História

O Rei Marinheiro e a Cruz Vermelha

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D. Luiz, de Duque do Porto a Rei de Portugal

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D. Luís I quando ainda era Duque do Porto (foto de monarquiaportuguesa.blog)

O Infante D. Luiz, que viria a ser o futuro Rei Marinheiro, nasceu em 31 de Outubro de 1838, filho segundo de Dona Maria da Glória e de D. Fernando de Saxe-Coburgo (casal régio que deu o nome à ultima fragata à vela da Marinha Portuguesa, a fragata D. FERNANDO II e GLÓRIA). Em 28 de Outubro de 1846, com 8 anos de idade, D. Luiz é integrado na Companhia dos Guarda-Marinhas. Estava no comando da corveta BARTOLOMEU DIAS em 1861, como Capitão de mar-e-guerra, quando, por morte de seu irmão D. Pedro V, aos vinte e cinco anos de idade, subiu ao trono.

De temperamento calmo e conciliador, conhecido como Rei Marinheiro, foi um modelo de monarca constitucional, respeitador escrupuloso das liberdades públicas. Do seu reinado merecem especial destaque o início das obras dos portos de Lisboa e de Leixões, o alargamento da rede de estradas e dos caminhos de ferro, a construção do Palácio de Cristal, no Porto, a abolição da pena de morte para os crimes civis, a abolição da escravatura no Reino de Portugal e a publicação do primeiro Código Civil. Fértil em acontecimentos, é no reinado de D. Luiz que são fundados alguns partidos políticos: o Partido Reformista (1865), o Partido Socialista Português (1875), com o nome de Partido Operário Socialista e o Partido Progressista (1876).

Contudo, porque se completou recentemente o centésimo quinquagésimo aniversário da Fundação da PRIMEIRA CONVENÇÃO INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA (1864), é este o tema do seu Reinado que importa abordar mais em detalhe. Passamos a analisar os excertos principais do texto da referida Convenção:

22 de Agosto de 1864, uma data boa na História da Guerra entre os Homens

Dom Luiz, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves,…faço saber aos que a presente carta de confirmação virem, que aos vinte e dois do mês de agosto do ano findo se concluiu e assinou pelos respectivos Plenipotenciários, na cidade de Genebra, entre Mim e (citam-se as outras partes) uma Convenção a fim de melhorar a sorte dos militares feridos ou doentes durante as campanhas, cujo teor é o seguinte: (segue-se o texto e acrescenta-se): Igualmente animados do desejo de amenizar, tanto quanto deles dependa, os males inseparáveis da guerra, de suprimir os sofrimentos inúteis e de melhorar a sorte dos militares feridos nos campos de batalha, concluíram uma Convenção para este efeito e nomearam por seus Plenipotenciários, a saber: Sua Majestade o Rei de Portugal e dos Algarves, o Cirurgião de Brigada Senhor José António Marques, Cavaleiro da Ordem de Christo (etc.)…  Os quais, após trocas de credenciais devidamente reconhecidas, acordaram entre si os Artigos da Convenção…. Publicado em Genebra, aos vinte e dois dias do mês de Agosto do ano de mil oitocentos e sessenta e quatro (seguem-se os apelidos dos Plenipotenciários). E sendo Me presente a mesma Convenção, cujo teor fica acima inserido, e bem visto considerado e assinado por Mim tudo o que nela se contém (…) Em testemunho e  firmeza do sobredito, Fiz passar a presente carta por Mim assinada , passada com o Selo Grande das Minha Armas…

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José António Marques era Cirurgião de Brigada

Assim, por nomeação do Rei D. Luiz I, o representante plenipotenciário José António Marques representou Portugal, um dos doze países que assinou a I Convenção de Genebra, de 22 de Agosto de 1864, inspirada pelo filantropo Henri Dunant, cidadão suíço natural de Genebra. Regressado a Portugal, este médico organizou, em 11 de Fevereiro de 1865, a “Comissão Portuguesa de Socorros a Feridos e Doentes Militares em Tempo de Guerra”, a primitiva designação da Cruz Vermelha Portuguesa.

É incalculável o Bem que a Cruz Vermelha Portuguesa tem realizado.

Diariamente, esta Instituição procura prestar assistência humanitária e social, em especial aos grupos mais vulneráveis – idosos, dependentes, crianças, vítimas de violência doméstica, pobres, imigrantes, gente sem abrigo, toxicodependentes, reclusos e pessoas com necessidades especiais. Em simultâneo, a Cruz Vermelha Portuguesa desenvolve a sua actividade através da prestação de serviços e do desenvolvimento de áreas como a Saúde, prevenção e preparação para a Emergência, Formação e Empreendedorismo, Ensino Superior da Saúde, Ensino de Socorrismo, Educação para a Saúde, Cooperação Internacional e difusão do Direito Internacional Humanitário.

Presentemente, no âmbito do planeamento do apoio logístico às Forças Navais Internacionais em que participa a nossa Marinha, poder-se-á justificar a inclusão de unidades de apoio sanitário ao abrigo das Convenções de Genebra decorrentes desta Primeira Convenção Internacional, com funções de navio hospital (hospital ship), navio ambulância (ambulance ship) ou evacuações sanitárias em helicópteros dedicados a esse fim, podendo qualquer destes meios integrar militares das Forças Armadas Portuguesas.

cruz vermelha portuguesa, revistade marinha, mar, apoio sanitário, ssistência, hospital, Para a Cruz Vermelha Portuguesa e para todos os que nela colaboraram e colaboram com a mesma disposição de há cento e cinquenta anos, vão os   sinceros parabéns da Revista de Marinha, o reconhecimento do valor da vossa prestação na sociedade e o desejo de que continuem a bem servir com a vossa assistência.

 

(artigo publicado originalmente no nº989, janeiro-fevereiro, 2016)

José Filipe Moreira Braga é médico naval e especialista em medicina do trabalho. Na Marinha embarcou na Fragata MAGALHÃES CORREIA, no Navio Reabastecedor S. GABRIEL e no Navio-Escola SAGRES. É Membro da Confraria Marítima de Portugal e Presidente da Direção do Grupo de Amigos do Museu da Marinha. Atingiu o posto de contra-almirante, encontrado-se na situação de reforma.