Património Cultural Marítimo

O “Musée Naval de Québec”

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Há cidades que, pela sua importância e o seu contributo para a história marítima dum país, deveriam ter um museu onde, num só local, fosse possível conhecer a história marítima em todas as suas vertentes. Não é o caso da cidade do Quebeque, no Canadá, onde esse património cultural está dividido em dois museus, um perto do centro da cidade dedicado à Reserva Naval, e outro, mais afastado uns 80 km para norte, nas margens do rio São Lourenço:  o Museu Marítimo do Quebeque.

O Vieux-Port de Québec, visto do cimo da cidade. (foto Aurore Duwez)

O Museu Naval do Quebeque, que visitámos em outubro de 2018, situa-se no Vieux-Port, nas instalações da marinha, propriedade da Reserva Naval da Marinha Real do Canadá, sendo um pequeno museu, não deixa de ser muito interessante e de nos revelar algumas boas surpresas.

O museu, inaugurado em 1995, foi inicialmente criado para abrigar a importante coleção de objetos, fotografias e documentos do Comandante Stalislas-Déry, um jovem de formação em direito, mas que ingressou voluntário na Marinha Real Canadiana, por ocasião do início das hostilidades na Segunda Guerra Mundial.

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O tenente Stalislas-Déry, em 1945, com 32 anos. (foto MNQ)

A missão do Museu Naval de Quebeque é adquirir e reunir os testemunhos materiais e imateriais da Reserva Naval do Canadá e da história naval do rio São Lourenço; preservar e comunicar esses testemunhos à humanidade para fins de pesquisa, educação e diversão; e, através de sua pesquisa histórica, servir a sociedade, conscientizando-se dos impactos das guerras e dos valores pacifistas.

O episódio do torpedeamento do submarino alemão U-877, vivido por Stanilas-Déry, proporciona-nos uma visão muito particular da sua personalidade.

No dia 27 de dezembro de 1944, Stanislas Déry era oficial da guarnição da corveta HMCS ST. THOMAS e participou no ataque ao submarino alemão U-877. Apoiados pela fragata HMCS SEA CLIFF, conseguiram afundar o submarino e de seguida resgataram parte da tripulação inimiga que, como prisioneiros de guerra, foram desembarcados alguns dias depois em Greenock, na Escócia. O relato do salvamento dos tripulantes feito pelo próprio Stanislas é aqui reproduzido no idioma original:

Soudain, dans le clapotis des vagues et des remous, on a vu des têtes d’homme émerger comme des bouchons de liège sur la mer noire et glacée du Groenland. Ils étaient tout près de nous et pataugeaient désespérément. On les entendait crier. On sentait leur détresse. Ce sont des moments qu’on n’oublie pas. Devant l’imminence de la mort, on ne voit plus l’ennemi. On ne pense plus qu’à l’homme qui est là, devant nous, qui désespère et dont on a providentiellement le sort entre ses mains. À ce moment précis, la fureur de la guerre devait donc, le plus naturellement du monde, faire place à la compassion. Oubliant la guerre, nous avons tenté aussitôt de rescaper le plus de survivants possible…

A corveta classe FLOWER, HMCS  ST. THOMAS, onde Stalinas-Déry viveu o afundamento do submarino alemão.
No museu podemos admirar um modelo da corveta K-106 HMCS EDMUNDSTON (1941-1945) (foto do autor)

A exposição permanente Les Héritiers des Guerres/ Heirs of Wars (Herdeiros das Guerras)

Em lugar de receber os visitantes como observadores passivos, a exposição torna-nos testemunhas, fazendo-nos descobrir que também nós somos herdeiros das guerras e devemos permanecer conscientes do seu enorme impacto nas nossas sociedades.

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Tradição, Salvamento, Navegação, Guerra, Ausência, entre outras, são algumas das nove áreas temáticas em exibição. (foto do autor)
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Hubert Lavoie embarcou pela primeira vez aos 5 anos como pequeno grumete. Nascido numa família de marinheiros, torna-se também ele um exímio marinheiro. Em 1937 é recrutado para utilizar os seus conhecimentos de navegação no comando dum pequeno navio que operava em águas restritas, em apoio de navios de abastecimento com cargas perigosas. Em 1971, tornou-se modelista naval, sendo dele o manífico modelo da nau francesa LE PROTECTEUR (1750), em exibição. Hubert Lavoie personifica o tema NAVEGAÇÃO.
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Modelo da nau francesa LE PROTECTEUR de 1750, contruído por Hubert Lavoie. A construção deste modelo, sobre planos originais, levou quatro anos, tendo todas as peças sido feitas à mão pelo modelista. (foto do autor)

Ao percorrer as várias áreas temáticas, somos tocados por descrições dos próprios protagonistas e das suas famílias que nos transmitem a consciência dos impactos permanentes deixados pelos combates nos primeiros, nas segundas, nos amigos e em todos nós… impactos esses que se prolongam no tempo até aos nossos dias. Ao descobrir os objetos que lhes pertenceram e com os quais trabalharam, ficamos mais próximos daquela realidade.

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O Museu exibe objetos pessoais dos heróis da Reserva Naval (foto do autor)
Objetos pessoais do Tenente Timothy Dunn (foto do autor)
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Testemunhos dos herdeiros do Tenente Timohy Dunn (foto do autor)
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Cartaz de propaganda de guerra, alertando para a importância da população informar o avistamento de submarinos, com informação sobre reconhecimento e identificação. (foto do autor)
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Objetos pessoais do Marinheiro Torpedeiro Laurent St. Pierre (foto do autor)
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Testemunhos dos herdeiros do Marinheiro Torpedeiro Laurent St. Pierre (foto do autor)
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Alguns objetos estão expostos em vitrines e outros dentro de gavetas, num jogo psicológico que estimula a curiosidade do visitante.

A Exposição “Herdeiros da Guerra” foi concebida e produzida pelo Museu Naval do Quebeque, com o apoio da Direção Histórica e Património do Ministério da Defesa do Canadá.

 

A Revista de Marinha agradece o apoio de Samuel Venière, antigo diretor, e de André Kirouac, atual diretor do Museu.

João Gonçalves

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Tem o curso de Informação Pública da NATO. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada. É diretor adjunto da Revista de Marinha desde janeiro de 2018.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Mais um excelente trabalho do Comandante João Gonçalves, e numa das suas especialidades, que é a descrição de museus marítimos, descrições que só pecam por serem curtas.
    Desta vez, no Musée Naval de Québec, naturalmente que se destaca a narrativa de Stanislas-Déry sobre o afundamento do U-877, que nem por ser semelhante a outras existentes, deixa de constituir um testemunho simultâneo da sordidez da guerra e da grandeza de alguns que são apanhados nos seus meandros.

    Os meus parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Artur Manuel Pires

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