Património Cultural Marítimo

O Museu Marítimo de Vancouver

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Um pavilhão de aço, madeira e vidro, em forma piramidal, destacava-se na paisagem do parque Vanier, uma lindíssima zona verde que no início do Outono fica coberta de folhas de Bordo (Maple), com cores particularmente bonitas entre o laranja e o vermelho.

No caminho até ao edifício, ao percorrermos a orla de Vancouver sobre a enseada de English Bay, fomos encontrando vários objetos marítimos, entre os quais dois magníficos ferros tipo Almirantado e Trotman que repousavam debaixo duma árvore e, finalmente, um letreiro que indicava “Maritime Museum”.

O Vancouver Maritime Museum, inaugurado em 1959, foi um projeto integrado na efeméride Centennial, as comemorações do centenário da fundação do Canadá, e é um museu dedicado à história marítima de Vancouver, da província canadiana da Colúmbia Britânica e do Ártico canadiano.

Um pavilhão de aço, madeira e vidro, em forma piramidal, destacava-se na paisagem do parque Vanier
Um pavilhão de aço, madeira e vidro, em forma piramidal, destacava-se na paisagem do parque Vanier
Dois ferros, um tipo Trotman e outro Almirantado jazem no Parque Varnier
Dois ferros, um tipo Trotman e outro Almirantado jazem no Parque Vanier
 No início do Outono, o chão do Parque Vanier fica coberto de folhas de Bordo (Maple), com cores particularmente bonitas entre o laranja e o vermelho.
No início do Outono, o chão do Parque Vanier fica coberto de folhas de Bordo (Maple), com cores particularmente bonitas entre o laranja e o vermelho.

A exposição permanente

O Museu nasceu com o propósito de preservar o navio ST. ROCH, uma peça de enorme valor histórico e sentimental para a população da Colúmbia Britânica. O ST. ROCH foi um pequeno navio em madeira construído pelo Burrard Dry Dock, em North Vancouver, especificamente para a Real Polícia Montada do Canadá (RCMP) poder apoiar os destacamentos mais remotos e as comunidades que se estabeleceram ao longo do litoral ártico canadiano, numa extensão de 1.200 milhas náuticas.

Sob o comando do destemido Henry A. Larsen, foi a primeira embarcação a transitar a Passagem Noroeste de oeste para leste, uma épica viagem de 28 meses que o levou de Vancouver a Halifax, onde chegou a 11 de outubro de 1942.

O RCMP ST. ROCH (foto de @ashleytwang Instagram)
O RCMP ST. ROCH (foto de @ashleytwang Instagram)
No castelo, segurando um sextante, está a imagem em bronze de Henry A. Larsen, o famoso comandante do ST. ROCH.
No castelo, segurando um sextante, está a imagem em bronze de Henry A. Larsen, o famoso comandante do ST. ROCH.
Vista dos materiais arrumados no tombadilho a EB. Todo o espaço é aproveitado para transportar equipamento e mantimentos para a viagem.
Vista dos materiais arrumados no tombadilho a EB. Todo o espaço é aproveitado para transportar equipamento e mantimentos para a viagem.
As janelas da ponte do ST. ROCH
As janelas da ponte do ST. ROCH
Uma bóia de salvamento fixa às superestruturas
Uma bóia de salvamento fixa às superestruturas
A camarinha do comandante
A camarinha do comandante

Larsen, ele próprio norueguês, era um admirador de Roald Amundsen e tinha o sonho de se tornar marinheiro. Cumpriu-o com enorme distinção. Em 1944, o ST. ROCH largou de Halifax e regressou pela Passagem, tornando-se no primeiro navio a completar a Passagem em ambas as direções. Mais tarde, em 1950, quando voltava de Halifax pela rota do Canal do Panamá, tornou-se  no primeiro navio a circum-navegar a América do Norte.  As realizações do ST. ROCH tornaram-no num símbolo da soberania canadiana.

O ST. ROCH está abrigado na ala mais alta do edifício do museu, assim desenhada para poder conter o navio completo com os seus dois mastros.

O ST. ROCH a largar de Halifax, no Atlântico, em 25 de julho de 1944 (Arquivo Histórico do Canadá)
O ST. ROCH a largar de Halifax, no Atlântico, em 25 de julho de 1944 (Arquivo Histórico do Canadá)
“Working the ice”, óleo sobre tela do pintor de marinha canadiano Robert McVittie (1935-2002)
“Working the ice”, óleo sobre tela do pintor de marinha canadiano Robert McVittie (1935-2002)
Estação de combate a incêndios no exterior das superestruturas.
Estação de combate a incêndios no exterior das superestruturas.
Vista da tolda onde, entre vários materiais, é visível um odómetro de linha rebocada.
Vista da tolda onde, entre vários materiais, é visível um odómetro de linha rebocada.

Para além do ST. ROCH, a exposição permanente inclui extensas galerias com modelos de navios, incluindo um modelo muito especial representando um navio de linha francês de 74 peças, o VENGEUR DU PEUPLE, todo feito em osso por prisioneiros de guerra detidos no castelo Porchester, cerca de 1798. O modelo, que pertenceu entre 1881 e 1934 ao Museu da Ciência em Kensington, Londres, veio a ser vendido a privados que, em 1996, o doaram ao Museu Marítimo de Vancouver.

LE VENGEUR DU PEUPLE (1798), um modelo dum navio de linha francês de 74 peças, todo feito em osso por prisioneiros de guerra franceses.
LE VENGEUR DU PEUPLE (1798), um modelo dum navio de linha francês de 74 peças, todo feito em osso por prisioneiros de guerra franceses.

De particular importância é a W.B. & M.H. Chung Maritime History Collection ou Coleção Chung. Em 2005, o médico Dr. Wallace Chung, um apaixonado pelo tema dos vapores canadianos de passageiros do Pacífico, decidiu doar parte da sua coleção de 40.000 peças ao Museu Marítimo de Vancouver. A coleção cobre um período entre 1842 e 2002, incluindo documentos, textos, fotografias, modelos, cartazes, relacionados com a exploração do Pacífico Noroeste, a História da Colúmbia Britânica e a Canadian Pacific Railway Company. Muitos desses objetos estão em exibição, desde logo o modelo do navio EMPRESS OF JAPAN e muitos documentos, entre eles cartazes e anúncios de jornal referentes ao tema.

O museu possui uma extensa coleção de arte marítima, uma grande biblioteca e um valioso arquivo, batizado com o nome de Leonard G. McCann Archives.

Janela pintada do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890), decorado na mais pura moda vitoriana.
Janela pintada do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890), decorado na mais pura moda vitoriana.
Modelo do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890) (foto de Costum_Cab, flickr)
Modelo do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890) (foto de Costum_Cab, flickr)
Proa do modelo do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890), o primeiro dos White Empresses, assim conhecidos pela cor do seu casco. (foto de Costum_Cab, flickr)
Proa do modelo do navio de passageiros EMPRESS OF JAPAN (1890), o primeiro dos White Empresses, assim conhecidos pela cor do seu casco. (foto de Costum_Cab, flickr)
Uma escultura em pedra sabão do artista Inuit, Jimmy Iqaluq, representando um caçador no seu kayak. No museu existem várias referências à história e cultura das Primeiras Nações (antigamente referidos erradamente como índios) e ao povo Inuit, um povo de característica esquimó.
Uma escultura em pedra sabão do artista Inuit, Jimmy Iqaluq, representando um caçador no seu kayak. No museu existem várias referências à história e cultura das Primeiras Nações (antigamente referidos erradamente como índios) e ao povo Inuit, um povo de característica esquimó.

Um tesouro chamado Arnold

O maior tesouro do Museu Marítimo de Vancouver é, muito provavelmente, o Arnold 176, um cronómetro náutico usado pelo explorador George Vancouver durante a sua viagem de cinco anos no Pacífico, entre 1791 a 1795, de que resultou no mapeamento da costa noroeste da Califórnia até ao Alasca. O Arnold 176 foi fabricado por John Arnold em Londres, provavelmente antes de 1787. O fabricante Jorge Arnold numerou todas as suas máquinas do tempo, sendo esta a nº176 e daí o nome “Arnold 176”.

Os cronómetros náuticos eram relógios excecionalmente precisos, usados no mar para ajudar os navegadores a traçar a longitude. Um cronómetro de funcionamento atrasado ou adiantado, introduziria erros nos cálculos do navegador que poderiam ser fatais e levar a um naufrágio. A maioria dos navios levava quatro a cinco cronómetros para os poder comparar uns com os outros.

George Vancouver é uma figura incontornável da história da Colúmbia Britânica e, por isso, representado várias vezes no museu.

O maior tesouro do Museu Marítimo de Vancouver, o Arnold 176, um cronómetro náutico usado entre 1791 a 1795 pelo Comandante George Vancouver durante sua viagem de exploração no Pacífico
O maior tesouro do Museu Marítimo de Vancouver, o Arnold 176, um cronómetro náutico usado entre 1791 a 1795 pelo Comandante George Vancouver durante sua viagem de exploração no Pacífico
Um quadro representando o encontro do dia 22 de junho de 1792, em Point Grey, entre os navios de George Vancouver e a expedição espanhola de Dionísio Alcalá
Um quadro representando o encontro do dia 22 de junho de 1792, em Point Grey, entre os navios de George Vancouver e a expedição espanhola de Dionísio Alcalá
Uma gravura mostrando o momento em que o Captain George Vancouver encontrou Dionísio Alcalá e Caeytano Valdés a bordo a MEXICANA, em Point Grey, 1792.
Uma gravura mostrando o momento em que o Captain George Vancouver encontrou Dionísio Alcalá e Caeytano Valdés a bordo a MEXICANA, em Point Grey, 1792.

A exposição temporária Making Waves

Quando visitámos o museu, decorria uma exposição temporária dedicada a um notável movimento ecologista fundado em 1971, precisamente em Vancouver. Em 1969, os Estados Unidos fizeram explodir uma bomba nuclear na ilha de Amchitka, nas Aleutas, Alaska. Este teste preliminar, com o nome de código MILROW, era um teste para uma outra detonação maior, o teste nuclear CANNIKIN, e motivou a criação em Vancouver dum comité de ativistas opositores da guerra e dos ensaios nucleares. Este encontro foi a origem do movimento GREENPEACE.

A exposição mostra-nos as origens do Greenpeace e a sua primeira viagem de Vancouver ao Alasca para protestar contra os testes nucleares, evidenciando as honras recebidas pelas populações indígenas da nação Kwakwaka’wakw. A partir daí, o visitante vai descobrindo como o Greenpeace expandiu a sua frota e influência em todo o mundo e encontrou novas causas, incluindo o controle da caça comercial de baleias.

Entrada para a exposição MAKING WAVES
Entrada para a exposição MAKING WAVES
Em 1971, durante a viagem a Amchitka, o navio PHYLLIS CORMACK fundeou em Alert Bay, onde o povo Namsis e outros representantes das nações Kwakwaka'wakw os honraram com uma cerimónia especial. Aqui receberam o símbolo sagrado Sisiutl, que hoje segue protegendo o GREENPEACE.
Em 1971, durante a viagem a Amchitka, o navio PHYLLIS CORMACK fundeou em Alert Bay, onde o povo Namsis e outros representantes das nações Kwakwaka’wakw os honraram com uma cerimónia especial. Aqui receberam o símbolo sagrado Sisiutl, que hoje segue protegendo o GREENPEACE.
Uma bandeira, com o logo GREENPEACE e o símbolo SISIUTL, drapeja içada numa adriça do navio ESPERANZA (foto Joseph Strohan, Greenpeace)
Uma bandeira, com o logo GREENPEACE e o símbolo SISIUTL, drapeja içada numa adriça do navio ESPERANZA (foto Joseph Strohan, Greenpeace)

Uma atração muito original e didática

Uma das atrações mais interessantes deste museu é a sua oficina de modelos. No interior do museu, uma pequena janela abre-nos a vista para o interior duma oficina onde os visitantes têm a oportunidade única de ver modelos novos ou mais antigos, em vários estágios de conclusão ou restauração, e um mestre artesão trabalhando.

No interior do museu, uma pequena janela abre-nos a vista para o interior duma oficina de modelos.
No interior do museu, uma pequena janela abre-nos a vista para o interior duma oficina de modelos.

O Mestre construtor de modelos, Lucian Ploias está localizado no Vancouver Maritime Museum. O modelo profissional de construção naval é uma combinação de paixão, conhecimento, paciência e amor pelo mar.

Conversámos com Lucian Ploias e dissémos que vínhamos de Portugal, pela Revista de Marinha.  Ele abriu os olhos e referiu-nos que o maior mestre mundial construtor de modelos náuticos é um português, o Sr. Carlos Montalvão. Ficou-nos um certo orgulho e um desejo de um dia podermos ter o Mestre Carlos Montalvão com a sua própria oficina dentro do nosso belo Museu de Marinha.

Lucian está na sua oficina, na maior parte da semana, de terça a quinta-feira. Em Portugal,  temos o maior mestre mundial de construção de modelos náuticos profissionais, uma arte que devia poder ser apreciada pelo público, até pelo despertar de novos talentos que essa visibilidade permitiria.
Lucian está na sua oficina, na maior parte da semana, de terça a quinta-feira. Em Portugal,  temos o maior mestre mundial de construção de modelos náuticos profissionais, uma arte que devia poder ser apreciada pelo público, até pelo despertar de novos talentos que essa visibilidade permitiria.

O Maritime Discovery Center

Para os mais pequenos, existe o Maritime Discovery Center, um conjunto de expositores interativos que inclui a operação de um submarino, um simulador com a reprodução autêntica da ponte do ST. ROCH navegando nos mares gelados do Ártico e o interior do castelo de proa do HMS DISCOVERY – o navio de George Vancouver.

Uma réplica do castelo de proa do HMS DISCOVERY ajuda os mais pequenos a sentir o ambiente dum navio do século XVIII.
Uma réplica do castelo de proa do HMS DISCOVERY ajuda os mais pequenos a sentir o ambiente dum navio do século XVIII.
Um simulador da ponte do ST. ROCH permite experimentar o governo do navio por entre os gelos da Passagem do Noroeste.
Um simulador da ponte do ST. ROCH permite experimentar o governo do navio por entre os gelos da Passagem do Noroeste.

Com Jaques Piccard no fundo do mar

Exposições ao ar livre completam a visita ao museu, onde a peça mais visível e significativa é o navio de pesquisa submarino BEN FRANKLIN. Este submarino, construído em 1968 na Suíça sob orientação do famoso inventor e oceanógrafo Jaques Piccard, permitiu concluir com êxito o percurso submarino da Corrente do Golfo, navegando à deriva a uma profundidade de 600m, durante 28 dias, entre Palm Beach, Florida e Halifax, na Nova Escócia.

Mais à frente, na pequena enseada de English bay, o Museu Marítimo de Vancouver gere um pequeno cais, o Heritage Harbour, para embarcações históricas e clássicas, propriedade de privados, em benefício mútuo, proporcionando aos proprietários um porto seguro e aos seus visitantes uma exposição ao ar livre. O porto está aberto durante o dia e é uma oportunidade para ver os barcos de perto e, talvez, falar com os proprietários de barcos sobre as suas aventuras marítimas.

No exterior está o extraordinário submarino de Jaques Piccard, o BEN FRANKLIN, que em 1969 estudou a importante corrente do Golfo.
No exterior está o extraordinário submarino de Jaques Piccard, o BEN FRANKLIN, que em 1969 estudou a importante corrente do Golfo.

Nota: todas as fotos são do autor, exceto se diferentemente mencionado

João Gonçalves

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Tem o curso de Informação Pública da NATO. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada. É diretor adjunto da Revista de Marinha desde janeiro de 2018.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Mais uma excelente reportagem do Sr. Cmdt. João Gonçalves. Muito interessantes as informações sobre o cronómetro náutico de George Vancouver, o Comdt. Larsen, e a colecção do Dr. Chung.
    E como habitualmente, muito bem ilustrada.

    Os parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Artur Manuel Pires

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