Autoridade Marítima

Novos meios da Polícia Marítima para os Açores

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

NOVOS MEIOS NÁUTICOS AO SERVIÇO DO COMANDO REGIONAL DA POLÍCIA MARÍTIMA DOS AÇORES

Embarquei. Parti. Fiz, enfim, um par de pretéritos perfeitos e próprios das viagens…   in de Obras completas Volume XVI – Corsário das Ilhas, de Vitorino Nemésio

 

Em 19 de abril de 2018 teve lugar, na cidade de Ponta Delgada na ilha de S. Miguel a cerimónia de entrega de três embarcações SemiRígidas com Cabine (SRC) ao Comando Regional da Polícia Marítima dos Açores (CRPM dos Açores), presidida pelo Secretário de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, Dr. Marcos Perestrello.

Este projeto de construção, resultou da necessidade de dotar o CRPM dos Açores com três embarcações SRC rápidas, com autonomia e em condições de prolongar a operação com o abrigo numa cabine de proteção, em estados adversos meteorológicos e oceanográficos no mar dos Açores. O projeto de construção foi iniciado no primeiro semestre de 2017 na Direção-Geral da Autoridade Marítima, até à assinatura do contrato de construção com o estaleiro Navalethes de Viana do Castelo que ocorreu, em 31 de julho de 2017.

Os três novos meios náuticos SRC foram atribuídos aos três Comandos Locais da Polícia Marítima de Ponta Delgada, Angra do Herísmo e Horta, assumindo cada uma das embarcações o nome de cada cidade de destino. Após a cerimónia de entrega, as embarcações SRC Angra e Horta zarparam de Ponta Delgada, por mar para cada uma das suas bases na ilha Terceira e na Ilha do Faial.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
As três SRC’s a navegar frente à praia das Milícias, a leste de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. (foto AMN)

CONCEITO DE EMPREGO

As embarcações SRC são, meios náuticos destinados a realizar operações relacionadas com o policiamento, controlo e fiscalização do espaço marítimo sob soberania e jurisdição nacional e das atividades económicas num raio de ação de 100 milhas náuticas (185 Km), preparadas para operar em condições ambientais adversas e severas, como é o ambiente marinho, em particular o da região Autónoma dos Açores.

As embarcações são empenhadas em missões de patrulha, vigilância, fiscalização, proteção dos recursos naturais, em operações de busca e salvamento marítimo e podem ainda ser empenhadas, consoante a natureza da operação, em missões de apoio a operações do tipo cooperativo e/ou combinado, designadamente no âmbito da segurança marítima:

Atuação em estados de exceção;

Cooperação com as forças e serviços de segurança (FSS), face a ameaças transnacionais;

Vigilância e controlo, incluindo a fiscalização marítima;

Busca e salvamento marítimo;

Apoio à salvaguarda de pessoas e bens

REQUISITOS DO PROJETO

No projeto de construção das embarcações SRC, foram garantidas as boas qualidades náuticas, designadamente: a elevada flutuabilidade, robustez, mobilidade, manobrabilidade, comportamento dinâmico no mar e, sobretudo, excelente estabilidade, mesmo a grandes ângulos de inclinação transversal.

No que se relaciona com a operação destes meios náuticos, foi identificada a necessidade de uma cabine com espaço para os tripulantes operarem os equipamentos de navegação e governo em lugares distintos (Piloto e navegador), com a adição no total de quatro lugares sentados cumprindo os requisitos de amortecimento de vibração vertical a que os tripulantes são, sujeitos nas navegações no mar a velocidades superiores a 20 nós.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
Uma da SRC’s em acabamento no estaleiro da Searibs. (foto AMN)

Outra condição, foi dotar estes meios náuticos com motores exteriores, que permitissem uma autonomia de 200 milhas náuticas (370 Km), conferindo desta forma a capacidade das embarcações SRC com base em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta se deslocarem a qualquer Ilha da Região Autónoma dos Açores dentro do limite da sua autonomia e operar, num raio de ação de 100 milhas náuticas das suas bases, sem reabastecer.

CARATERÍSTICAS DE CONSTRUÇÃO

A estrutura da embarcação SRC sob a marca da Searibs-PATROL1000, é constituída por três partes: o casco, parte rígida construída em fibras reforçadas com polímeros; o flutuador, composta por um tubo insuflável em material resistente com a designação comercial de Hypalon Neoprene; e uma terceira parte, a cabine, construída no mesmo material do casco.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
Os três cascos de 10m em construção no estaleiro. (foto AMN)

O casco é manufaturado em plástico reforçado com fibras de vidro (PRFV), com elementos resistentes (longarinas e cavernas) em madeira de contraplacado  marítimo, devidamente dimensionados, de modo a conferir a necessária robustez ao casco e a proteção necessária a este tipo de construção (pintura epoxídica ou Topcoat). A forma do casco em “V” da proa à popa, escalonado com calhas hidrodinâmicas no sentido longitudinal da querena, permitem conferir uma capacidade de impulso vertical ao casco, à medida que, a sua velocidade aumenta melhorando o seu desempenho a planar mesmo a baixas velocidades.

A embarcação quando parada, totalmente equipada e abastecida de combustível é auto drenante no convés e no poço, a ré da cabine, para escoamento de águas remanescentes do interior para o mar, pelo painel de popa.

A superestrutura da cabine é um espaço fechado, que serve de proteção aos tripulantes na operação de governo e navegação, conservando um espaço suplementar a ré dos 4 bancos e outro, para arrumos, a vante da consola de comando.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
SRC Patrol 1000 em construção no estaleiro da Searibs. (foto AMN)

O pavimento do convés a vante da cabine é construído em sanduíche de PRFV, com o interior de espuma em plástico PVC de alta densidade, laminado nas duas faces, permitindo a estas embarcações, em condições de mar adverso, entrar na vaga sem embarcar água à proa. O convés tem acabamento antiderrapante e uma pequena balaustrada interior, que permitem efetuar ações de abordagens a outras embarcações ou navios, sem provocar danos no contacto com as amuras ou o través.

É possível a passagem de pessoal de ré para vante da cabine, em ambos os bordos, em segurança, com pegas e corrimões ao longo da cabine e balaustrada interior, para, por exemplo, manobrar o ferro ou a amarração à proa.

PROPULSÃO E GOVERNO

A propulsão destas embarcações é composta por dois motores exteriores de marca Suzuki, a gasolina com o ciclo de 4 tempos, potência de 250 cavalos (186 Kw) às 6.000 RPM (Rotações Por Minuto), cilindrada de 4.169 cm3 com uma disposição de 6 cilindros em “V“ (60 Graus), 24 válvulas por cilindro, dupla árvore de cames à cabeça do motor e com um sistema de alimentação de combustível multiponto, controlado por uma unidade de gestão eletrónica designada por EFI. Em suma, podemos referir que as caraterísticas do sistema de propulsão conferem um desempenho muito aceitável à embarcação SRC, com velocidades superiores a 30 nós (Cerca de 56 Km/h), apresentando consumos de combustível muito equilibrados e uma autonomia de 200 milhas náuticas, à velocidade de cruzeiro de 25 nós (Cerca de 46 Km/h).

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
Carta dos Açores, mostrando o raio de ação sem e com reabastecimento, das novas SRC’s. (imagem AMN)

Acresce o facto de os motores cumprirem com os limites de emissões de gases de escape e de ruído, definidos pela Diretiva n.º 2013/53/EU do Parlamento Europeu e do Conselho de 20 de novembro de 2013.

O sistema de governo é auxiliado por um sistema electro-hidráulico, que permite a manobra dos dois motores exteriores de forma muito eficiente.

As embarcações SRC são de fácil manutenção, para o que contribui o facto dos diversos equipamentos e apetrechos serem de elevada fiabilidade, dispondo de apoio à manutenção e de sobressalentes de fácil aquisição através do representante, tanto no continente, como nos Açores.

EQUIPAMENTOS DE AJUDA À NAVEGAÇÃO E DE SALVAÇÃO

As embarcações SRC vêm equipadas com um moderno equipamento da marca Raymarine, que integra num ecrã a cores de 12 polegadas a informação de radar de superficie, sonda, posição GPS, informação AIS[1], informação de cartografia náutica, estatística e previsão de navegação, e permite integrar informação relacionada com o sistema de gestão de combustível e monitorização dos motores de propulsão.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
Interior da cabine da AMN-35-SG PONTA DELGADA (foto RM)

Na ajuda à navegação, dispõe ainda um equipamento de comunicações VHF e emissor da posição por AIS, através do seu endereço MMSI[2].

As embarcações SRC estão equipadas com jangadas de sobrevivência SOLAS[3] tipo A, um transponder SART[4], e uma radio baliza EPIRB[5].

CARATERÍSITICAS GERAIS

Embarcação SRC: Searibs – Patrol 1000;

Comprimento de fora a fora: 10 m;

Lotação: 10 pessoas;

Tripulantes: 2 Pessoas;

Carga máxima: 1.000 Kg;

Propulsão: 2 Motores exteriores (Suzuki 250 Hp);

Capacidade de combustível: 800 litros;

Velocidade máxima: Superior a 30 nós;

Velocidade de cruzeiro: 25 nós;

Raio de ação: 100 Milhas náuticas (185 Km);

Autonomia (Velocidade de cruzeiro): 200 Milhas náuticas (370 Km) + 30% de reserva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A disponibilidade de meios náuticos, que o aumento ao efetivo destas três embarcações SRC ao serviço dos Comandos Locais da Polícia Marítima de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta representa, pelos atributos diferenciados na sua conceção e operação, uma valência não abdicável para o CRPM dos Açores, que se quer dissuasora, atuante, eficaz e eficiente, na Região Autónoma dos Açores, que tem no seu espaço marítimo um ativo estratégico e de segurança inalienável.

Searibs, patrol1000, RIB, embarcação, semirígida, barco, açores, angra, ponta delgada, horta, viana do castelo, marinha, polícia marítima,
A ANGRA, AMN-36-SG a navegar frente aos ilhéus das Cabras, na costa Sul da ilha Terceira. (foto Isidro Vieira)

1] AIS: Automatic Information System, Sistema automático de informação da identificação e tipo de navio.

[2] MMSI: Mobilie Maritime Safety Identification, Identificação de segurança marítima móvel com uso de um código numérico de atribuição internacional.

[3] SOLAS: Safety Of Life At Sea, Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar

[4] SART: Search And Rescue Transponder, é um dispositivo de resposta por sinal de rádio radar, ativado em situações de emergência. Está condicionado ao alcance radar dos navios que naveguem nas imediações.

[5] EPIRB: Emergency Position Indicating Radio Beacons, são transmissores de localização usados em situações de emergência, detetados e comunicados por satélites (Exemplo COSPAS-SARSAT). Quando ativado em situação de emergência, este aparelho envia sinais intermitentes com informação que possibilita a sua localização de forma independenete e autónoma.

João António Osório Beja

Capitão-de-fragata Engenheiro Naval, formado na Escola Naval, desempenha actualmente as funções de Chefe de Divisão Logística da Direção-Geral da Autoridade Marítima.