Náutica de Recreio

O Match Racing em Portugal – apogeu (2ª parte)

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Os velejadores encontraram uma forma diferente de se divertir, evoluir e competir mais rigorosa. As regatas são curtas, sem margem para erros, (que se pagam caros no final  quando praticados) e o melhor desempenho é premiado. Consequência bem paradoxal no dirigismo federativo da modalidade. A época de apogeu surgiu com o Match Racing, conseguiu transformar o desporto da Vela em desporto espectáculo, criando-lhe uma nova dimensão e dinâmica.

Após o tiro de largada dado em 1994, para o surgimento do Match Racing em Portugal, a comunidade da Vela nacional ganhou o ânimo que lhe era necessário para se entusiasmar e perfilar na especialidade ao alto nível mundial. Os velejadores encontraram uma forma diferente de se divertir, evoluir e competir mais rigorosa.

Sim, repetimos “divertir”, todo e qualquer desporto deve ser encarado como um meio de diversão e formação, tanto de carácter como de organização/disciplina, a exemplo do que se pretende e se faz o paralelismo com o rigor militar, que em muitos que usufruíram dessa instrução na vida souberam reconhecer e inteligentemente aplicar os adequados ensinamentos apreendidos numa melhor conduta social e profissional. Não encarem o autor como um exacerbado militarista ou com alguma característica extremista, não, é simplesmente realismo e capacidade de reconhecimento dos valores positivos existentes nas várias organizações que o Homem criou e que gerem a humanidade.

Sobre a disciplina de treino e obrigação aos mesmos, os factos passados e presentes indiciam na modalidade que hoje abordamos, um rigor pouco convincente com os valores que se pretendem para o alto nível competitivo que se proclama para a obtenção de prestações de referência, nomeadamente no cenário para isso criado, os Jogos Olímpicos. Aconselhamos a recordarem o que em tempos referimos, na análise do rescaldo das anteriores olimpíadas do Rio de Janeiro, sobre o aproveitamento da conduta militar da Marinha do Brasil aplicada ao desporto e os resultados extraordinários obtidos (RM 996-Março-Abril 2017).

Equipa feminina em acção num J24, durante o Campeonato Regional frente à cidade da Horta, ilha do Faial, nos Açores, em 2008, (imagem A. Peters)
Equipa feminina em acção num J24, durante o Campeonato Regional, frente à cidade da Horta, ilha do Faial, nos Açores, em 2008, (imagem A. Peters)

Velejar em Match Racing é competir com critérios bem definidos regulamentarmente, a táctica deverá ser inteligente no confronto barco a barco, obrigando os competidores, para sobreviverem, a uma grande familiaridade e elevado conhecimento das específicas RRV (Regras de Regata à Vela) para esta disciplina, quando bem assimiladas e geridas implicam uma maior vantagem perante o adversário, podendo e fazendo  a diferença na linha de chegada, pois as regatas desta especialidade são curtas, sem margem para erros, quando praticados no final pagam-se caros, e o melhor desempenho é premiado. Consequência bem paradoxal no dirigismo federativo da modalidade.

No artigo anterior já vos demos os fundamentos simplificados, empíricos para analisar, compreender e apreciar a beleza da competição da “regata a dois”. Demos-lhe a conhecer o seu surgimento em Portugal, através do seu fundador Armando Goulartt, que implementou a CNMR (Comissão Nacional de Match Racing), uma equipa pro bono, que era constituída por cinco elementos, cada um com funções bem definidas e de gestão profissional, que reuniam sistematicamente, preparando e registando todas as decisões em acta e as soluções previstas correspondentes para cada evento de forma que ao tiro de largada nada ficasse sem resposta, mesmo, em qualquer circunstância de eventualidade não programada. Tudo deslizava e agilizava-se sobre a égide do Conselho de Arbitragem vigente. A melhor ovação era sempre o êxito verificado no final de cada prova e o rápido desejo da próxima.

Foi toda esta organização e panóplia de oferta desportiva do Match Racing em Portugal que fez rasgar fronteiras e abriu o apetite às figuras de proa da especialidade, em querer marcar presença nas competições deste rectângulo lusitano.

Os calendários eram estipulados anualmente e atempadamente, com prévias candidaturas dos clubes organizadores, ciosos de serem selecionados pela satisfação de contemplarem a totalidade dos requisitos impostos pelo regulamento da CNMR, todos sabiam e cumpriam as suas obrigações, os imprevistos nunca eram entrave, a CNMR tinha sempre a solução adequada para deliberar a contento qualquer inesperada situação desportiva ou logística.

Por falar de logística, relembramos a complexidade necessária de assegurar o compromisso de todas as acções inerentes com o agendamento, organização e necessidades de transporte de barcos, pessoas e apetrechamentos adstritos para as provas que compunham o calendário anual de Match Racing: um campeonato regional para cada uma das cinco regiões (Norte, Centro, Sul, Açores e Madeira); um campeonato Nacional realizado rotativamente cada ano, numa das cinco regiões. Complementarmente, além destas provas, outras havia pelas quais a comissão era também responsável: torneios, troféus e provas internacionais.

Dois J24, em regata, passam frente ao Monte da Guia, na ilha do Faial, durante o Campeonato Regional nos Açores 2008 (imagem A. Peters)
Dois J24, em regata, passam frente ao Monte da Guia, na ilha do Faial, durante o Campeonato Regional nos Açores 2008 (imagem A. Peters)

Após os primeiros anos, satisfazendo a procura e interesse das camadas mais jovens dos velejadores pela especialidade, criou-se também em paralelo, por iniciativa da CNMR, a realização anual de um campeonato para juniores e outro feminino. Relembramos que todas estas acções não eram ressarcidas economicamente de qualquer benefício pessoal e as verbas angariadas eram canalizadas para os cofres federativos, somente ajudando parte à manutenção da frota dos quatro J24, que compunham o espólio federativo.

Foi toda esta organização e panóplia de oferta desportiva do Match Racing em Portugal que fez rasgar fronteiras e abriu o apetite às figuras de proa da especialidade, em querer marcar presença nas competições deste rectângulo lusitano. Os barcos, as organizações e todo o know how fazia parte do caderno de encargos da CNMR, os contactos dos cromos mais difíceis da colecção dos velejadores mundiais estavam na agenda do fundador, todos lhe ligavam nesse objectivo de participar, de conhecer o país e competir entre os melhores. Os locais para a prática disponibilizados eram de excelência e agradáveis todo o ano, o clima era também o parceiro desejado, os cenários em nada perdiam para as paradisíacas paisagens que eram vendidas nos ecrãs das TV’s. Pouco, ou nada, já faltava para ser valorizada mundialmente a Vela de Match Racing em Portugal.

No ano de 1998, ano em que o mundo ouvia falar dos Oceanos, e tirava férias para vir assistir à maior e exemplar exposição sobre a matéria, EXPO’98, Portugal organizava no rio Tejo o seu primeiro Campeonato Europeu de Match Racing, viu-se pela primeira vez bancadas montadas para se assistir graciosamente ao espectáculo. O Match Racing português ocupou o lugar de mérito que lhe estava reservado, o vencedor foi um homem que já tinha o seu nome gravado nas lides da America’s Cup, Bertrand Pacé, skipper da equipa francesa. Daí em diante não havia falta de argumentos e bons planos de água para a divulgação do nome Portugal e do Match Racing da nação. Vilamoura foi um excelente exemplo de parceiro e empenho nesse desígnio, as provas internacionais de grau 2 multiplicavam-se durante todo o ano, a actividade e o país eram difundidos e reconhecidos como nunca. A Algarve Cup que ao todo teve 11 edições e a Land Rover Cup que contabilizou 8 eventos, já eram na altura provas emblemáticas, o turismo também agradecia, agora era só dar continuidade ao bom trabalho que se tinha implementado.

Em 2001 a comunidade internacional de velejadoras de Match Racing também tinha o nome do precursor português no caderno de endereços, conseguiram motivá-lo a organizar, de novo em Vilamoura, agora, o Campeonato Europeu Feminino desse ano, mais outro êxito para o palmarés do Match Racing de Portugal, do CIMAV e do edificador da especialidade. Nesse mesmo ano de 2001, a frota masculina rumou à Madeira, Porto Santo e organizou de novo o Campeonato Europeu do ano. Foi o último! Entretanto o entusiasmo em equipas nacionais de estudantes, masculinas e femininas, era grande e com frequência participavam em campeonatos universitários no estrangeiro.

Dois J24 sobreladeados em controle, durante a semana do Mar, na baía da Horta, ilha do Faial, em 2008. (imagem A. Peters)
Dois J24 sobreladeados em controle, durante a semana do Mar, na baía da Horta, ilha do Faial, em 2008. (imagem A. Peters)

 

A época de apogeu na Vela em Portugal, surgiu com o Match Racing, um testemunho que deixa saudade.

Facto comprovado à data: o Match Racing engrossava a actividade da Vela em Portugal.

O “jogo” era compreendido por todos: velejadores, espectadores e comunicação social.

Os patrocinadores eram parceiros, que apreciavam ver-se associados ao dinamismo do pioneirismo, respondendo sempre aos apelos e ávidos de novas propostas.

Os resultados repercutiam-se em toda a modalidade, os lucros eram dinamizadores em todas as vertentes, a vela ligeira continuava a encher o Atlântico, rios e barragens, a vela de cruzeiro evoluía como nunca antes visto, centenas de juízes empenharam-se neste crescimento e formaram-se através do Conselho de Arbitragem, para dar continuidade e aprenderem o que antes parecia inacessível. A esperança estava em alta.

Conclusão: o Match Racing conseguiu transformar o desporto da Vela em desporto espectáculo, criando-lhe uma nova dimensão e dinâmica, a Comunicação Social falava de Vela. A Arbitragem da época soube dinamizar com engenho e arte esses atributos. Com todos estes bons argumentos, o resultado do empenho e investimento altruísta dos pioneiros, cumpriu o seu ideal, ambicionando que a semente semeada se tornasse uma floresta.

Estamos em 2020, dezanove anos de história ainda por contar.

Nós Revista de Marinha reconhecemos que o Match Racing continua a fazer história pelo mundo da Vela, Portugal faz parte do mundo, resta saber se Portugal ainda faz história no mundo do Match Racing?

Há muito Mar por navegar, aguardam-se bons ventos e marés que tardam.

 

António Peters

Desportista Náutico e há muito ligado às coisas do mar, foi dirigente da Associação Nacional de Cruzeiros, sendo hoje parte dos seus órgãos sociais. Organizador regular de regatas à vela, é também colaborador e comentador da SportTV para a modalidade Vela. Colabora com a Revista de Marinha para a Náutica de Recreio desde 2011. António Peters não cumpre o novo acordo ortográfico

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