Marinha de Guerra

O patrulha venezuelano NAIGUATÁ

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

Passavam 45 minutos do dia 30 de março, quando o navio de vigilância do litoral ANBV (Armada Nacional Bolivariana de Venezuela) NAIGUATÁ (GC-23), do Comando de Guardacostas, se afundou na sequência duma colisão com o navio de cruzeiros RCGS RESOLUTE, de 122 metros de comprimento, deslocando 8300 toneladas e registo RINMAR, e por conseguinte de bandeira portuguesa.

Este navio patrulha, com 80 metros de comprimento e 1423 toneladas de deslocamento, tinha sido entregue à Venezuela há apenas 9 anos. A sua guarnição era composta de 44 elementos, tendo sido todos salvos por outros navios da Armada Bolivariana.

Navio de Vigilância Litoral AB NAIGUATÁ GC-23 em operações com o Navio Patrulha AB PAGALO PG-51, em 2015 (imagem da Armada Bolivariana)
Navio de Vigilância Litoral ANBV NAIGUATÁ GC-23 em operações com o Navio Patrulha ANBV PAGALO PG-51, em 2015 (imagem da Armada Bolivariana)

Fazia parte da classe GUACAIMACUTO, composta por quatro navios desenhados e construídos pelo estaleiro espanhol NAVANTIA, em San Fernando, perto de Cádiz.

O relato  dos acontecimentos, segundo algumas fontes do espaço digital, refere que o navio RESOLUTE navegava numa rota em torno do litoral oriental da América do Sul, vindo da Argentina e com destino incerto, tendo chegado a uma posição perto da costa norte da ilha de Trinidad onde, na manhã do dia 26 de março, fez rendez-vous com o navio-tanque Kerkyra de Port of Spain, Trinidad, para um mais que provável reabastecimento.

Posteriormente seguiu viagem para Oeste, tendo, no dia 29 de manhã ficado a pairar por avaria numa posição sensivelmente 60 milhas a norte da costa da Venezuela.  Durante as várias horas que durou a reparação, o navio esteve à deriva, aproximando-se a cerca de 9 milhas da ilha venezuelana desabitada de Tortuga, tendo no final do dia recuperado a potência das máquinas e metido rumo para Willemstad, na ilha de Curaçau, um protetorado dos Países Baixos.

A rota do navio RCGS RESOLUTE, segundo várias fontes. (mapa Google)
A rota do navio RCGS RESOLUTE, segundo várias fontes. (mapa Google)

Foi já perto da meia-noite, segundo o comunicado do armador Columbia Cruise Services, que o RESOLUTE foi intercetado pelo navio patrulha venezuelano, tendo o comandante, Capitán-de-navio Granadillo Medina, dado instruções para o acompanhar a Puerto Moreno, na ilha Margarita.

Considerando o Capitão do RESOLUTE que não tinha violado qualquer regulamento do direito internacional marítimo, uma vez que já se encontraria em águas internacionais e que, dentro do mar territorial tinha navegado ao abrigo do “direito de passagem inocente”, informou que iria consultar o escritório do armador, na Alemanha, uma vez que as ordens obrigavam a um significativo desvio da sua rota.

Alegadamente não satisfeito, o comandante Granadillo Medina, decidiu disparar tiros de aviso (parece que o RESOLUTE terá sido atingido por projéteis de 12,7mm) e iniciou manobras de abalroamento contra a amura de estibordo do RESOLUTE, investindo a elevada velocidade e com um ângulo de 135º, eventualmente tentando forçar uma alteração de rumo por parte do navio de pavilhão português. E, terá sido numa dessas manobras que, ao colidir com o RESOLUTE, não terá previsto nem a dureza do casco (o RESOLUTE é um navio da classe polar mais elevada, registado na Lloyd’s class 1AS), nem a existência dum bolbo, que terá aberto um grande rombo abaixo da linha de água, provocando uma intensa entrada de água e consequente perda do navio militar.

Imagem de satélite mostrando a ilha de Tortuga e a NW a mancha de óleo no local do naufrágio do AB NAIGUATÁ.
Imagem de satélite mostrando a ilha de Tortuga e a NW a mancha de óleo no local do naufrágio do ANBV NAIGUATÁ. (imagem Twitter @ConflictsW)

Recorde-se que dos sete navios comprados ao estaleiro espanhol Navantia, e entregues entre 2010 e 2012, este é o segundo perdido. O primeiro, o ANBV WARAO (PC-22), encalhou frente a Recife, durante exercícios com a Marinha do Brasil, não tendo até hoje sido reparado, estando atracado na Venezuela em situação não operacional.

Segundo acusam as autoridades venezuelanas, o RESOLUTE abandonou o local da colisão sem prestar ajuda, nem emitir pedidos de socorro para o navio que se afundava. No entanto não é essa a verão do armador.

Na tarde de dia 2 de Abril, respondendo a um pedido do governo venezuelano para que o governo de Curaçau iniciasse imediatamente um inquérito, a ministra dos transportes de Curaçau, Zita Jesus-Leito, informou que “o navio chegou ao porto para fazer banca, não havendo autorização para desembarque de nenhum dos tripulantes. O navio sofreu um acidente perto da Venezuela, situação que não é um problema de Curaçao, pelo que  poderá sair, devendo o problema ser resolvido entre a Venezuela e Portugal.”

O bolbo de proa que terá provocado o rombo fatal para o AB NAIGUATÁ (imagem Columbia Cruise Servises)
O RCGS RESOLUTE, vendo-se o bolbo de proa que terá provocado o rombo fatal para o ANBV NAIGUATÁ (imagem Columbia Cruise Servises)

Do lado português, compete ao Gabinete de Investigação de Acidentes Marítimos (GAMA) as actividades de investigação de segurança relativas a acidentes e incidentes marítimos, ocorridos com navios e embarcações com bandeira portuguesa, tendo em vista apurar as respectivas causas e emitir recomendações de segurança, com o objectivo de prevenir e reduzir futuras ocorrências.

João Gonçalves

Oficial da Armada. Especializou-se em submarinos, onde navegou durante seis anos nos navios da classe ALBACORA. Esteve colocado cerca de sete anos como Capitão do Porto nos Açores. Escreveu para a Revista da Armada e em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador. Está na Revista de Marinha desde 2016 e é diretor-adjunto desde janeiro de 2018.

4 Comentários

  1. Como é possível que, os nossos governos, permitam que a bandeira nacional , seja enxovalhada por um registo de conveniência, e permitir , por outro lado, que a Madeira seja um “paraíso fiscal ”
    Depois de 500 anos no mar os governos democráticos( ???? )pós 25 Abril 1974 destruíram a nossa Marinha Mercante e até fizeram um registo de conveniência na Madeira ??? Sendo ,e fui , anti -Salazarista convicto , infelizmente ,tenho de concluir mais uma, em que estamos pior que no tempo de Salazar ! A outra : a precariedade dos postos de trabalho, os despedimentos (proibidos no tempo de Salazar !,) os “recibos verdes” , os trabalhadores substituídos por “colaboradores “(???) etc. Mas afinal, que raio de Democracia é esta ???? que em diversos aspectos, consegue estar pior que no tempo de Salazar ?

    Luiz Moita, Oficial piloto da Marinha Mercante (curso complementar da Escola Náutica Infante D.Henrique) Navegador da TAP reformado.

  2. Joaquim B. Saltao Responder

    Parabéns pela oportunidade e qualidade da excelente narrativa sobre este acontecimento de mar.
    Por agora ainda se desconhecem os motivos do acidente, mas o VDR do ” Resolute ” irá, certamente, esclarecer o sucedido.
    Pelo que li sobre o assunto ,o Cte do GC parece ter ignorado o efeito da interacção hidrodinâmica e a Ice Class 1AS do “Resolute” , cortando o casco do “Naiguata” como diamante corta vidro. Embora o efeito de interacção seja conhecido há mais de um século só começou a ser estudado com mais afinco após o acidente em Setembro de 1911 entre o RMS “Olympic” e o cruzador HMS “Hawke” e logo a seguir entre o “Titanic” e o “New York” , este sem grandes consequências.
    Em Dezembro de 1978 o Dr. Corlett apresentou um trabalho numa reunião ordinária do “Royal Institute of Navigation” em que descrevia o fenómeno da interacção e dizia que todos os marinheiros deviam ser instruídos sobre esta matéria.
    O cte do GC perdeu a oportunidade de oferecer ao seu Presidente Maduro um iate presidencial e este vingar-se da guerra do pernil ou do transporte pela TAP da família do seu opositor.
    Com amizade,
    Joaquim B. Saltão

  3. António Balcão Reis Responder

    OS MEUS PARABÉNS PELA QUALIDADE E ACTUALIDADE DO ARTIGO.

    ANDEI PROCURANDO NA NET INFORMAÇÕES SOBRE O ACIDENTE E ACABO POR ENCONTRAR AQUI MUITO DO QUE PROCUREI SEM ENCONTRAR.

  4. jose luis gonçalves Cardoso Responder

    Artigo MUITO BEM FEITO e MUITO OPORTUNO
    Muitos Parabéns ao Autor
    JlG Cardoso

Comentar