Ciência e Tecnologia

O Banco do Cachalote

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

Mais de 4.400 milhas percorridas nos Açores, num só mês, a estudar o fundo do mar.

Os levantamentos hidrográficos efetuados pelo navio NRP ALMIRANTE GAGO COUTINHO, em missão nos Açores, têm permitido obter informação com grande detalhe dos fundos marinhos.

Com uma missão para durar até ao final de junho, o navio está na região desde o dia 9 de maio. Só no primeiro mês, o GAGO COUTINHO navegou cerca de 600 horas, percorrendo 4.400 milhas, adquirindo dados hidrográficos fundamentais para atualização das cartas náuticas e, permitindo suporte fundamentado aos mais diversos estudos científicos associados ao programa.

Um Guyot a cerca de meia centena de quilómetros da ilha das Flores.

Uma das regiões submarinas mais interessantes recentemente investigadas pelo NRP ALMIRANTE GAGO COUTINHO foi o monte submarino conhecido como Banco do Cachalote, situado a cerca de 50 Km a Oeste da ilha das Flores.

marinha portuguesa, navio hirográfico, nrp gago coutinho, açores, investigação, oceanografia, ilha das flores, monte cachalote, guyot, sonar multi-feixe
Imagem geo-referenciada da sondagem do Guyot Monte Cachalote (imagem I.H.)

Este monte submarino é cientificamente classificado como um Guyot, ou seja, uma antiga ilha de origem vulcânica, que foi arrasada pela erosão das ondas como comprova a superfície aplanada do seu topo, que hoje se encontra-se a cerca de 450 metros de profundidade. O termo Guyot, foi escolhido pelo geólogo Harry Hammond Hess (oficial da US Navy, considerado um dos fundadores da Teoria das Placas Tectónicas), em homenagem ao geógrafo e geólogo suíço-americano Arnold Henry Guyot (1807 – 1884) . Guyots são mais comumente encontrados no Oceano Pacífico.

marinha portuguesa, navio hirográfico, nrp gago coutinho, açores, investigação, oceanografia, ilha das flores, monte cachalote, guyot, sonar multi-feixe
Imagem obtida a partir do sonar multi-feixe, mostrando o Monte Cachalote visto de SE.

Datações de rochas basálticas deste monte submarino estimam que esta antiga ilha existisse há cerca de 4,8 milhões de anos e que tenha deixado de estar acima do nível do mar até há cerca de 1,8 milhões anos. Note-se que a vizinha ilha das Flores emergiu há cerca de 2.2 milhões de anos.

marinha portuguesa, navio hirográfico, nrp gago coutinho, açores, investigação, oceanografia, ilha das flores, monte cachalote, guyot, sonar multi-feixe
Imagem obtida a partir do sonar multi-feixe, mostrando o Monte Cachalote visto de NW.

De referir que esta missão conta também com a colaboração da Fundação Oceano Azul, da EMEPC, do Governo Regional dos Açores e da National Geographic no âmbito do projeto “Blue Azores”.

O GAGO COUTINHO antigo navio de vigilância oceânica norte-americano, é hoje um dos melhores navios oceanográficos do mundo.

Comandado pelo Capitão-de-fragata João Paulo Delgado Vicente, o ex-navio de vigilância norte-americano, foi adaptado e equipado em Portugal para a execução de trabalhos hidrográficos ou oceanográficos tendo diversas capacidades científicas e técnicas para realizar atividades de investigação. No seu interior, dispõe de áreas laboratoriais para pesquisar parâmetros biológicos, físicos e químicos, entre outras capacidades. Executa, em regra, missões de caráter científico de apoio às operações militares e à comunidade científica, em águas nacionais e internacionais.

A atual missão do NRP ALMIRANTE GAGO COUTINHO tem por objetivo realizar levantamentos hidrográficos oceânicos na região do arquipélago dos Açores, levantamentos hidrográficos de oportunidade durante os trânsitos para complementar a cobertura batimétrica, e colaborar com diversas instituições na obtenção de dados batimétricos, oceanográficos e de gravimetria.

marinha portuguesa, navio hirográfico, nrp gago coutinho, açores, investigação, oceanografia, ilha das flores, monte cachalote, guyot, sonar multi-feixe
Imagem geo-referenciada da sondagem do Guyot Monte Cachalote (imagem I.H.)

 

Características principais do NRP ALMIRANTE GAGO COUTINHO A-523

Ano construção (EUA): 1985 (ex-USNS ASSURANCE T-AGOS-5)

Ano cedência a Portugal: 2000

Re-activação e adaptação: 2007

Comprimento: 70 metros

Deslocamento: 2300 toneladas

Velocidade máxima: 10 nós

Tipo propulsão: Diesel-eléctrico

Guarnição: 34 militares

Equipa técnico-científica (a embarcar): Até 15 elementos

Propulsão e governo: 5 hélices (2 longitudinais para governo do navio em navegação corrida e 3 transversais para manobras delicadas e a reduzida velocidade);

Espaços e aparelhos de força:

5 slots para contentores de 10 e 20 pés: Contentores com equipamento científico, câmaras hiperbáricas (apoio a mergulho profundo), armazenamento de material, congelamento de amostras de água e sedimentos, etc

3 gruas na tolda: Para movimentação de cargas pesadas (até 4,5 toneladas)

1 guincho com cabo mecânico: Para operação de equipamentos auto-suficientes (i.e. dragas de amostragem de sedimentos, SVP) na coluna de água

1 guincho com cabo electromecânico: Para operação de equipamentos com registo e controlo em tempo-real com passagem de informação para computador de bordo

1 pórtico lateral a estibordo: Para colocar equipamentos na água

1 pórtico a ré: Para colocar equipamentos na água

marinha portuguesa, navio hirográfico, nrp gago coutinho, açores, investigação, oceanografia, ilha das flores, monte cachalote, guyot, sonar multi-feixe
(imagem arquivo da PR)

Sistemas e Sensores orgânicos relevantes:

1 sondador multifeixe médios fundos: Detecção do fundo até 1000 metros de profundidade

1 sondador multifeixe grandes fundos: Detecção do fundo até 12000 metros de profundidade

1 ADCP de casco (acoustic doppler current profiler): Medidor de correntes em patamares até 800 metros de profundidade

1 SBP (subbottom profiler): Perfilador do subsolo marinho para detecção de estruturas geológicas em profundidade

1 sonda biológica: Detecção de biomassa na coluna de água (peixes)

1 embarcação sondagem com sistema sondador multifeixe de pequenos fundos: Detecção do fundo até 300 metros de profundidade, em zonas portuárias e próximo de costa

1 sistema de posicionamento dinâmico: Sistema computorizado que controla a propulsão do navio de modo a manter posição estática em alto mar com rigor de 3 metros e manter a proa com rigor de 3°. Utilizado para operação de equipamentos que requeiram estabilidade posicional do navio (i.e. ROV)

2 SVP (sound velocity profiler): Sensor que adquire o valor da velocidade de propagação do som na água ao longo da coluna de água, sendo usado para previamente calibrar os sondadores multifeixe

Sistemas e Sensores não-orgânicos relevantes:

CTD com rosette e garrafas niskin: Perfilador de parâmetros físicos da coluna de água e amostras de água de diferentes profundidades

Draga tipo Smith-McIntyre: Colheita de amostras de sedimentos do fundo do mar

Colhedor de sedimentos multi-corer: Colheita de amostras de sedimentos do fundo do mar

Sistemas sonar lateral: Pesquisa de objectos no fundo e caracterização de estruturas geológicas na superfície do fundo do mar

Sistemas de sísmica ligeira: Perfilador de estruturas geológicas do subsolo marinho

Sensores ópticos: Medição da transparência da água do mar até aos 200 metros de profundidade

Fonte: Marinha Portuguesa