ser o mês de meu aniversário, 1991 foi o ano em que realizei a Viagem de Ouro, regressando como Segundo-Tenente e sendo designado para servir na Corveta JACEGUAI.

Assim, cheguei a bordo seis meses após sua incorporação, na tarde do dia 14 de outubro de 1991, juntando-me ao seleto grupo de recebimento do navio que agora compunha a primeira tripulação. Recordo-me, como se hoje fosse, toda a satisfação e ansiedade que vivi ao cruzar a prancha da JACEGUAI pela primeira vez, envergando meu dólmã impecável e carregando minha bagagem repleta de uniformes e sonhos de um jovem oficial.

Estão gravados em minha memória o cheiro de tinta fresca, os cabos caprichosamente aduchados no portaló e, principalmente, a alegria desenhada no rosto dos homens que compunham a primeira tripulação da Corveta JACEGUAI. Integrar-me àquela talentosa e vibrante equipe de um navio recém-incorporado à Armada fazia-me sentir um pesado fardo de responsabilidade sobre os ombros, sobrepujado, no entanto, pela honra e pelo prazer de servir orgulhosamente à nossa Marinha no navio que era a menina dos olhos da Força Naval. Aqueles oficiais e praças eram o escol dos homens embarcados, e foi com eles que aprendi grande parte da profissão naval, aprendizado este que me forjou pelo restante da carreira.

Primeira oficialidade do navio (dezembro1991)
Primeira oficialidade do navio (dezembro1991)

Lembro-me também com clareza de minha apresentação, juntamente com meu colega de turma que embarcara comigo, ao Comandante, o então Capitão-de-Fragata Afonso Barbosa (posteriormente, galgou até o posto de Vice-Almirante). Nós nos sentamos em sua câmara e ele falou sobre o desafio de servir em um navio daquele porte e de aspectos da carreira de oficial aos quais devíamos nos ater. Era visível sua alegria em nos receber a bordo. Depois de uma longa conversa na qual, obviamente, ouvimos muito mais do que falamos, ele nos disse que nossa chegada fora uma das melhores coisas que acontecera ao navio nas últimas semanas. Assim foi meu primeiro contato com o meu primeiro Comandante como oficial que, coincidentemente, era o primeiro Comandante da JACEGUAI.

Naqueles dias, o navio vinha lutando com um ajuste nos motores para poder fazer experiências de máquinas. No mesmo dia de meu embarque, os motores foram prontificados e a notícia deixou o Comandante ainda mais feliz. Assim, desatracamos do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro no dia seguinte para realizar as experiências de máquinas. Era meu primeiro dia de mar como oficial a bordo da JACEGUAI e um dos primeiros de sua vida operativa: o Termo de Viagem nº 005 de 1991. Ainda navegando dentro da Baía de Guanabara, enquanto guarnecia meu primeiro Detalhe Especial para o Mar no passadiço, o Comandante nos chamou e apontou sorrindo em direção à Escola Naval, a boreste do canal de navegação, dizendo que ela era uma etapa vencida em nossas vidas, que tudo passa, por mais difícil que possa parecer (e só quem passa pela Escola Naval poderia captar o que ele estava dizendo). Agora os desafios seriam outros.

Apresentação a bordo do segundo Comandante do navio em maio de 1992, CMG(Ref.) Cunha Couto, que cumprimenta o então 2T Getúlio, oficial mais moderno da tripulação. O então CMG Afonso, primeiro Comandante, está no canto esquerdo. A primeira passagem de comando se deu em 3/6/1992. O Comandante Afonso esteve à frente desde a formação do grupo de recebimento, com o navio ainda em construção, e exerceu uma influência tão forte na formação do espírito do navio que os Comandantes que se seguiram ficaram conhecidos no meio operativo como a dinastia dos Afonsos, termo carinhosamente cunhado em sua homenagem.
Apresentação a bordo do segundo Comandante do navio em maio de 1992, CMG(Ref.) Cunha Couto, que cumprimenta o então 2T Getúlio, oficial mais moderno da tripulação. O então CMG Afonso, primeiro Comandante, está no canto esquerdo. A primeira passagem de comando se deu em 3/6/1992. O Comandante Afonso esteve à frente desde a formação do grupo de recebimento, com o navio ainda em construção, e exerceu uma influência tão forte na formação do espírito do navio que os Comandantes que se seguiram ficaram conhecidos no meio operativo como a dinastia dos Afonsos, termo carinhosamente cunhado em sua homenagem.

Estreias e uma intensa vida operativa

Os primeiros exercícios e fainas marinheiras que vivenciei como oficial foram também os mesmos da JACEGUAI. Estão na memória o primeiro tiro de canhão 4.5 polegadas, o estrondo que fazia estremecer o navio, o cheiro de pólvora e a vibração do primeiro Comandante no passadiço pelo feito inédito […]

(Continua)

 

 

Getúlio De Alvarenga Cidade

Oficial da Marinha Brasileira, Capitão-de-mar-e-guerra (RM1), frequentou o Joint and Combined Warfighting School (Class 10-01), Joint Forces Staff College, National Defense University/ Norfolk, VA (2010). Possui igualmente um MBA em Gestão Privada, COPPEAD, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)/RJ (2007)

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Ótimo artigo do Comandante Getúlio – pormenor importante! – de Alvarenga Cidade, e da Revista de Marinha.
    Destaque para a riqueza de pormenores de marinharia, sobre o navio em questão, e sobre a descrição da ligação de um jovem oficial ao seu navio e à sua cadeia de comando, para além de muito bem ilustrado.
    Parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Enquanto aguardamos com expetativa pela segunda parte, e cordialmente,

    Artur Manuel Pires

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