Efemérides

Nos 60 anos do combate de Diu. Mergulho-homenagem

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Diário de Navegação, NRP OLIVEIRA E CARMO.

Data – 12 de Novembro de 2021

Este é o nosso navio.

As palavras que Camões utilizou nos Lusíadas para definir aqueles que pelos seus feitos jamais serão esquecidos, escapando assim da “lei da morte”, aplica-se aqui hoje na integra:

Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando

Este ano comemoram-se os 60 anos do combate naval na Índia Portuguesa, em Diu, entre a pequena guarnição portuguesa e as forças militares desproporcionais da União Indiana.

O dia 18 de Dezembro de 1961, ficou gravado de forma indelével para a História Naval de Portugal, com a morte em combate do 2º Tenente Oliveira e Carmo, o jovem comandante do NRP VEGA. Nesse dia morreriam também com ele mais dois marinheiros e seriam feridos gravemente outros dois da sua guarnição.

O NRP VEGA e o seu comandante, Segundo-tenente Jorge Oliveira e Carmo em Diu
O NRP VEGA e o seu comandante, Segundo-tenente Jorge Oliveira e Carmo

Os seus valores, da honra e dum elevado sentido patriótico, são para mim um exemplo e uma referência, que têm norteado a minha vida profissional e pessoal.

Na minha juventude, no Colégio Militar tive o privilégio de me cruzar com o “35”, o Jorge, e com o “69”, o Diogo Oliveira, e viver e sentir o enorme orgulho dos filhos pela memória do seu pai, sendo que o Jorge nunca chegara a conhecê-lo.

Este contacto com a família do Comandante Oliveira e Carmo marcou a minha carreira como oficial de Marinha. No final da minha formação na Escola Naval, quando tive a oportunidade de escolher o navio em que iria estagiar, a opção foi fácil. A corveta NRP OLIVEIRA E CARMO seria o meu primeiro navio e, em 1986 fui nomeado chefe do Serviço de Navegação e Informações em Combate. Foi este o navio onde naveguei até 1988.

Depois de muitas milhas navegadas, muitas horas passadas no mar, recordo com emoção as missões que lá desempenhei, desde os exercícios e operações militares, até às missões de interesse público, na ZEE do continente e das regiões autónomas, passando pela vigilância e fiscalização das águas de jurisdição nacional e as importantes acções de busca e salvamento marítimo. Foram muitas de horas de mar, que fizeram com que tenha ficado para sempre ligado a este navio.

É um navio com alma e com um valor histórico-cultural imenso, deixado pelo nome do seu patrono e pelos anos que serviu a nossa Marinha.

A corveta OLIVEIRA E CARMO a navegar c. 1985
A corveta OLIVEIRA E CARMO a navegar c. 1985

Sempre senti que os navios não morrem e que a sua missão não deveria terminar no dia do seu abate. Procurei, em diversos momentos da minha carreira, honrar este sentimento, e foi com enorme satisfação que assisti à hercúlea tarefa de dar continuidade à vida do NRP OLIVEIRA E CARMO, preparando-o para servir de recife natural, projecto levado a cabo pela Ocean Revival, na pessoa de um visionário, o Luís Sá Couto.

Porquê então escrever mais uma página no “Diário de Navegação” do navio?

Por incrível que pareça, o navio, desde o seu afundamento a 30 de Outubro de 2012, já “navegou” cerca de 380 metros para leste. Encontra-se agora a 32 metros de profundidade, adornado a bombordo, mas igualmente imponente.

A sua figura e a sua silhueta são ainda bem perceptíveis, sendo fácil identificar a ponte de comando, a roda de leme, a zona do castelo de proa, a casa das máquinas. No seu interior é possível “navegar” entre os diversos compartimentos.

Escrevo assim, esta página do Diário de Navegação de forma singela, para que sirva de testemunho de um mergulho-homenagem que foi para todos nós emotivo e muito especial.

12.0800 – Sede da SUBNAUTA, em Portimão. Reunião de preparação do mergulho-homenagem ao Comandante Oliveira e Carmo.

Junto às instalações da SUBNAUTA prontos para partir.
Junto às instalações da SUBNAUTA prontos para partir.

O que nos une e quem somos nós e, porquê embarcar neste dia de navegação?

Somos três amigos mergulhadores, dois fotógrafos subaquáticos e dois instrutores, todos com a mesma expectativa e vontade: alertar, inspirar e divulgar o exemplo de coragem e abnegação de um herói do mar, enquanto interligamos o património histórico-cultural representado pela Marinha Portuguesa e um dos seus navios, o desenvolvimento económico nacional através do turismo subaquático e, a preservação dos oceanos e a sua sustentabilidade, pela da valorização da economia circular.

O NRP OLIVEIRA E CARMO é hoje um museu vivo, visitável no fundo do mar, mas também um refúgio para múltiplas espécies de peixes, moluscos e outra vida marinha, em toda a escala da teia trófica. É um autêntico berçário e uma maternidade, potenciando a criação de uma imensa biodiversidade.

O navio foi preparado para interferir ao mínimo com o ambiente, cumprindo escrupulosamente as convenções internacionais para o efeito, designadamente a convenção OSPAR. Para poder ser considerado recife artificial, foi limpo de todos os materiais nocivos ao ambiente, enquanto era adaptado à segurança dos futuros visitantes. Esta preparação foi executada com a ajuda da Canadian Artificial Reef Consultant (CARC), responsável por mais de 23 imersões deliberadas de navios em todo o mundo.

Eu e o Jorge Oliveira e Carmo voltámos neste dia a reunirmo-nos a bordo, no interior da ponte, 35 anos passados desde a última vez que o tínhamos feito, quando eu era navegador do navio, no distante dia 18 de Dezembro de 1986.

O autor com Jorge Oliveira e Carmo segurando a placa comemorativa dos 60 anos do combate de Diu.
O autor com Jorge Oliveira e Carmo segurando a placa comemorativa dos 60 anos do combate de Diu.

Nesse dia, integrado nas comemorações do 25º aniversário da morte do patrono do navio, planei e executei uma saída da Barra do Tejo a fim de lançar ao mar uma coroa de flores. Na asa da ponte de bombordo, foi então descerrada, na presença dos familiares do Comandante Oliveira e Carmo e dos sobreviventes da lancha NRP VEGA, uma placa alusiva à efeméride.

12.0910 – Sede da SUBNAUTA – Distribuição e verificação de segurança dos equipamentos de mergulho.

Presente também, neste mergulho-homenagem, alguém que se tem dedicado e empenhado na causa da literacia dos oceanos. Sónia Ell, fundadora da organização “Quando + 1 é = – 1”. Fomos assim, cada um de nós “+1” a promover a preservação dos oceanos e assim garantindo que -1 (menos uma) pessoa fica indiferente.

Sónia Ell junto ao navio
Sónia Ell junto ao navio

Luís Sá Couto da Ocean Revival disponibilizou a sua magnífica equipa de mergulhadores e o apoio técnico da SUBNAUTA. Pessoas ímpares na sua excelência de mergulho como os instrutores, os fotógrafos subaquáticos e o patrão da embarcação, o Artur Cardoso, o Paulo Renato Caçoete Anjos, o Paulo Bicho, o João Encarnação e o Hugo Fernandes.

Tínhamos guarnição e estávamos prontos para esta missão.

12.1002 – Marina de Portimão – Largámos de Portimão. A embarcação governada pelo Hugo Fernandes rumou para sudoeste da barra do Arade.

12.1108 – Com a embarcação a pairar numa posição a 1,5 milhas náuticas a Sul da Prainha do Alvor, mergulhámos até aos 32 metros de profundidade. Encontrámos o navio ligeiramente adornado a bombordo. Fizemos várias fotografias e um primeiro reconhecimento ao longo as superestruturas.

12.1235 – Segundo mergulho para a cerimónia de homenagem. De volta ao navio, perfilámo-nos na ponte, em sentido de respeito pelos heróis de 18 de dezembro de 1961 e descerrámos a placa comemorativa na ponte do navio contendo a seguinte legenda:

18 Dezembro 1961 – 2021

NRP OLIVEIRA E CARMO

Mergulho homenagem

Jorge Oliveira e Carmo (filho)

Fernando Braz de Oliveira – Sónia Ell

SUBNAUTA

A placa evocativa que foi deixada na ponte do navio
A placa evocativa que foi deixada na ponte do navio

21.11.12.1340 – Marina de Portimão – atracámos com o sentimento de missão cumprida.

Com este mergulho-homenagem quisemos partilhar a importância dos valores, da honra e do legado que nos foi deixado, que faz parte e está representado neste navio.

Este é o nosso singelo e humilde testemunho.

 

Pró-memória:

PROMOÇÃO A TÍTULO PÓSTUMO

Decreto-Lei nº 44972, de 11 de Abril O/A. Nº 9, de 17-4-1963

O segundo-tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, em 18 de Dezembro de 1961, nas águas do Estado da Índia Portuguesa, revelando acrisolado amor pátrio, alta consciência do dever e elevadas virtudes militares, sacrificou gloriosa e heroicamente a sua vida em defesa da pátria.

Desfraldando as bandeiras de Portugal e o Logo da Marinha Portuguesa, que deu apoio institucional a esta homenagem
Desfraldando as bandeiras de Portugal e o Logo da Marinha Portuguesa, que deu apoio institucional a esta homenagem

 

CONDECORAÇÃO A TÍTULO PÓSTUMO

D. A. Nº172 de 3-2-1962 – Ordem Militar da Torre e Espada

Considerando os excepcionais dotes de nobreza, de carácter e de bravura revelados pelo segundo-tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo no comando da lancha de fiscalização Vega nas águas de Diu, no dia 18 de Dezembro de 1961;

Considerando o exemplo que deu aos seus homens, mantendo a mais lúcida coragem, mesmo depois de ter as pernas cortadas por uma rajada inimiga, após uma acção brilhante nas proximidades do Castelo de Diu;

Considerando que a sua conduta honra as tradições heroicas da nossa história e é um exemplo para quantos têm por missão sagrada a defesa da nossa pátria;

Usando da faculdade que me confere o Decreto nº 16449, de 30 de Janeiro de 1929, nos termos do artigo nº 44 do Regulamento das Ordens Portuguesas e do artigo 1º do Decreto nº 21220, de 22 de Abril de 1932:

Hei por bem conceder, a título póstumo, o grau de comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, ao segundo-tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo.

Fernando Braz de Oliveira

Oficial da Armada (ref). Desportista náutico. Responsável por desenvolvimento do negócios e vendas especiais, marketing e comunicação na Edisoft Defense & Aerospace Technologies.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante, emocionante – não no sentido de suspense – gratificante e bem documentado.

    Os parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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