Marinha de Guerra

Nos 38 anos do desastre do SAS PRESIDENT KRUGER

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A fragata SAS PRESIDENT KRUGER, um navio distinto.

A fragata SAS[1] PRESIDENT KRUGER (PK), foi a primeira de três fragatas do tipo 12M ou classe britânica ROTHESAY M (modificada) ou classe Sul-africana PRESIDENT, construídas no Reino Unido para a Marinha da África do Sul entre 1960 e 1964.

Os navios da classe PRESIDENT, deslocavam 2.200 tons, tinham 112,78 m de comprimento e 12,50 m de boca. Eram propulsionados por duas caldeiras a vapor, que moviam duas turbinas a vapor ligadas a duas linhas de veios, conseguindo atingir a velocidade máxima de 30 nós. A guarnição era composta por 214 oficiais, sargentos e praças. Ao nível do armamento, dispunham dum reparo duplo de 114mm, 2 peças Bofors de 40mm, 1 morteiro triplo A/S Limbo, 2 reparos triplos de tubos lança-torpedos Mk32 e um helicóptero A/S Westland Wasp.

As três fragatas foram adquiridas ao abrigo do Acordo de Simonstown, um acordo de cooperação naval, no qual a Royal Navy cedia a Base de Simonstown e passava o controlo da Marinha Sul Africana para o governo da África do Sul, enquanto via garantido o acesso da Royal Navy àquela base.

Imagem do lançamento à água, no dia 20 de outubro, no estaleiro Yarrow Shipbuilders em Scotsoun, Glasgow.
Imagem do lançamento à água, no dia 20 de outubro, no estaleiro Yarrow Shipbuilders em Scotsoun, Glasgow.

O navio serviu a maior parte da sua vida como navio-escola, tendo feito muitas visitas a portos estrangeiros em África, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. No final dos anos 60 foi modernizado e equipado com hangar e convés de voo para operar um pequeno helicóptero Westland Wasp. Em meados da década de 70 a PK desempenhou um papel menor na chamada Border War, a guerra anti-guerrilha contra a SWAPO e o ANC, realizando operações de patrulha na costa angolana.

Mas foi em novembro de 1975 que desempenhou aquela que foi a sua mais importante missão, posteriormente conhecida como o Incidente de Ambrizete. Esta foi uma operação secreta e encoberta de recolha dum grupo de soldados Sul-africanos duma unidade de artilharia, que estavam numa situação muito difícil depois das forças da FNLA, que estavam a apoiar, terem sido desbaratadas pelo exército conjunto cubano-MPLA.[2]

SAS KRUGER e SAS PRETORIUS em exercíco de passagem de linha de distâncias.
SAS KRUGER e SAS PRETORIUS em exercíco de passagem de linha de distâncias.

Em 1977, prevendo-se a sua substituição pelas corvetas tipo A-69[3], classe D’ESTIENNE D’ORVES, em construção em França, o navio foi colocado em reserva, mas foi reativado em 1980, assim que se soube que essa aquisição fora gorada pelo embargo de armas da ONU.

O desastre

E é assim que, na noite de 17 para 18 de fevereiro de 1982, a cerca de 80 milhas ao largo de Cape Town, o navio se encontrava a participar em intensos exercícios de luta anti-submarina, sob o comando do Captain Lange, em companhia da sua irmã, a fragata PRESIDENT PRETORIUS (PP), o submarino SAS EMILY HOBHOUSE e o navio de reabastecimento SAS TAFELBERG (TF). O exercício incluía o exame do curso para comandantes de submarino e durante vários dias proporcionava aos diferentes candidatos a comandante de submarino a oportunidade de executar um ataque à HVU[4], o AOR[5].

O SAS PRESIDENT KRUGER em RAS com o SAS TAFELBERG, em 1982
O SAS PRESIDENT KRUGER em RAS com o SAS TAFELBERG, em 1982

As fragatas, pelo seu lado, ocupavam cada uma um setor de patrulha a vante do TF. Dentro do respetivo sector, os escoltas deveriam patrulhar de forma aleatória, nunca se aproximando a menos de 600m do petroleiro reabastecedor. A PK posicionou-se a bombordo da HVU, enquanto a PP ocupou uma caixa de reciprocidade no lado estibordo.

Aproximadamente às 0400, toda a formatura tinha que alterar para um rumo marcado a 154 graus, uma inversão quase completa de direção. Os primeiros navios a guinar para o novo rumo eram as fragatas por forma a conseguirem manter suas posições de proteção sobre os novos esctores a vante do TF. Ao oficial de quarto à ponte da PK apresentaram-se duas opções de guinada, uma de 206 graus para bombordo e outra de 154 graus para estibordo. Enquanto a segunda guinada era menor e taticamente mais adequada, era no entanto muito mais perigosa e menos sensata, pois colocava a PK em rota de colisão com os outros dois navios. O oficial de quarto escolheu guinar para estibordo e iniciou a guinada com 10 graus de leme. Uma volta de 10 graus tinha um raio maior e levaria mais tempo para executar do que uma volta de 15 graus, permitindo assim que o TF se aproximasse perigosamente da PK na sua proa. no meio de uma guinada.

A ponte, vendo-se a cadeira do comandante.
A ponte, vendo-se a cadeira do comandante.

Devido ao mau tempo, as vagas provocavam muitos ecos no radar e, no meio da guinada, a sala de operações perdeu o contacto radar com o TF, ficando impedida de visualizar a situação gravíssima em que o navio se colocara. Nesse momento, o oficial de quarto ao CIC (PWO) interveio junto do oficial de quarto à ponte (OOW[6]) e iniciou-se uma discussão sobre ângulo de leme escolhido. Essa discussão, atraiu as atenções dos restantes homens de quarto, distraindo-os da delicada manobra. O OOW foi incapaz de recuperar a situação e, às 0355, a proa do TF abalroou com enorme violência a alheta de bombordo da PK, abrindo um enorme rombo na zona da câmara de sargentos.

O impressionante rombo na proa do AOR SAS TAFELBERG.
O impressionante rombo na proa do AOR SAS TAFELBERG.

A colisão terá provocado a morte quase imediata aos homens que dormiam na coberta junto à zona do impacto, quase todos sargentos. O navio começou a embarcar água em grande quantidade e rapidamente adquiriu um adernamento entre 30 e 40 graus e às 0410 o comandante deu a terrível ordem de “Abandonar o navio”.

O SAS PRESIDENT KRUGER afundou-se numa posição a 78 milhas náuticas (144 km) a sudoeste de Cape Point. Eram 0435 quando desapareceu dos radares da PP.

O Westland Wasp a realizar uma manobra de VERTREP
O Westland Wasp a realizar uma manobra de VERTREP

De imediato os navios que participavam no exercício acorreram ao local do naufrágio, PP e TF aproximaram-se por barlavento, pararam as máquinas e descaindo com o vento chegaram perto dos náufragos procedendo à recolha, que foi executada com imensa dificuldade dado o gravoso estado do mar. O helicóptero Westland Wasp  do destacamento da esquadrilha 22 a bordo da PP também deu uma preciosa ajuda, resgatando vários náufragos.

Dado o alarme e pedido de socorro, várias embarcações e aeronaves civis e militares, acorreram à área e iniciaram as buscas. Dos 193 homens da guarnição, conseguiram recolher 177 sobreviventes.

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O local do naufrágio.

Consequências

A Marinha nomeou uma comissão de inquérito, que concluiu pela impreparação do comandante e dos oficiais do navio, tendo imputado responsabilidades ao comandante e ao PWO. No entanto nenhum deles foi levado a julgamento. Também se desconhece se foram implementadas alterações no treino e avaliação da esquadra.

Devido ao embargo de armas imposto ao regime do apartheid da República da África do Sul, decorrente da Resolução nº418, do Conselho de Segurança da ONU, o navio não pode ser substituído, e foi uma grande perda para a capacidade e a moral da Marinha.

Contagem e identificação dos sobreviventes à chegada à base naval.
Contagem e identificação dos sobreviventes à chegada à base naval.

Também devido ao embargo, a PRESIDENT STEIN já tinha sido encostada e canibalizada para peças de reposição em 1980.

Quanto à última das três fragatas em serviço, a PRESIDENT PRETORIUS sofreu uma modificação para poder lançar minas e botes com equipas de assalto. Manteve-se o único navio combatente oceânico da esquadra até ser encostada a 26 de julho de 1985. Foi vendida com a sua irmã PRESIDENT STEIN para desmantelamento em 1990.

Memorabilia do dia 18 de fevereiro de 1982
Memorabilia do dia 18 de fevereiro de 1982

[1] SAS é o prefixo dos navios da Marinha Sul-Africana, sendo as iniciais de South African Ship

[2] Este episódio vem detalhado na obra de Wileem Steenkamp, Borderstrike! South Africa into Angola 1975 – 1980, Just Done Productions – Publishing, Durban, 2006

[3] Estas duas corvetas, foram entretanto adquiridas pela Argentina e viriam a tomar parte na guerra das Falklands/Malvinas, em 1982.

[4] HVU – sigla NATO para unidade de alto valor, High Value Unit

[5] AOR – sigla NATO para navio petroleiro de reabastecimento no mar, Auxilary Oiler Replenisher

[6] OOW – Officer Of the Watch e PWO, Principal Warfare Officer, são as designações na língua inglesa para as funções de Oficial de Quarto à Ponte e Oficial de Quarto ao C.I.C., na Marinha Portuguesa nos anos 80.

João Gonçalves

Oficial da Armada. Especializou-se em submarinos, onde navegou durante seis anos nos navios da classe ALBACORA. Esteve colocado cerca de sete anos como Capitão do Porto nos Açores. Escreveu para a Revista da Armada e em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador. Está na Revista de Marinha desde 2016 e é diretor-adjunto desde janeiro de 2018.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Excelente artigo, e como habitualmente nos trabalhos do Comandante João Gonçalves, também excelentemente ilustrado.
    É sempre interessante saber pormenores menos conhecidos, ocorridos com marinhas eventualmente menos conhecidas.

    Com os tradicionais parabéns ao autor e à Revista de Marinha, e cordialmente,

    Artur Manuel Pires

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