Património Cultural Marítimo

O outro NRP ALBACORA

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O NRP ALBACORA, que a maioria dos entusiastas de navios conhece, foi um submarino do tipo DAPHNÉ, construído em França, nos estaleiros Dubigeòn-Normándie, e entregue à Marinha Portuguesa no dia 1 de outubro de 1967.

Sendo o primeiro submarino desta classe de quatro submarinos, deu-lhe o nome: classe ALBACORA.

Durante quase 33 anos, embalou no seu ventre gerações e gerações de submarinistas portugueses, tendo terminado a sua vida ativa em julho de 2000.

O NRP ALBACORA a entrar em Portsmounth, em 1979, durante o exercício Joint Maritime Course (imagem MP)
O NRP ALBACORA a entrar em Portsmounth, em 1979, durante o exercício Joint Maritime Course (imagem MP)

Mas o que muitos desconhecem, é que antes do NRP ALBACORA, navio negro e vigilante das profundezas, houve outro, que, embora também se dedicasse aos fundos marinhos, tinha cor branca, dois mastros e velas.

Fomos encontrar o seu modelo, à escala 1:48, no Museu de Marinha de Lisboa e ficámos curiosos por aprender a sua história.

Construído na Noruega, em 1924, nos estaleiros Lindate & Son, propositadamente para dar apoio à investigação oceanográfica, concretamente nas áreas da oceanografia física e da biologia marinha, o primeiro NRP ALBACORA é considerado o primeiro navio oceanográfico português.

De casco em ferro, deslocava 335 toneladas, tinha 22,5 metros de comprimento (fora a fora) e era propulsionado por um conjunto de semi-dieseis[i] com a potência de 60 cavalos e um só hélice, atingia a velocidade de 5 nós.

Armava em Palhabote, ou seja, com dois mastros e respetivos mastaréus, içando pano latino quadrado em ambos, e tinha uma guarnição constituída por 15 elementos.

O NRP ALBACORA de 1924, frente a Sesimbra. (imagem MGP)
O NRP ALBACORA de 1924, frente a Sesimbra. (imagem MGP)

O biólogo Dr.  Alfredo Magalhães Ramalho, notável cientista, acompanhou a sua construção tratando do respetivo apetrechamento científico, tendo nele vindo, posteriormente, a participar em diversas missões.

O ALBACORA foi entregue à Marinha em finais de 1924 e no ano seguinte prosseguiu os estudos que haviam sido realizados, entre 1896 e 1907, sob o patrocínio do rei D. Carlos I nos iates AMÉLIA. Até 1931 efetuou vários cruzeiros na costa continental portuguesa, arquipélagos da Madeira e das Canárias, Casablanca e Gibraltar, prestando apoio aos estudos nas áreas de oceanografia, biologia marinha e pescas.

Alfredo Magalhães Ramalho a bordo do ALBACORA c. 1930 (imagem Instituto Camões)
Alfredo Magalhães Ramalho a bordo do ALBACORA c. 1930 (imagem Instituto Camões)

Em 1937 foi integrado na Estação de Biologia Marítima passando a dispor de guarnição civil, mas usufruindo dos privilégios, vantagens e isenções idênticos aos navios da Armada, facto que deu à Estação autonomia para desenvolver a sua atividade sem a qual não era possível realizar um estudo contínuo e sistemático no domínio da oceanografia física e biológica.

Em 1940, o ALBACORA foi desarmado e, em 1942, abatido ao Efetivo dos Navios da Armada, continuando, porém, integrado na Estação de Biologia Marítima até 1948, ano em que o Ministério da Marinha procedeu à sua entrega, por doação, à Junta Central das Casas dos Pescadores para ser afetado ao ensino ministrado na sua escola profissional de pesca.

Modelo do NRP ALBACORA em exposição no Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)
Modelo do NRP ALBACORA em exposição no Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)
NRP ALBACORA, pormenor da zona de ré do modelo em exposição no Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)
NRP ALBACORA, pormenor da zona de ré do modelo em exposição no Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)

O ALBACORA contou no seu historial com a realização de 1.400 estações oceanográficas em cruzeiros organizados pelo Dr. Magalhães Ramalho, o que lhe permitiu publicar importante estudos como a “Crise da Pesca da Sardinha”, o “Problema da Sobrepesca” e a “Carta Litológica Submarina da Costa de Portugal”.

Depois de tantos serviços prestados ao país, é importante que a memória deste navio continue a ser preservada.

Fonte: Revista da Armada, nº458, dezembro 2011

[i] Motor de combustão interna de um tipo semelhante ao motor a diesel no uso de óleo pesado como combustível, mas empregando uma pressão de compressão inferior de 100 a 350 libras por polegada quadrada

 

João Gonçalves

Oficial da Armada. Especializou-se em submarinos, onde navegou durante seis anos nos navios da classe ALBACORA. Esteve colocado cerca de sete anos como Capitão do Porto nos Açores. Escreveu para a Revista da Armada e em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador. Está na Revista de Marinha desde 2016 e é diretor-adjunto desde janeiro de 2018.

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante sobre as nossas campanhas oceanográficas, as quais já merecem uma compilação mais sistemática e integradora, com a habitual qualidade das reportagens fotográficas do Comdt. João Gonçalves, e com destaque para a fotografia ao largo de Sesimbra.
    Os parabéns à Revista de Marinha e ao autor.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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