Património Cultural Marítimo

O “Titan” de Leixões

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O Titan, como é conhecido o guindaste do molhe norte do porto de Leixões, era um autêntico monstro de ferro, com peso na ordem das 365 toneladas, e com um enorme poder,

Tendo por base o lançamento da primeira pedra do paredão de abrigo do molhe norte, em 23 de Julho de de 1884, é de certa forma admissível considerar, que os guindastes (titãs) utilizados na construção dos molhes, que deram origem ao ante-porto de Leixões, já pudessem ter chegado da oficina francesa, para entrega ao adjucatário da obra, srs. Dauderni, Duparchy & Cª., pela firma construtora, a Fives, de Lille. Estes guindastes, autênticos monstros de ferro, com pesos na ordem das 365 toneladas, tinham como se depreende um grande poder, estando preparados tanto para erguer zorras carregadas de material, como enormes blocos de granito com cerca de 50 toneladas.

Montagem do guindaste aquando da chegada a Leixões (imagem original Emílio Biel, 1884)
Montagem do guindaste aquando da chegada a Leixões (imagem original Emílio Biel, 1884)
O guindaste em operação durante a construção do molhe norte de Leixões, (imagem original Emílio Biel, 1884-1892)
O guindaste em operação durante a construção do molhe norte de Leixões, (imagem original Emílio Biel, 1884-1892)

Terminada a construção dos molhes, coube ao sr. Engenheiro Tomás da Costa, director da 2.ª Circunscrição Hidráulica, tomar posse definitiva para o Estado, na sexta-feira, dia 29 de Março de 1895, por delegação do Governo, do porto de Leixões, terrenos anexos, linha férrea de Leixões às pedreiras de S. Gens, e de todo o material de construção que a empresa construtora do porto tinha obrigação de entregar ao Governo, em virtude da rescisão do contrato ultimamente assinado. O Governo, nessa ocasião, para liquidação final da empreitada, que orçou em 4.489 contos, pagou o restante do valor em dívida no montante de 200.000$000 réis.

Todo esse dinheiro, que o tempo provou ter sido bem gasto, serviu, segundo notícias da época, para construir 1.147,95 metros de molhe do lado sul e 1.579,47 metros do lado norte, mantendo uma distância de 1.100 metros entre os grandes alinhamentos paralelos dos dois paredões e um espaço de 220 metros entre as cabeças dos molhes, avançando o molhe norte 150 metros mais que o do sul, com farolins nas cabeças, simpáticamente oferecidos pelo jornal “Comércio do Porto”.

Foto-postal com o titã preparado para reparar mais um buraco provocado pela violência do mar.
Foto-postal com o titã preparado para reparar mais um buraco provocado pela violência do mar.

Deve ainda ser salientado que, para além da extraordinária importância que os titãs tiveram na construção dos molhes, foram ainda durante muitos anos de extrema utilidade na reparação dos paredões, sempre que a implacável força do mar, durante várias situações de forte temporal, deslocava os blocos de pedra, abrindo buracos de considerável dimensão.

Em 12 de Abril de 2012, a Administração do Porto decididiu recuperar o titã, que é desde sempre um ex-libris da cidade, mas para tanto revelava-se indispensável ser desmontado, para permitir dar continuidade aos trabalhos. Porém, como a operação não correu de modo satisfatório, provocando-lhe a queda, o velho titã ficou completamente desconjuntado, permanecendo guardado peça por peça, na área portuária à espera de melhores dias.

Dias esses que chegaram, no dia 27 de Novembro de 2019, após o anúncio por parte da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo, com a apresentação do projecto “Titan – o Renascer”, que visa dar início a diversos programas educativos e culturais, dinamizados pela empresa. O referido projecto que propõe o restauro do icónico guindaste, está a ser executado pela empresa Macwide, ficando o conjunto do investimento infraestrutural e de programação, orçado em cerca de dois milhões de euros, para possibilitar a visita à infraestrutura, contando, ainda, com um programa que envolve toda a comunidade escolar e artística da região.

As peças desmembradas do Titan, estiveram depositadas num terrapleno do Porto de Leixões. (D.R.)
As peças desmembradas do Titan, estiveram depositadas num terrapleno do Porto de Leixões. (D.R.)
As peças do Titan, já reparadas, a ser montadas (D.R.)
As peças do Titan, já reparadas, a ser montadas (D.R.)

O anúncio do restauro do titã, que julgamos há muito aguardado, é também da opinião do presidente da APDL, engº Nuno Araújo,, que considera ser da maior importância …

devolver à cidade de Matosinhos e a todo o seu litoral aquela que é uma memória paisagística da nossa costa. O valor patrimonial do Titan é inegável e, por isso, será visitável por todos num percurso que se pretende que integre os passeios das famílias, as visitas das escolas e as rotas dos turistas.

Os trabalhos de restauro estavam pensados terminar no Verão de 2020, tarefa que as contingências provocadas pela pandemia lamentavelmente não o permitiram. Porém, porque ultimamente foram levantadas restrições, os trabalhos seguem agora em bom ritmo, pelo que se espera a curto prazo a sua conclusão, concretizando dessa forma uma enorme satisfação geral.

Reinaldo Delgado

Autor do blog "Navios e Navegadores", é um amante do mar e dos navios, que fotografa com regularidade. Investigador sobre história marítima (marinhas de guerra e de comércio), é colaborador da Revista de Marinha há vários anos, escrevendo principalmente sobre temas relacionados com o norte do país. Durante a sua vida profissional exerceu funções na agência Sofrena - Sociedade de Afretamentos e Navegação, Lda. de Matosinhos, hoje integrada no grupo E.T.E. - Navex

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