Ambiente

Operação pioneira para fornecer gás natural a uma ilha

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Gasoduto Virtual de GNL Português

 Operação pioneira para fornecer gás natural a uma ilha

 Um caso de sucesso do Grupo Sousa

 

Em 2014 a Gáslink Gás Natural S.A. (Gáslink), empresa do Grupo Sousa, lançou com sucesso uma operação pioneira e inovadora em Portugal para fornecer Gás Natural Liquefeito (GNL) à Central Térmica da Vitória para produção de eletricidade, na ilha da Madeira. Com mais de 238 milhões de m3 de gás natural consumidos, contribui atualmente com cerca de 25% da matriz elétrica, fruto da experiência e otimização logística alcançadas.

O fornecimento de gás natural é permanente, sendo assegurado com recurso a uma frota de 55 contentores-cisternas intermodais e uma Unidade Autónoma de Gás Natural, localizada junto à foz da ribeira dos Socorridos nas imediações da Central Térmica da Vitória.

Esta operação tornou ainda possível realizar no Porto do Funchal as primeiras 13 operações de abastecimento de GNL a um navio em Portugal, entre novembro de 2017 e abril de 2018, ao navio de cruzeiros AIDA PRIMA.

 

1. Génese do Gasoduto Virtual de GNL

Sedeado na ilha da Madeira, com 1.000 colaboradores e um volume de negócios anual de 170 M€, o Grupo Sousa acumula uma vasta experiência em cinco áreas de negócio: Transportes Marítimos, Operações Portuárias, Logística, Energia e Turismo.

A sua missão centra-se na criação e gestão de cadeias logísticas integradas, proporcionando soluções porta-a-porta maioritariamente com meios próprios, oferecendo aos seus clientes um conjunto alargado de soluções logísticas, cobrindo uma ampla gama de serviços.

O Grupo Sousa opera à escala nacional, com linhas marítimas regulares entre o Continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, mas também no plano internacional, com rotas regulares que se estendem até Algeciras, Canárias, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Através da GS Lines é o maior e único armador português a integrar a lista dos 100 maiores armadores mundiais, publicada pela conceituada Alphaliner.

A Gáslink é uma empresa do universo do Grupo Sousa que tem por atividade providenciar serviços logísticos de GNL porta-a-porta, englobando o transporte, armazenamento e fornecimento de gás natural.

Em 2013, no âmbito de um concurso público internacional lançado pela Empresa de Eletricidade da Madeira (EEM) com vista ao fornecimento de gás natural à Central Térmica da Vitória, localizada no Concelho do Funchal, por um período de 8 anos, o Grupo Sousa, através da empresa Gáslink, respondeu a este desafio, em consórcio com a Galp Gás Natural S.A. (comercializadora da commodity), implementando uma solução competitiva comparativamente à alternativa em estudo, de construir um terminal de GNL e uma infra estrutura portuária dedicados, opção que comportaria elevados custos de investimento e operacionais  e cuja escala excederia de sobremaneira as necessidades, e que foi abandonada.

A solução encontrada, operacionalizada pela Gáslink, designa-se por “gasoduto virtual de GNL” sendo este assegurado através da participação de várias empresas do Grupo Sousa, maioritariamente com recursos próprios, assegurando uma cadeia logística robusta desde o Terminal de GNL em Sines, operado pela REN Atlântico, e a Região Autónoma da Madeira.

A expressão prática do conceito de “gasoduto virtual de GNL” consiste no fluxo contínuo de transporte de GNL em reservatórios especiais (contentores-cisterna) tendo como destino clientes que se encontram a grandes distâncias dos terminais de GNL, podendo esse transporte envolver a utilização de meios rodoviários, marítimos e ferroviários, permitindo que esse combustível seja consumido em locais onde não é viável dispor de um gasoduto físico, seja por limitações geográficas de distância, ou porque as escalas de consumo não justificam o investimento em terminais de GNL e infraestruturas de marítimas dedicadas.

 

Para assegurar o “gasoduto virtual de GNL” com a ilha da Madeira, a Gáslink utiliza contentores-cisterna de 40 pés para o transporte de gás natural no estado líquido, comumente designado por Gás Natural Liquefeito (GNL).

Fabricados pela Chart Inc. na República Checa, estes contentores cumprem os requisitos dos Códigos internacionais IMDG/ADR/RID respeitantes ao transporte de substâncias perigosas por via marítima, rodoviária e ferroviária, respetivamente, bem como, a Convenção CSC relativa ao fabrico e utilização de contentores intermodais.

Os contentores de GNL não dispõem de circuito de refrigeração, sendo o isolamento térmico garantido pela existência de um duplo reservatório com isolamento e vácuo, o que permite conservar o GNL a temperaturas criogénicas (inferiores a -150ºC) e baixa pressão por vários meses, não carecendo de qualquer ligação a fonte de energia exterior.

A primeira etapa da cadeia logística inicia-se com o enchimento dos contentores no Terminal de GNL em Sines, sendo transportados por via terrestre para o terminal marítimo em Lisboa, a fim de embarcarem nos navios de cabotagem regular rumo à Madeira, aproximadamente a 550 milhas náuticas a sudoeste.

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NM FUNCHALENSE 5

Após o desembarque dos contentores de GNL (cheios) no terminal marítimo do Caniçal, estes são transferidos por via terrestre para a Unidade Autónoma de Gás Natural Liquefeito dos Socorridos (UAG-Socorridos) onde o GNL é descarregado e armazenado, sendo depois regaseificado e odorizado, havendo só então um gasoduto físico, com cerca de 400 m de extensão, para distribuição à Central Térmica da Vitória.

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Manutenção em contentor de GNL (Metal Lobos)

Paralelamente, o Grupo Sousa leva a cabo um forte investimento na capacitação dos seus recursos humanos afetos à operação, estendido à manutenção preventiva e corretiva dos contentores de GNL, permitindo maximizar as taxas de utilização dos equipamentos, reduzir custos e, assim, garantir intervenções especializadas e em tempo nestes equipamentos criogénicos com meios próprios.

 

2. UAG-Socorridos

Uma Unidade Autónoma de Gás Natural (UAG) é uma instalação constituída pelo conjunto de reservatórios criogénicos destinados à armazenagem de GNL, pelos equipamentos auxiliares necessários à receção deste combustível, sua regaseificação, regulação e odorização para emissão, incluindo os respetivos acessórios e o equipamento de controlo e de segurança associados, bem como, os respetivos sistemas de alimentação de energia elétrica.

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Unidade Autónoma de Gás Natural-Socorridos

A UAG-Socorridos é, atualmente, a maior instalação deste tipo a operar em Portugal e única nas Regiões Autónomas, dispondo de uma capacidade de armazenagem de 600 m3 de GNL, e um débito máximo de 12.000 Nm3/ hora de gás natural (Condições PTN[1]).

 

A UAG-Socorridos é abrangida pela Diretiva SEVESO (Diretiva 2012/18/UE), transposta para a ordem jurídica nacional através do Decreto-lei n.º 150/2015, de 5 de agosto, que estabelece o regime de prevenção em estabelecimentos com substâncias perigosas, obrigando a Gáslink a dispor de um Sistema de Gestão de Segurança de prevenção de acidentes graves, auditado anualmente por verificadores qualificados pela Agência Portuguesa do Ambiente. A UAG-Socorridos dispõe de um Relatório de Segurança, aprovado pela Direção Regional do Ambiente e Alterações Climáticas da R.A.M. que tem por objeto a identificação sistemática dos riscos e aspetos relacionados com o processamento do GNL, que possam desencadear acidentes ou incidentes com consequências para a saúde humana e para o ambiente, e a definição das necessárias medidas de prevenção, mitigação e proteção.

 

A UAG-Socorridos engloba as seguintes atividades:

  •  Descarga de GNL na UAG-Socorridos

A UAG-Socorridos é abastecida através de contentores que transportam GNL a temperatura criogénica (inferior a -150ºC) e pressão na ordem de 1 bar. As operações de trasfega são conduzidas pelos operadores da UAG-Socorridos em duas estações de descarga, realizadas com recurso a bombas criogénicas (uma em cada estação), ambas dotadas de equipamentos eletricamente seguros contra atmosferas explosivas, com um débito na ordem de 600 litros por minuto. Em alternativa, estas operações podem ser conduzidas por diferencial de pressão, mais morosas.

  •  Armazenagem de GNL

O GNL é armazenado em 3 reservatórios criogénicos cilíndricos horizontais, dispostos em paralelo, de capacidade unitária de 200 m3, constituídos por tanque (reservatório) interior e tanque (de contenção) exterior dotados de isolamento térmico.

  • Regaseificação do GNL

A regaseificação consiste na mudança de estado do GNL (líquido) para o estado gasoso por aquecimento. Para tal, a UAG-Socorridos dispõe de 8 vaporizadores atmosféricos, que, por permuta de calor com o ar atmosférico, aquece e regaseifica o GNL. Existe também um permutador de calor, que, caso necessário, permite retificar a temperatura do gás natural a entregar ao cliente.

  • Regulação da pressão do gás natural

Esta unidade tem por objetivo garantir que a pressão de introdução de gás na rede é constante e dentro dos limites requeridos pelo cliente.

  • Odorização

Composta por um reservatório de Tetrahidrotiofeno (C4H8S) de cerca de 200 litros e respetivos acessórios, tem por finalidade odorizar o gás natural, que não tem cheiro per se.

  • Sala de controlo

Esta unidade tem uma dupla função. Por um lado, através de um autómato de controlo, que assegura de forma automática o funcionamento da UAG-Socorridos. Por outro lado, agregado ao autómato, existe uma unidade de transmissão de dados que assegura a monitorização do seu funcionamento.

 

Relativamente aos dados monitorizados, enviados através de SMS, destacam-se: Pressão, Nível, Temperatura do gás de vaporização, Temperatura de gás de saída, Pressão de ar de instrumentos e deteção de presença/fuga de gás na unidade pelos detetores de gás de monitorização contínua.

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UAG-Socorridos assinala 10.000 operações com zero acidentes

Volvidos mais de 7 anos desde o início desta operação, foram descarregados na UAG-Socorridos mais de 11.000 contentores de GNL, integralmente consumidos pelo sistema electroprodutor regional em substituição do fuelóleo, estimando-se que tenha permitido à ilha da Madeira reduzir, desde 2014, emissões de CO2 em cerca de 276.000 tons, de NOx em cerca de 12.400 tons, de SOx em cerca de 3.050 tons e, por último, de Partículas em cerca de 150 tons.

Impacto ambiental 
Impacto ambiental

 

3. Vantagens do Gás Natural

  • Amigo do ambiente

É o combustível fóssil com menor emissão de gases poluentes e de efeito de estufa permitindo, em alternativa ao fuelóleo, reduções significativas nas emissões de Dióxido de Carbono ou CO2 (-25%), Óxidos de Azoto ou NOx (-95%), Partículas (-97%) e Óxidos de Enxofre ou SOx (-100%).

  •  Abundância

As reservas mundiais conhecidas permitem satisfazer a procura energética global atual e a médio/longo prazo, incluindo por clientes com necessidades energeticamente intensas (ex.: indústria pesada e transporte marítimo), o que, a par da maturidade tecnológica alcançada, faz com que o gás natural tenha um papel relevante na transição energética em curso, à escala global.

  • Segurança e interoperabilidade

Os equipamentos usados nas cadeias logísticas de gás natural garantem segurança e interoperabilidade, obedecendo a exigentes normativos a nível internacional e nacional.

  • Competitividade

O gás natural é uma fonte de energia comercializada a preços e taxas de emissões progressivamente competitivas face ao fuelóleo e outros combustíveis alternativos. Permite uma utilização intensiva dos equipamentos, com elevados níveis de rendimento e menores custos de manutenção, face a outros combustíveis.

  • Abastecimento de regiões insulares

O gás natural pode ser distribuído, de forma segura, a regiões insulares e ultraperiféricas, constituindo os gasodutos virtuais de GNL alternativas competitivas com custos de investimento e operação muito inferiores aos requeridos pelos terminais de receção de GNL.

(Leia A Revista de Marinha entrevista Pedro Amaral Frazão Administrador e Chief Sustainability Officer Grupo Sousa)

[1] Condições PTN: Temperatura=273,15 K; Pressão = 1 bar

1 Comentário

  1. Artur Manuel Pires Responder

    Artigo muito interessante, com uma descrição processual pormenorizada e apelativa, servida por excelentes imagens.
    Os parabéns à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

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