Marinha de Guerra Construção e Reparação Naval

O Navio Patrulha Oceânico Russo – PROJECT 22160

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Project 22160 é uma classe de grandes navios-patrulha em construção para a Marinha Russa. O primeiro tem como patrono Vasil Bykov, de seu nome completo Vasíl Uładzímiravič Býkaŭ, militar e escritor soviético e bielorrusso (1924-2003).

No momento atual em que a Armada Portuguesa tem em curso o seu programa de construção dos navios patrulha oceânicos da classe VIANA DO CASTELO, é interessante ver como uma grande potência materializou requisitos semelhantes.

Simultaneamente com o final da guerra fria e a proliferação de novas ameaças à soberania dos estados, ocorreu a pressão política das populações sobre os governos para uma reafectação dos orçamentos militares a outros serviços do estado, o que forçou a uma cada vez maior otimização dos recursos militares.

No mar intensificaram-se fenómenos como a pirataria marítima, o crime organizado e as migrações, onde o emprego de navios de guerra convencionais se mostrou desadequado dados os custos de operação das plataformas cujas capacidades excediam em muito as necessidades.

De facto, tanto os piratas como os traficantes, surgem normalmente equipados com armamento ligeiro, no máximo lança-granadas foguete (RPG), e fazem-se transportar em embarcações frágeis ou desprovidas de armamento pesado, realidade que obrigou a conceber um outro tipo de navio, robusto e com capacidade oceânica, mas com uma guarnição reduzida, o armamento aligeirado e um elevado grau de automação.

A escolha da grande maioria das Marinhas de Guerra incidiu em navios de comprimento aproximado de 100m, com uma guarnição de cerca de 35 elementos e com capacidade de operar um meio aéreo para vigilância e reconhecimento, tripulado ou não.

O NRP SETUBAL, construído segundo o projeto NPO 2000, é um navio que apenas possui armamento ligeiro e sensores com características civis. As suas linhas, apesar de angulosas apresentam uma secção reta radar elevada, devido às aberturas no casco e inúmeros equipamentos, como gruas e embarcações expostas no exterior. (imagem MGP)
O NRP SETUBAL, construído segundo o projeto NPO 2000 é um navio que apenas possui armamento ligeiro e sensores com características civis. As suas linhas, apesar de angulosas apresentam uma secção reta radar elevada, devido às aberturas no casco e inúmeros equipamentos, como gruas e embarcações expostas no exterior. (imagem MGP)

O caso da Marinha Russa

Com a integração da Rússia na economia mundial, a Marinha Russa, herdeira das antigas tradições Czaristas e da antiga União-Soviética, cedo começou a ser chamada para desempenhar missões “fora de área”, pela necessidade de proteger os seus interesses económicos em águas internacionais. São conhecidas as intervenções russas no combate à pirataria no Oceano Índico, de onde ficaram famosas as imagens de utilização de armamento com elevadíssimo poder de fogo contra as pequenas embarcações de pesca utilizadas pelos piratas somalis, situação onde foi evidente o desajustamento do emprego de navios como o contratorpedeiro lança-mísseis MARSHAL SHAPOSHNIKOV[1] da classe UDALOY, de 163m, 6.200 T de deslocamento e uma guarnição de 300 homens.

Para responder a esta necessidade foi chamado o Gabinete de Projeto e Construção Naval de Severnoe, de São Petersburgo, um dos mais importantes gabinetes de construção naval russos, fundado em 1946. Foi aí que os engenheiros e arquitetos navais russos conceberam o Projeto 22160, um novo conceito de navio de patrulha oceânico, destinado principalmente a tarefas de patrulha, vigilância, busca e salvamento, assistência a vítimas de desastres, proteção ambiental, combate à criminalidade em ambiente marítimo e luta contra a pirataria mas que, em tempo de guerra, também pode ser usado para escolta de comboios, proteção de áreas marítimas e de bases navais.

O contratorpedeiro MARSHAL SHAPOSHNIKOV em Pearl Harbour, numa visita no ano de 2003 (imagem William R. Goodwin, US Navy)
O contratorpedeiro MARSHAL SHAPOSHNIKOV em Pearl Harbour, numa visita no ano de 2003 (imagem William R. Goodwin, US Navy)
DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
Modelo mostrando as portas da escotilha de lançamento do mísseis Club-K em módulo contentorizado.
Modelo mostrando as portas da escotilha de lançamento do mísseis Club-K em módulo contentorizado.

Uma das características inovadoras deste projeto foi a adoção, pela primeira vez na marinha russa, do conceito de equipamento modular, que permite aos navios serem facilmente adaptados a diferentes missões, embarcando contentores dotados de sonares, torpedos ou mísseis antinavio e de cruzeiro.

Esta característica permite a uma Armada transformar, se assim necessitar, navios de patrulha em plataformas combatentes, com elevado poder de fogo, o que no caso atual da Federação Russa é uma mais-valia importante dados os recursos limitados disponíveis para manter uma esquadra que tem de estar presente em praticamente todo o globo, numa época caracterizada pela volatilidade nas relações internacionais.

Este conceito, no entanto, é bastante controverso, nomeadamente junto de certos analistas militares russos como Alexander Timokhin que no site Top War, tece duríssimas críticas, chamando a estes navios de “inúteis”, e denunciando o seu fraco armamento e incapacidade de cumprir alguns requisitos como a velocidade máxima, entre outros.

Ao longo de mais de 2.300 kms, desde o rio Volga no Tartaristão, até ao Mar de Azov, o DMITRY ROGATCHEV foi transportado numa plataforma flutuante especial com alguns dos mastros e antenas desmontados. (D.R.)
Ao longo de mais de 2.300 kms, desde o rio Volga no Tartaristão, até ao Mar de Azov, o DMITRY ROGATCHEV foi transportado numa plataforma flutuante especial com alguns dos mastros e antenas desmontados. (D.R.)
Lançamento do NPO SERGEY KOTOV, no dia 29 de janeiro de 2021, nos estaleiros de Zaliv na Crimeia. O projeto 22160, apresenta 94,1 m de comprimento, 14,2 m de boca e 1.500 tons. (imagem Malgavko Sergey-TASS)
Lançamento do NPO SERGEY KOTOV, no dia 29 de janeiro de 2021, nos estaleiros de Zaliv na Crimeia. O projeto 22160, apresenta 94,1 m de comprimento, 14,2 m de boca e 1.500 tons. (imagem Malgavko Sergey-TASS)

O Projeto 22160 compreende uma série inicial de seis navios, quatro dos quais já foram entregues à esquadra do Mar Negro, e os últimos dois estão em construção no estaleiro de Zelenodolsk no rio Volga, na região do Tartaristão.

A construção desta série de navios reveste-se de outra particularidade interessante, uma vez que se divide entre dois estaleiros, o de Zelenodolsk e o de Kerch, na Crimeia, distantes entre si cerca mais de 2.300 km por via fluvial, tendo os cascos de percorrer essa distância atravessando os rios Volga e Don e as 13 comportas do canal Volga-Don.

As características dos navios

Os navios desta classe têm um comprimento de 94,1 m, uma boca de 14,2 m, um calado de 3,4 m e um deslocamento de 1.300 toneladas[2]. Tem uma guarnição mínima de 20 elementos, que pode crescer até 80 militares, incluindo especialistas de armamento, destacamento aéreo e força de desembarque.

O Projeto 22160 é movido por sistema de propulsão do tipo CODAG (combinação de diesel e gás), incluindo duas turbinas a gás de reforço (M70FRU ou M90FRU) que o impulsionam a uma velocidade máxima de 30 nós. A sua autonomia é de 6.000 milhas náuticas ou 60 dias.

Como armamento dispõe duma peça de artilharia automática de AK-176MA de 76,2 mm e duas metralhadoras MTPU de 14,5 mm, um sistema lança-granadas automático anti-mergulhador DP-65 de 10 canos, e diferentes tipos de módulos de contentorizados, incluindo módulos de armas, como os lançadores de torpedos de 324mm Paket-NK e mísseis anti-navio 3M-24 Klub-k e de cruzeiro Kalibr-NK (a partir do quarto navio da classe).

A meio-navio possui um hangar telescópico e um convés de voo, que lhe permite embarcar um helicóptero até 12 toneladas do tipo Kamov  Ка-27 PS.

Além disso, o navio de guerra embarca uma lancha rápida de desembarque Project 02800[3]. Pode também transportar e operar veículos aéreos, de superfície ou subaquáticos não tripulados.

Os navios do projeto 22160 estão dotados de uma lancha de desembarque rápida Project 02800, cujas linhas podem ser apreciadas nesta imagem. (imagem Igor Terokhin)
Os navios do projeto 22160 estão dotados de uma lancha de desembarque rápida Project 02800, cujas linhas podem ser apreciadas nesta imagem. (imagem Igor Terokhin)
Esquema de arranjo dos espaços interiores do project 22160
Esquema de arranjo dos espaços interiores do project 22160
A inclinação para ré dos vidros da ponte origina a entrada de demasiada radiação luminosa e infra-vermelho na ponte, prejudicando a visibilidade e o conforto (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
A inclinação para ré dos vidros da ponte origina a entrada de demasiada radiação luminosa e infra-vermelho na ponte, prejudicando a visibilidade e o conforto (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
Um camarote de oficial e beliche num camarote de praças (imagem Piervy Kanal, Russia Canal 1)
Um camarote de oficial e beliche num camarote de praças (imagem Piervy Kanal, Russia Canal 1)
O convés de voo do DMITRY ROGATCHEV onde são visíveis as portas do porão dos contentores modulares lança-mísseis. Esta dualidade de utilização não permite a operação do convés de voo e das armas em simultâneo, o que pode ser uma limitação fatal em combate. (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
O convés de voo do DMITRY ROGATCHEV onde são visíveis as portas do porão dos contentores modulares lança-mísseis. Esta dualidade de utilização não permite a operação do convés de voo e das armas em simultâneo, o que pode ser uma limitação fatal em combate. (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
O DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk, visto de popa, observa-se a tolda, debaixo do convés de voo, e a porta de acesso da lancha rápida que, pelo facto de ter pouca altura em relação à linha de água, deve limitar a operação da lancha a estados de mar menos agrestes (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
O DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk, visto de popa, observa-se a tolda, debaixo do convés de voo, e a porta de acesso da lancha rápida que, pelo facto de ter pouca altura em relação à linha de água, deve limitar a operação da lancha a estados de mar menos agrestes (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)

Seis navios para a Rússia e quatro para a Argélia

O primeiro navio da classe, o VASILY BYKOV (Zelenodolsk) iniciou a construção em fevereiro de 2014, tendo entrado ao serviço 6 anos mais tarde, no dia 20 de dezembro de 2018, na base naval de Novorossiysk, no Mar Negro. O segundo, DMITRY ROGACHEV (Zelenodolsk), içou o pavilhão de Santo André no dia 11 de junho de 2019, o terceiro, PAVEL DERZHAVIN (Zaliv) a 27 de novembro de 2020 e o quarto, SERGEY KOTOV (Zaliv), em 29 de janeiro de 2021. O quinto e sexto navio, respetivamente VIKTOR VELIKIV e NIKOLAY SIPYAGIN, estão em construção no estaleiro de Zelenodolsk.

Em maio de 2018, a Argélia assinou um contrato para aquisição de quatro navios desta classe, sendo o primeiro construído em Zelenodolsk e os outros três num estaleiro argelino. O contrato, no valor de 180 milhões de dólares, prevê que os navios argelinos sejam equipados com o míssil Klub-K e o sistema de defesa de ponto 3M-24 Gibka. Segundo o ministro da defesa russo, Sergey Shoigu, o interesse por estes navios aumentou após o seu bom desempenho na costa da Síria.

O Navio Patrulha Oceânico Russo - PROJECT 22160 16
O sistema de defesa de ponto 3M-47 Gibka, constitui-se num reparo com 12 lança-mísseis IR 9K-38 Igla, com um alcance de 6km (imagem Rosoboronexport)
DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk vendo-se a peça de 76,2mm no castelo de proa (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk vendo-se a peça de 76,2mm no castelo de proa (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
Pormenor dos mastros e sensores do NPO DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
Pormenor dos mastros e sensores do NPO DMITRY ROGATCHEV em Novorossyisk (imagem Vladimir Nikitin @rock_n_roll_80664 Владимир Никитин)
A cerimónia de entrega do PAVEL DERZHAVIN ocorreu na base de Novorossyisk, no dia 3 dezembro 2020 (D.R.)
A cerimónia de entrega do PAVEL DERZHAVIN ocorreu na base de Novorossyisk, no dia 3 dezembro 2020 (D.R.)

Assista aqui às provas de mar com os técnicos do estaleiro a bordo do DMITRY ROGATCHEV, numa reportagem que mostra pormenores como a recolha e o lançamento do helicóptero, das embarcações, incluindo a lancha de desembarque Project 02180 e o seu engenhoso sistema de doca na popa.

[1] No dia 6 de maio de 2010, comandos da infantaria de marinha russa embarcados do MARECHAL SHAPOSHNIKOV resgataram o navio-tanque MV MOSCOW UNIVERSITY. Tendo toda a tripulação escapado ilesa. O MV MOSCOW UNIVERSITY tinha sido sequestrado por piratas somalis a 5 de maio de 2010 junto à Ilha de Socotra, do Iémen. Durante a operação, os comandos russos detiveram 10 piratas e mataram um.

[2] Por comparação, o NRP VIANA DO CASTELO tem um comprimento de 83.10 m, uma boca de 12.85 m, um calado de 3,8 m e um deslocamento de 1.850 toneladas.

[3] A lancha project 02800 tem calado raso e casco blindado, podendo atingir velocidade de 40 nós, com excelente manobrabilidade. Pode operar tanto em mar aberto como perto da costa. Entre suas principais vantagens estão o efeito surpresa e a capacidade de abicar numa praia e desembarcar um pelotão de fuzileiros por uma rampa de proa. Com 10 metros de comprimento e 3,6 metros de boca tem capacidade para transportar 12 militares armados e equipados.

João Gonçalves

Oficial da Armada. Especializou-se em submarinos, onde navegou durante seis anos nos navios da classe ALBACORA. Esteve colocado cerca de sete anos como Capitão do Porto nos Açores. Escreveu para a Revista da Armada e em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador. Está na Revista de Marinha desde 2016 e é diretor-adjunto desde janeiro de 2018.

2 Comentários

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante, com as magnificas ilustrações e filmes a que a Revista de Marinha e o Comdt. João Gonçalves já habituaram os seus leitores, e de onde destaco o corte representativo do navio e o transporte do Volga até ao Mar de Azov.
    Igualmente interessante é o balanço entre os pontos fracos e fortes da conceção dos navios. Indo os fracos (sempre os mais interessantes de conhecer) desde o constrangimento da operação em simultâneo do convés de voo e do armamento, até ao pormenor da inclinação dos vidros na ponte.
    Os parabéns à Revista de Marinha ao Comdt. João Gonçalves.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

  2. António Balcão Reis Responder

    Parabéns ao autor, mais um magnifico artigo de grande actualidade e com impressionantes referências de grande qualidade. Se não me confundi, em determinada foto a legenda identifica o projecto como corveta. Confusão minha? Originais em inglês já tenho dificuldade em seguir, mas em russo…
    Fico à espera do próximo

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