Património Cultural Marítimo

O Museu dos Canais de Londres

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É muito difícil ir a Londres e não ver um dos seus canais! Para nós portugueses nada habituados a estas vias de comunicação pode começar por causar alguma admiração, mas se os procurarmos e seguirmos, a surpresa ainda será maior. A sua extensão parece enorme, o seu uso razoável, aqui e ali — por exemplo em Camden Town ou Little Venice, para referir locais incluídos nos roteiros turísticos — até intenso. Ainda assim, isto é a ponta do iceberg, uma amostra minúscula, para alguns uma caricatura simpática do que foi em tempos o complexo sistema de canais do Reino Unido, em particular da sua capital. E o seu uso está novamente a crescer. Todos os anos novos troços têm sido abertos, sobretudo para lazer, mas há quem os utilize como alternativa a meios de transporte mais poluentes.

Chega-se ao London Canal Museum (New Wharf Road, NI 9RT) desde a estação de King’s Cross em apenas 10m a andar. (imagem Miguel Machado)
Chega-se ao London Canal Museum (New Wharf Road, NI 9RT) desde a estação de King’s Cross em apenas 10m a andar. (imagem Miguel Machado)

Uma atracção pessoal — que não sei explicar! — pelos “barcos casa”, melhor dizendo, “narrowboats” (barco estreito e comprido adaptado à navegação nos canais britânicos e ao uso das suas comportas e eclusas), levou-me primeiro a percorrer a pé (e de barco) alguns trechos dos canais de Londres e Manchester, e agora, a tentar descortinar a sua história e momento presente no London Canal Museum.

É aqui que se percebe a tremenda relevância que estas vias tiveram, sendo até ao desenvolvimento do caminho de ferro, em meados do século XIX, o principal meio de transporte de todo o tipo de cargas comerciais, agrícolas e industriais. Ainda competiram com o comboio por muitos anos, mas acabaram sendo economicamente pouco rentáveis.

O Museu dos Canais de Londres 14
No R/C do museu um narrowboat dos anos 30 do século XX – o Coronis – quase completo, dá-nos uma boa ideia na cabine da popa das condições de vida a bordo. (imagem Miguel Machado)

Vários rios do Reino Unido estavam navegáveis em 1760 mas não se ligavam entre si, o que dificultava muito as trocas comerciais e o escoamento de matérias primas, carvão por exemplo. Assim até 1790 foi concluído o projecto “Grand Cross”, iniciado por James Brindley (1716-1772) de ligar 4 rios — Trent; Mersey; Severn; Tamisa — iniciado com o “Bridgewater Canal” que liga Runcorn, Manchester e Leigh, no Noroeste de Inglaterra. Até 1805 ligou-se a região do Midlands a Londres através do “Grand Junction Canal”, em 1820 o “Regent’s Canal” ligava vários locais em Londres numa altura em que a cidade era o maior porto do mundo e em 1835 atingiu-se a maior extensão da rede de canais. Estas infraestruturas nasceram um pouco por todo o país, eram iniciativas privadas — sujeitas a aprovação oficial. Muitas das companhias que os exploravam acabaram por falir, outras vingaram, algumas acabaram por dar grandes lucros. Aquilo que começou com a necessidade de exportar carvão do interior para o porto de Manchester, teve um enorme desenvolvimento em menos de 100 anos. As ligações dos principais portos britânicos aos centros produtivos do país estavam a seu cargo, o seu papel na revolução industrial foi muito relevante.

Pelas paredes do museu podemos apreciar uma série de objectos que em tempos estavam em uso nos canais e nos próprios barcos, e alguns ainda se mantêm. (imagem Miguel Machado)
Pelas paredes do museu podemos apreciar uma série de objectos que em tempos estavam em uso nos canais e nos próprios barcos, e alguns ainda se mantêm. (imagem Miguel Machado)

Primeiro o caminho de ferro e depois as vias rodoviárias com a melhoria dos motores e capacidade de carga das viaturas de rodas, prejudicaram cada vez mais o uso comercial lucrativo dos canais, alguns foram sendo abandonados. Depois da 1.ª Guerra Mundial (1914-1918) a situação das companhias que exploravam os canais ia piorando. Por volta de 1920 começaram-se a introduzir motores nos “narrow boats” — até aqui eram puxados por cavalos a partir das margens — para tentar ser mais económico mas o declínio continuou, os canais não conseguiam competir com os preços de transporte da concorrência. Por esta época os transportes rodoviários também já ofereciam entregas de mercadorias “porta a porta” o que ainda mais prejudicou o comércio pelos canais. Várias companhias dos canais ainda se fundiram para criar “economias de escala” tentando resistir mas… nada resultava. Logos após a 2.º Guerra Mundial (1939- 1945) os canais foram nacionalizados, continuaram a funcionar mas o golpe final no seu uso comercial foi dado pela natureza! Em 1963 o tempo gélido que ficou conhecido pelo “great freeze” gelou rios e canais, a navegação ficou bloqueada, sem poder entregar mercadorias. Nada parecia salvar os canais geridos pela estatal British Waterways.

O edifício do museu tem uma porta para a Battlebridge Basin do Regent’s Canal, uma marina onde vivem hoje umas dezenas de londrinos nos seus narrowboats adaptados para habitação permanente. (imagem Miguel Machado)
O edifício do museu tem uma porta para a Battlebridge Basin do Regent’s Canal, uma marina onde vivem hoje umas dezenas de londrinos nos seus narrowboats adaptados para habitação permanente. (imagem Miguel Machado)

A publicação de um livro em 1944, “Narrow boat” de Tom Rolt, acabaria por inspirar a criação em 1947 de uma associação na sociedade civil com o objetivo de recuperar os canais um pouco por todo o país, a Inlands Waterways Association. Levou a cabo a sensibilização de particulares e autoridades para as potencialidades dos canais nas actividades de lazer e algum transporte, o que foi a pouco e pouco ganhando adeptos e apoios. Criou inclusive uma “força de trabalho” voluntário que ajuda ainda hoje a recuperar/reconstruir canais. Todos os anos novos trechos de navegação têm sido abertos. A Associação está de boa saúde e recomenda-se!

O Reino Unido chegou a ter 11.000 quilómetros de rios e canais navegáveis, hoje são 8.000 dos quais 4.000 estão ligados entre si em Inglaterra e País de Gales. Em Londres como em várias outras cidades os canais, docas e baías têm milhares de “barcos casa” de muitos tipos e dimensões, e em diferentes estados de conservação — dos óptimos aos miseráveis! — a maioria a navegar, e onde vivem milhares de pessoas. Muitos também se dedicam ao turismo, mas a maioria são mesmo habitação permanente.

O Bantam IV referido no texto que também integra o espólio do museu. (imagem Miguel Machado)
O Bantam IV referido no texto que também integra o espólio do museu. (imagem Miguel Machado)

Em Inglaterra e no País de Gales a associação “Canal River Trust” gere desde 2012 cerca de 3.200 quilómetros de vias navegáveis, tendo substituído a estatal British Waterways que na Escócia continua a operar embora com o nome Scottish Canals e gere cerca de 220 quilómetros de canais.

Este ano no “The Observer” (30MAY2021) Miranda Bryant referia que havia mais barcos nos canais e rios do UK este ano que no século XVIII! Em Março de 2021, 35.130 pessoas tinham licença para viver em rios e canais, quando em 2012 eram 32.490. A pandemia COVID 19 aumentou a procura deste tipo de habitação com as vendas a aumentar em cerca de 50%. Um “narrowboat” em segunda mão custa cerca de 50,000£ (59.000€) e um novo 140.000£ (165.000€), disse ao “The Observer” Chris Hill, vendedor deste tipo de embarcações. Revistas e até programas de televisão sobre esta “vida a bordo” também têm estimulado o mercado e o interesse da opinião pública.

Modelos da enorme variedade de embarcações que ao longo dos séculos navegaram nos canais do Reino Unido. (imagem Miguel Machado)
Modelos da enorme variedade de embarcações que ao longo dos séculos navegaram nos canais do Reino Unido. (imagem Miguel Machado)

London Canal Museum

Situado a 10 minutos a pé da estação/metro de Kings Cross, na New Wharf Road, NI 9RT Londres, é fácil de encontrar, o trajecto desde a estação está assinalado. A visita custa 5£ e durará cerca de uma hora, dependendo naturalmente do detalhe que cada um queira colocar na ocasião. Trata-se na realidade de um pequeno edifício de dois andares, o R/C está muito dedicado à utilização original que o local teve, a Fábrica de Gelo de Carlo Gatti (1817-1878). Este imigrante italiano tornou-se um típico empreendedor da sua época, importava gelo da Noruega que lhe chegava através do Regent’s Canal e vendia-o em Londres, negócio que manteve durante 40 anos. Neste piso podemos também ver um “narrow boat”, o Coronis, de meados do século XX que nos dá uma boa ideia do que era a vida a bordo destas embarcações. Ali, além do compartimento de carga havia um espaço mínimo onde vivia muitas vezes uma família, quase e sempre em condições muito difíceis. A história destas famílias “embarcadas” era repleta de dificuldades e os relatos por exemplo do século XIX são duros de ler:

…nessas cabines viviam mães, pais, filhas e filhos todos a dormir na mesma cama ao mesmo tempo… …95% eram analfabetos, 90 % alcoólicos, 60% dos homens e mulheres viviam juntos mas não eram casados…”

(1875, “Our Canal Population”, George Smith.)

Um tractor Wickham de 1960 com motor diesel especialmente concebido para uso nos canais a pedido da estatal British Waterways. Julga-se que é um dos 3 sobreviventes existentes no Reino Unido. (imagem Miguel Machado)
Um tractor Wickham de 1960 com motor diesel especialmente concebido para uso nos canais a pedido da estatal British Waterways. Julga-se que é um dos 3 sobreviventes existentes no Reino Unido. (imagem Miguel Machado)

Nesta segunda metade do século XIX 30.000 pessoas trabalhavam nos canais de Londres e destes cerca de 9.000 viviam nos barcos. Ao longo dos anos as autoridades foram obrigando à melhoria das condições de vida destas populações e em 1921 já se considerava que nos barcos-casa não havia pobreza. Dada a dureza das condições de vida, frequência de acidentes, hábitos de bebida e trabalho realizado, estima-se que a esperança de vida dos embarcados era metade da dos trabalhadores agrícolas.

No primeiro andar do museu há muita informação de carácter histórico, modelos de embarcações e de canais, plantas das redes de canais, projecção de filmes e uma série de ferramentas, placas informativas e outros objectos que foram usados nos barcos e nos canais.

A Blackwall Basin junto a Canary Wharf que tem ligação directa ao rio Tamisa na zona da chamada “Ilha dos Cães” onde o Porto de Londres tinha grande quantidade de docas. (imagem Miguel Machado)
A Blackwall Basin junto a Canary Wharf que tem ligação directa ao rio Tamisa na zona da chamada “Ilha dos Cães” onde o Porto de Londres tinha grande quantidade de docas. (imagem Miguel Machado)

Fica bem clara a enorme importância que o sistema de canais teve em Londres para receber as matérias-primas que chegavam de outros locais do Reino Unido e das várias colónias do Império ao porto da cidade, que se estendia por quilómetros e quilómetros nas margens do Tamisa. Era também através de barcos e barcaças que os canais escoavam uma grande variedade de produtos manufaturados nas principais indústrias da cidade, de armas a biscoitos.

Os aspectos técnicos relativos à navegação nos canais, bem assim como aspectos administrativos — por exemplo a cobrança de “portagens” — tudo com uma forte componente iconográfica, tornam a visita muito informativa.

Uma embarcação está a sair da St Pancras Lock 4 no Regent’s Canal, depois de “ter descido” do nível superior do canal – ver em fundo onde está outro narrowboat – de onde navegava. Estas comportas / eclusas são todas manuais e operadas pelos próprios tripulantes. (imagem Miguel Machado)
Uma embarcação está a sair da St Pancras Lock 4 no Regent’s Canal, depois de “ter descido” do nível superior do canal – ver em fundo onde está outro narrowboat – de onde navegava. Estas comportas / eclusas são todas manuais e operadas pelos próprios tripulantes. (imagem Miguel Machado)

Este edifício tem ainda uma saída para a doca de “Battlebridge” do Regent’s Canal onde se podem admirar mais de uma dúzia de barcos-casa particulares que estão a ser habitados. Também ali uma curiosidade, o “Bantam IV”, um pequeno barco a motor dos anos 1949-50, que se destinava a empurrar as barcaças de carga e a tarefas de manutenção dos canais. Foram construídos e usados 91 porque se chegou à conclusão que empurrar as barcaças consumia menos 40% de combustível do que rebocá-las!

Junto à entrada/saída do museu há ainda uma loja com recordações alusivas e uma livraria bem recheada de diversos tipos de publicações sobre esta actividade.

Os Rios de Londres (Tamisa, Lee, Stort, Medway, Wey, Kennet) que estavam integrados na rede de canais (a vermelho) e ligavam toda a actividade industrial e comercial da região ao porto da capital do Império Britânico. (imagem Miguel Machado)
Os Rios de Londres (Tamisa, Lee, Stort, Medway, Wey, Kennet) que estavam integrados na rede de canais (a vermelho) e ligavam toda a actividade industrial e comercial da região ao porto da capital do Império Britânico. (imagem Miguel Machado)

Andando por Londres, hoje, são muitos os locais onde é possível admirar os barcos-casa, de todos os tipos, quer ancorados em marinas onde mais de 2.200 pessoas viviam em 2019, quer acostados ao longo dos canais. O número de barcos-casa e o dos seus habitantes aumentou desde a Pandemia e as actividades ligadas ao turismo nos canais que estiveram fechadas já estão de volta e isso é bem visível. A maioria dos novos habitantes nos canais têm idades entre os 45 e os 60 anos de idade, mas as questões ligadas ao ambiente e ao modo de vida a bordo estão a atrair gente mais nova, 25% dos novos proprietários de barcos já estão abaixo daquela faixa etária. Por outro lado, alguns sectores industriais continuam a usar barcaças de grande capacidade de carga e defendem que o governo devia apoiar este tipo de transporte e melhorar os canais se quer mesmo combater as alterações climáticas.

A rede de canais em Inglaterra e no País de Gales que hoje é explorada por uma associação, a Canal River Trust. São 3.200 quilómetros de vias navegáveis! (imagem Miguel Machado)
A rede de canais em Inglaterra e no País de Gales que hoje é explorada por uma associação, a Canal River Trust. São 3.200 quilómetros de vias navegáveis! (imagem Miguel Machado)
O momento presente dos canais em Londres e no Reino Unido mostram que estão de volta… e a todo o vapor!

 

Miguel Silva Machado

Tenente-coronel pára-quedista na reforma, possui diversos curso nacionais e NATO na área das relações públicas e da informação pública. Foi o 1.º Oficial das Forças Armadas Portuguesas a desempenhar as funções de Oficial de Informação Pública nas operações exteriores do pós-Guerra do Ultramar, concretamente na Bósnia-Herzegovina. Já depois de passar à reserva, foi responsável por cadeiras sobre Comunicação , Forças Armadas e Defesa em várias instituições de Ensino Superior. Criou o OCS especializado Operacional e tem diversa obra publicada sobre temas relacionados com as Forças Armadas. Além disso, sempre que pode, gosta de viajar, escrever e fotografar.

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