Marinha de Guerra

O nosso navio

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Do ultramar distante, das casas remotas dos quatro cantos da nossa terra, muitos se lembram do que foi o seu navio, escrevem e evocam-no. Parece-lhes, às vezes, que tudo deixariam para lhes pertencer de novo.

O nosso navio é, para nós, o melhor de todos. Nenhum, como ele, mais airoso e leal pode sulcar os mares. Se nos dizem que os mesmos planos serviram para muitos, mesmo assim não podemos acreditar que outros iguais foram feitos. Sabemos bem que se não pode dar uma só vida a dois seres, insuflar o mesmo espírito a dois corpos. E um navio, sente-se perfeitamente, é um ser vivo, que nasce com o destino marcado, qualidades e defeitos que o distinguem, lhe dão caracter e simpatia, nos entram pelos olhos e nos penetram e absorvem e nos fazem amá-lo sobre tudo o mais.

O contratorpedeiro LIMA em manobras, em 1938 (imagem Revista de Marinha, D.R.)
O contratorpedeiro LIMA em manobras, em 1938 (imagem Revista de Marinha, D.R.)

Neste “nosso LIMA” – como ainda lhe chamam com carinho e saudade todos os que tiveram a ventura de saber nele servir – ninguém lamenta a aspereza da sorte. Embalados na bonança ou fustigados por temporais, só motivos de orgulho temos, afinal, recebido e, dia a dia, a nossa confiança se vai enraizando, a mais e mais.

Anda com ele o mau tempo …

É verdade. Mas os nevoeiros e as procelas, vendavais e aguaceiros, outro resultado não deram do que aumentar a fama da sua tão notável existência. Companheiros, duros companheiros que apenas o exaltam e nunca o abateram!

Encalhes, colisões, avarias grossas, balanços desmedidos, todo um sudário de revezes, tem servido apenas para claramente se ver como este valoroso e martirizado navio nos prende e afeiçoa.

Todos sabemos o que é um bom navio, um navio de sorte. Não é certo que foi ele, na nossa Marinha, quem mais náufragos salvou? Há 228 vidas que também nunca o poderão esquecer, a esse LIMA que os foi tirar da negrura da noite do mar sem fim.

Ninguém sai o portaló de vez, sem levar mágoa que não esquecerá breve. Tenho-os visto a descê-lo com as lagrimas em fio; e vejo-os às vezes ao longe, debruçados em outras balaustradas, olhando, enlevados, o seu velho navio que o destino lhes fez abandonar.

Os contratorpedeiros LIMA e DOURO ancorados em Ponta Delgada. Os Açores foram o epicentro de muitas operações de busca e salvamento da Armada Portuguesa durante a segunda guerra. (imagem Revista de Marinha, D.R.)
Os contratorpedeiros LIMA e DOURO ancorados em Ponta Delgada. Os Açores foram o epicentro de muitas operações de busca e salvamento da Armada Portuguesa durante a segunda guerra. (imagem Revista de Marinha, D.R.)

Do ultramar distante, das casas remotas dos quatro cantos da nossa terra, muitos se lembram do que foi o seu navio, escrevem e evocam-no. Parece-lhes, às vezes, que tudo deixariam para lhes pertencer de novo.

E assim tem de ser. Cada um de nós não pode em parte alguma cumprir melhor o seu dever, servir com mais honra o seu país. Aqueles que em momentos trágicos, difíceis, tem sabido mostrar o que valem como homens do mar, não podem deixar de estar fundamente agradecidos a um navio que lhes deu tamanhas oportunidades.

Dos mais humildes postos de serviço às mais categorizadas situações, dos fundos porões às trepidantes máquinas e às encharcadas pontes, quem não se descobriu a si próprio em momentos de perigo, quem não cessou para sempre de duvidar de si?

Estes homens por força que hão de querer a um navio em que se honraram. Os outros, se os houvesse, não seriam, em verdade, marinheiros, nem dignos de ser do LIMA.

O NRP LIMA e o NE SAGRES II, amarrados à bóia no quadro dos navios de guerra no Tejo, em 1938. (imagem Revista de Marinha, D.R.)
O NRP LIMA e o NE SAGRES II, amarrados à bóia no quadro dos navios de guerra no Tejo, em 1938. (imagem Revista de Marinha, D.R.)

Mas o nosso navio não cuida apenas de si. Olha sempre para os outros, admira-os e estima-os. Sente-se orgulhoso dos seus feitos e triste com as suas mágoas. Todos eles são a Marinha, na qual não passamos de um átomo, obscuro e humilde, da sua grandeza inatingível.

Nós somos, na verdade, os da Marinha. Aqueles que tem o privilégio de passar noites infernais sob tormentas, sem um queixume e, sobretudo, sem que ninguém pense que pode ser pago em moedas tão imaterial sacrifício.

Aqueles que dia a dia aprendem a lealmente lutar com mares e ventos; que podem, em toda a sua magnitude, sentir a dureza e fragilidade da vida; que preferem ao conforto o risco, a miséria ao luxo, a honra ao dinheiro.

Nada nos devem os senhores da terra. Gozamos destes estranhos prazeres que a eles são vedados, agradecidos à nossa boa estrela que nos fez marinheiros.

Por certo, quem trocaria tais postos de honra, sobre as pontes desmanteladas, por um vil e apodrecido bem-estar? Sentimos que só nós poderíamos ocupá-los, porque nós é que somos marinheiros. E estamos pagos.

Isto é assim nos navios da Armada.

Por isso a todos saudamos fraternalmente. Àqueles que como nós usam botão de âncora, aos que como nós andam nos seus queridos navios.

A guarnição do LIMA com o seu comandante Capitão-Tenente Sarmento Rodrigues
A guarnição do LIMA com o seu comandante Capitão-Tenente Sarmento Rodrigues (D.R.)

E particularmente nos lembramos, com saudade e admiração, dos que outrora tripularam este navio, enchendo-se de lustre, cobrindo-o de renome. Antigos e ilustres Comandantes que tão bem o conduziram em escabrosas, delicadas e importantes missões; briosos oficiais, estrénuos e dedicados sargentos, galhardos marinheiros.

Por novos e velhos, antigos e modernos, Comandantes e grumetes, por todos nós corre o mesmo afeto a um corpo de aço e alma de fogo, a um ser vivo e vibrante que se chama LIMA, “o nosso navio”!

Os contratorpedeiros LIMA e DOURO, retratados pela pena de Stuart de Carvalhais (1938 - imagem Revista de Marinha, D.R.)
Os contratorpedeiros LIMA e DOURO, retratados pela pena de Stuart de Carvalhais (1938 – imagem Revista de Marinha, D.R.)

 

Nota do Diretor:

Como os nossos leitores se recordam, publicamos na edição impressa nº 1013, janeiro/fevereiro de 2020, págs 34/35, o interessante artigo “O nosso navio”, assinado por Jorge Bettencourt, Oficial da Armada na reforma e nosso estimado assinante. Fui na altura contactado por um camarada mais antigo, pelo Vice-Almirante Cavaleiro de Ferreira, também nosso estimado assinante, que me referiu existir já um texto com o mesmo título, da autoria do Almirante Sarmento Rodrigues. Depois desta chamada de atenção recordei-me de ter visto, há umas largas dezenas de anos, mais de uma vez, aquele texto, emoldurado e pendurado na parede; foi-me dito que também era frequente encontrá-lo a bordo, a decorar anteparas nas camaras de Oficiais ou na camarinha do Comandante. Com o apoio do Comandante Adelino Rodrigues da Costa, camarada e amigo a quem muito agradeço, localizei o texto em apreço, o primeiro capítulo do livro “Rio Lima, o seu navio e os seus heróis”, uma edição do N.R.P. LIMA, de 1944.

Capa do livro "Rio Lima, o seu navio e os seus heróis" 1944 (D.R.)
Capa do livro “Rio Lima, o seu navio e os seus heróis” 1944 (D.R.)

A semelhança nos títulos é uma mera coincidência; o texto do Engenheiro Jorge Bettencourt refere-se ao N.E. SAGRES, desde 1962 o “nosso navio” para as sucessivas gerações de alunos da Escola Naval, enquanto o texto do então Capitão-Tenente Manoel Maria Sarmento Rodrigues se refere ao contratorpedeiro N.R.P. LIMA, que comandou com muito sucesso num período que coincidiu com a II Grande Guerra Mundial. Ficaram para a história os salvamentos de náufragos de navios torpedeados nos mares dos Açores e um balanço do navio de 67º, com o LIMA navegando com mau tempo de regresso a Ponta Delgada.

O texto de Sarmento Rodrigues, muito bem escrito, é intemporal e toca o coração de qualquer marinheiro, designadamente daqueles que … usam botão de âncora, aos que como nós andam nos seus queridos navios.

Após um contacto com a família de Sarmento Rodrigues, a quem muito agradecemos, não resistimos a publicar este texto na vossa revista, para benefício dos nossos leitores mais jovens, que porventura não o conheçam.

Alexandre da Fonseca

Manoel Sarmento Rodrigues

Capitão-Tenente, comandante do N.R.P. LIMA (1941-1945)

5 Comentários

  1. Bárbara Loução Responder

    O meu pai iniciou o seu percurso de marinheiro a bordo do contratorpedeiro Lima segundo consta a sua caderneta militar. De 7 de março de 1945 até 17 de agosto de 1948 esteve embarcado e quem sabe se não coincidiu ser comandado pelo, na altura, Capitão Tenente Sarmento Rodrigues. Que histórias maravilhosas.

  2. Artur Manuel Pires Responder

    Trabalho muito interessante da Revista de Marinha, recuperando o texto também muito interessante do Almirante Sarmento Rodrigues.
    E importa bastante destacar as magnificas ilustrações na posse da Revista de Marinha, o que realça a importância desta na historiografia dos assuntos náuticos em Portugal, e não apenas , e o valioso património que possui e que coloca à disposição da comunidade.
    De entre as ilustrações sobressai igualmente o trabalho de Stuart de Carvalhais, ainda hoje muito merecidamente um artista particularmente considerado e valorizado, e naquela época um dos artistas mais proeminentes do nosso panorama artístico.
    Os parabéns à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

  3. Schieder Da Silva Responder

    Sö para lembrar de que sofro de calaustrofobia o que mesmo que quisesse nao me permitia entrar no navio,fragata,nos cruzeiros nao sei,porque a claustrofobia piorou com os tempos,coisa que nqo tinha nos tempos de Marinha,porque fiz a NATO de 77 e dormia na casa do leme e depois na casa da peça de popa mesmo ao lado do motor da peça e naquele tempo estava tudo bem.

  4. Schieder Da Silva Responder

    Por falar em Ultramar,se fosse possìvel dizer algo sobre o batelao que desapareceu a sua tripulaçao nas ilhas de Bijagos,li na Revista Da Armada um artigo,que nao explicou o suficiente sobre o assunto,deixando um mistèrio sobre o assunto,desde jä obrigado!
    Saüdades da Marinha nao tenho,e por dinheiro nenhum voltava a navegar em uma fragata,estive duas semanas em um navio de cruzeiro 245 metros de comprimento e 70 mil t. a trabalhar,nestes talvez volte,mas sö como passageiro, para andar enjoado,nao,muito obrigado!
    Hä um outro assunto que gostaria de focar,durante o Exodo ultramarino o governo organizou uma caravana automövel apartir de Luanda,se alguèm souber mais alguma coisa agradecia,è por terra,mas se calhar tambem houve algo similar por mar.
    Obrigado!

    • Schieder Da Silva Responder

      O melhor disto tudo è que estas maravilhosas mäquinas de guerra vao cada vez mais sendo peças de museu,as pessoas vao tendo menos vontade de se andarem a matar uns aos outros,menos guerras,mais tempo de paz,as pessoas teem outras ocupacoes e nao querem abdicar dos seus luxos,comodidades.
      Ainda me lembro de uma entrevista durante os muitos conflitos na Guinè,em que uma mulher muito chateada dizia ao jornalista:jä nao tomo banho ä tres dias . Ora isto jä foi hä ums trinta anos,e as pessoas vao perdendo a vontade de deixar os seus computadores,ir äs compras,fèrias…
      Se virmos como exemplo as guerras napoleonicas,em que os soldados iam a pè contra os canhoes e as balas,ainda bem que agora a vida humana tem muito mais valor nas nossas sociedades e assim podemos ver estas poderosas mäquinas nos museus de marinha,onde tudo estä bem arrumado,limpo e confortävel,o contrario de uma guerra.

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