Património Cultural Marítimo

O milagre do vinho

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A notícia chegou ao meu conhecimento por mail, previamente assinado pelo Sr. Arie de Lange, residente em Zouteland, Sul da Holanda, endereçado à firma Symington, que representa diversas empresas produtoras de vinhos, tais como a W. & J. Graham & Cª., S.A., Madeira Wine Co., S.A., Cockburn Smithes & Cª, Quinta de Roriz, S.A. etc., com sede em Vila Nova de Gaia.

A mensagem visava a obtenção de informações sobre um navio de carga, que durante a Iª Grande Guerra colidiu com uma mina, provocando-lhe o afundamento em data próxima a 25 de Setembro de 1918.

Uma escuna afunda-se em durante a Grande Guerra
Uma escuna afunda-se em durante a Grande Guerra (imagem da escuna MISS MORRIS em 11 de Abril de 1917, fotograma dum filme da marinha alemã)

Isto porque no mês de Outubro desse mesmo ano, pescadores da cidade de Ouddorp encontraram no mar mais de 400 pipas de vinho do Porto, que foram transportadas para terra e vendidas em nome do presidente da câmara da cidade de Goedereede. Sabe-se que outros pescadores localizados mais a norte, encontraram também algumas pipas de vinho do Porto à deriva, mas em muito menor quantidade.

As autoridades procedendo à numeração e registo das pipas
As autoridades procedendo à numeração e registo das pipas (imagem Arie de Lange)

Entretanto, decorridos 100 anos sobre esta efeméride, os responsáveis da edilidade de Ouddorp quiseram festejar condignamente a enorme dádiva encontrada pelos pescadores, cuja quantia transacionada na época, em moeda corrente, teria tido um valor equivalente a cerca de 1 milhão e 300 mil euros.

Aviso em anúncio de jornal local sobre a venda em hasta pública de 400 pipas de excelente vinho do Porto. “Provas nos dias 29, 30 e 31 de Outubro e venda nos dias 1 e 2 de Novembro. Assinado pelo burgomestre J. A. Charbon

Do achado existem duas certezas; a origem do vinho e a nacionalidade do navio, indiscutivelmente portugueses. Quanto ao vinho, as marcas nas pipas permitiram uma fácil identificação, tendo sido devidamente catalogadas, mas o navio em questão era totalmente desconhecido, pelo que os edis de Ouddorp solicitavam detalhes do mesmo, como parte relevante desta história.

Centenas de pipas de vinho do porto alinhadas no cais do porto de Goedereede (imagem Arie de Lange)
Centenas de pipas de vinho do porto alinhadas no cais do porto de Goedereede (imagem Arie de Lange)

Para dar resposta a esta pretensão, foram consultados os livros de registo de movimentos de entrada e saída de navios nos portos do Douro e Leixões, incluídos no espólio histórico em arquivo na biblioteca da Administração dos portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo, concluindo tratar-se do lugre-patacho “Lina”, da praça de Lisboa.

O lugre-patacho GAZELA PRIMEIRO, semelhante ao LINA (imagem blog marintimidades de Ana Maria Lopes)
O lugre-patacho GAZELA PRIMEIRO, semelhante ao LINA (imagem blog marintimidades de Ana Maria Lopes)

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Características do lugre-patacho “Lina”

1916-1918

Armador: Morais, Lda., Lisboa

Nº Oficial: 460-C – Iic: H.L.M.P. – Porto de registo: Lisboa

Construtor: W.E. Woodall & Co., Baltimore M.D., EUA., 1889

ex “White Wings”, C. Morton Stewart & Co., Baltimore, 1889-1916

Arqueação: Tab 669,76 tons – Tal 611,19 tons

Dimensões: Pp 53,50 mts – Boca 10,16 mts – Pontal 5,24 mts

Propulsão: À vela

Equipagem: 10 tripulantes

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Reunidos todos elementos que constituem as características do navio, é possível perceber de que navio se trata, com base no primeiro nome de baptismo, ou seja “White Wings”, que antecipamos, tratando-se dum veleiro, foi muito bem escolhido.

O WHITE WINGS de Baltimore, óleo de Reginals E. Nickerson, 1889
O WHITE WINGS de Baltimore, óleo de Reginals E. Nickerson, 1889

As informações encontradas apontam no sentido da chegada e entrada do lugre no porto de Leixões, dia 6 de Setembro, permanecendo ancorado temporariamente, eventualmente em local impróprio, pois voltou a sair às 17,20 horas. Recebeu depois a assistência de um rebocador, trazendo o navio de regresso ao porto nesse mesmo dia, pelas 18,50 horas.

O porto de Leixões numa fotografia da época (imagem retirada do blog Navios e Navegadores)
O porto de Leixões numa fotografia da época (imagem retirada do blog Navios e Navegadores)

O lugre “Lina”, em função da considerável quantidade de pipas embarcadas, transportadas em barcaças e batelões desde os armazéns de vinho no rio Douro, terá aparentemente iniciado o carregamento no dia 7 de Setembro, terminando as operações de carga no dia 11, desde quando se encontrou aprestado para seguir viagem.

A saída do porto teve lugar no dia 11, às 18,25 horas, porém, o navio foi ainda visto durante os dois dias seguintes a navegar próximo da barra de Leixões, presumivelmente aguardando instruções do Almirantado Britânico, sobre a rumo mais aconselhável, no sentido de evitar encontrar submarinos alemães na derrota.

Finalmente, no dia 13 de Setembro, pelas 11h18 horas o lugre-patacho “Lina” navega finalmente para Norte, para empreender uma viagem que eventualmente teria Londres como destino, a julgar pelas marcas encontradas nas pipas, desaparecendo misteriosamente no oceano.

O naufrágio do lugre-patacho “Lina”

Analisados os detalhes encontrados sobre o navio, e fazendo fé na notícia disponibilizada por Jan Lettens no sítio https://www.wrecksite.eu/, em 2 de Novembro de 2013, constata-se que o lugre-patacho “Lina”, ao contrário do que inicialmente se admitiu, naufragou por motivo de encalhe em Goodwin Sands, no dia 23 de Setembro de 1918, transportando um carregamento de vinho e cebolas.

Carta com os naufrágios de Goodwin Sands
Carta com os naufrágios de Goodwin Sands

O local designado por Goodwin Sands, é um banco de areia com mais de 16km de comprimento, situado na ponta sul do Mar do Norte, responsável por mais de 2.000 naufrágios, um número elevado devido à localização deste baixio numa zona de intensa navegação, no estreito de Dover, situado a cerca de 15 milhas náuticas a Nordeste de Dover, na Inglaterra.

Os tripulantes do lugre “Lina”

Regressados ontem, estiveram presentes no Instituto de Socorros a Náufragos, em Lisboa, os cinco sobreviventes do lugre “Lina”, naufragado no Canal da Mancha, quando em viagem de Lisboa para Londres, com um carregamento de vinho do Porto. Registaram-se cinco mortos no naufrágio.

 

Imagem Google da localização do Goodwin Sands relativamente a Dover e Ouddrop.

Imagem Google da localização do Goodwin Sands relativamente a Dover e Ouddrop.

Bibliografia

  • Lista dos navios da marinha portuguesa, referida a 1 de Janeiro de 1918, Direcção da Marinha Mercante (2ª Repartição), Junta Nacional da Marinha Mercante, Lisboa, 1917
  • Lloyds Ship Register, 1917
  • Jornal “Comércio do Porto”, de sexta-feira, 12 de Outubro de 1918
Reinaldo Delgado

Autor do blog "Navios e Navegadores", é um amante do mar e dos navios, que fotografa com regularidade. Investigador sobre história marítima (marinhas de guerra e de comércio), é colaborador da Revista de Marinha há vários anos, escrevendo principalmente sobre temas relacionados com o norte do país. Durante a sua vida profissional exerceu funções na agência Sofrena - Sociedade de Afretamentos e Navegação, Lda. de Matosinhos, hoje integrada no grupo E.T.E. - Navex