Ambiente

Orcas localizadas ao largo do Porto

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De acordo com informações recebidas de autoridades de Espanha e do Reino Unido, foi comunicado que a partir do mês de Julho deste ano, ocorreram duas dezenas de interacções com mamíferos deste tipo, no corredor marítimo entre o estreito de Gibraltar e a Galiza, provocando danos em embarcações de recreio, que se reportam ao nível do sistema de leme e respectiva propulsão.
Foram igualmente feitos avisos à navegação de recreio, por também ter ocorrido uma interacção com orcas, no dia 4 de Outubro, a cerca de 20 milhas náuticas a oeste da cidade do Porto.
Em resultado da experiência que resulta destas interacções, especialistas biólogos, que justificam a presença destes mamíferos na costa portuguesa e espanhola, devido à migração do atum, que por norma ocorria entre a Primavera e o Verão, aconselham os navegadores de recreio a desligar o motor e não mover o leme, como forma para desmotivar os mamíferos a interagir com as suas embarcações.
A Autoridade Marítima Nacional, que segue com rigorosa preocupação estas interacções, solicita aos navegadores, quando possível, que estes avistamentos sejam registados em video e enviadas para o endereço electrónico: girp@amn.pt
Uma Orca da família residente na costa portuguesa (imagem CIRCE)
Uma Orca da família residente na costa portuguesa (imagem CIRCE)

O incidente com o catamaran Lagoon 450, ao largo do Porto, a 4 de Outubro

Sobre este mesmo assunto James Percy editou e produziu um video, nos primeiros dias deste mês de Novembro, para a empresa Halcyon Yachts, com texto de Victoria Gill, onde se verifica ter havido pelo menos 40 interacções com orcas. Desse video recuperamos o testemunho do navegador David Smith, cujo relato não deixa ninguém indiferente, muito pelo fascínio do encontro e pela forma como sentiram a abordagem daqueles mamíferos marinhos:

Nunca me assusto facilmente, mas isto foi aterrador», ao recordar um final de tarde em Outubro, quando da sua embarcação viram aparecer animais que inicialmente confundiram com golfinhos. Rapidamente notaram que esses animais eram bem maiores que golfinhos, revelando comportamentos muito estranhos. Olhei para o animal, e vi ser muito preto, com manchas brancas brilhantes».

Um catamaran Lagoon 450 (imagem cata-lagoon.com)
Um catamaran Lagoon 450 (imagem cata-lagoon.com)

Pelo menos durante duas horas, um grupo de baleias nadou sob o casco do iate, que tinha apenas 13,70 metros de comprimento, quando navegava ao largo da costa portuguesa. E aquilo não parava»,

disse.

Penso que eram 6 ou 7 animais, deixando entender que os jovens, os menores, eram muito activos. Parecia que se atiravam contra o leme, provocando forte tremideira na roda do leme, cada vez que nos apercebíamos de novo impacto».

O emprego desenvolvido por David, desde que teve de abandonar uma «regata em 2013», é proceder à entrega de embarcações novas aos seus proprietários, e deixá-los atracados, onde mais lhes convém. Nesta ocasião, integrava uma equipa que procedia à entrega dum catamaran, desde França em viagem para Gibraltar.

David Smith é um experiente skipper profissional britânico. Desde criança que faz vela, e em 2009 deixou a vida empresarial para se dedicar a entregar iates à vela por todo o Mundo (imagem canal Youtube de David Smith)
David Smith é um experiente skipper profissional. Desde criança que faz vela, e em 2009 deixou a vida empresarial para se dedicar a entregar iates à vela por todo o Mundo (imagem canal Youtube de David Smith)

Neste seu relato acrescentou ainda, que ao faltar uma hora para o pôr do sol, um dos seus tripulantes comunicava: «Parece que temos a companhia de grandes golfinhos», lembra David. O único encontro que tinha tido com orcas, aconteceu há cerca de 20 anos antes num aquário de Vancouver, daí tê-las reconhecido sem margem para dúvida.

Estavam todas à volta da ré do iate»,

explicou.

Um natural sentido de curiosidade e excitação depressa se transformaram em pânico, quando uma delas desapareceu por baixo do barco, sentindo-se a bordo uma estridente pancada no casco. O iate encontrava-se a navegar a 20 milhas náuticas, em frente da cidade do Porto, o que equivale dizer estar a cerca de três horas da costa portuguesa. Com o VHF sem alcance para contactos com terra, recorreram ao telefone via satélite para comunicar com as autoridades locais, sendo-lhes participado que deviam desligar o motor da embarcação, e baixar o velame. Mais, demonstrem sinais de desinteresse pela presença dos animais, foi-lhes aconselhado.

Assim fizemos, mantendo a embarcação à deriva. Mas mesmo assim, quando falava ao telefone para terra, notava-se o ruído das orcas a dar pancadas contra o casco. Pior, uma das orcas maiores saltou para bater contra a popa do iate, deixando visível o branco brilhante do seu dorso».

Uma orca mergulha junto ao leme do veleiro de David Smith (imagem do canal Youtube de Halcyon Yachts)
Uma orca mergulha junto ao leme do veleiro de David Smith (imagem do canal Youtube de Halcyon Yachts)

As pancadas no barco que se seguiram, algo descoordenadas, não causaram medo ao navegador. Mas, por sentirem que o hélice abanava, tanto para trás como para a frente, pensou que os animais pudessem danificar o leme ou o veio do sistema propulsor, pelo que «na eventualidade de vir a acontecer uma avaria irreparável, ou fractura no casco, teriam de enfrentar grandes dificuldades. Não é por acaso que estive muito perto de pedir às autoridades portuguesas, para mandar um helicóptero, que nos pudesse resgatar de bordo do iate».

O veleiro ENDLESS e a semirigida FRONTEIRA da Policia Marítima, protagonistas do incidente do dia 14 de Novembro (D.R)
O veleiro ENDLESS e a semirigida FRONTEIRA da Policia Marítima, protagonistas do incidente do dia 14 de Novembro (D.R)

O episódio de 14 de Novembro ao largo de Sines

De volta ao país, já no dia 14 de Novembro p.p., o Comando da Polícia Marítima de Sines, foi chamado para intervir no auxílio a um veleiro francês, com três tripulantes a bordo, por se encontrar à deriva, a cerca de 30 milhas náuticas da costa, após interacção com um grupo de orcas, por se encontrar com o leme severamente danificado.

O pedido de assistência foi recebido no Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Lisboa (MRCC Lisboa), pelas 4 horas e meia da madrugada, que logo fez deslocar ao encontro da embarcação uma lancha com agentes da Polícia Marítima. Chegados ao local, os elementos da Polícia Marítima confirmaram que o leme estava partido, estando o veleiro sem capacidade de governo, tendo procedido ao reboque da embarcação para o porto de Sines por questões de segurança. O veleiro atracou em segurança no porto de Sines pelas 14 e 15 horas, não tendo sido necessário prestar assistência aos tripulantes do veleiro.

Anatomia interna duma Orca (imagem Wikimedia)
Anatomia interna duma Orca (imagem Wikimedia)

Biólogos marinhos juntam-se na procura de soluções para compreender as interações

Segundo o website da BBC-News que publicou recentemente uma excelente reportagem sobre o assunto, este comportamento das orcas está a suscitar a curiosidade do meio científico, no sentido de se tentar compreender a razão que o originou. Desde Setembro que os filmes e as fotografias feitos pelos tripulantes das embarcações têm sido comparados com uma base de dados de imagens do CIRCE (CIRCE, (Conservación, Información y Estudio sobre Cetáceos), uma instituição sediada perto de Algericas, Espanha. Esta comparação permitiu aos biólogos identificarem os indivíduos protagonistas das interações, que neste momento somam mais de 20 casos nos últimos seis meses.

Área de migração das orcas residentes na costa atlântica da Península Ibérica
Área de migração das orcas residentes na costa atlântica da Península Ibérica

Um desses biólogos é a atual diretora do Museu da Baleia da Madeira, situado no Machico. Ruth Esteban foi a primeira cientista a estudar a pouco conhecida comunidade residente na costa atlântica da Península Ibérica, sendo por isso uma reconhecida especialista nestes animais. Esta comunidade de Orcas, muito prejudicada nos tempos da pesca intensiva do Atum Rabilho, chegou a ser reduzida a apenas 41 indivíduos, tendo vindo a recuperar, atingindo no presente cerca de 60.

Ruth Esteban, durante os seus trabalhos no mar, com o tema do seu doutoramento, uma orca (Orcinus orca) na costa de Portugal (imagem CIRCE)
Ruth Esteban, durante os seus trabalhos no mar, com o tema do seu doutoramento, uma orca (Orcinus orca) na costa de Portugal (imagem CIRCE)

Ruth Esteban salienta que é uma comunidade em vias de extinção e por isso é muito importante moderar a linguagem e ter cuidado na forma como se comunica sobre este assunto. A linguagem utilizada na comunicação social no princípio destes acontecimentos era emotiva, utilizando a perspetiva humana em relação ao que se estava a passar, passando uma imagem desviante sobre o comportamento dos animais, que pode despertar medo nas comunidades ribeirinhas, que passam a ver as Orcas como inimigo e a adotar comportamentos que podem pôr em risco a sobrevivência destes mamíferos marinhos.

Segundo Ruth, tudo indica ser um comportamento circunscrito a um trio de jovens machos, ficando o resto da família ao largo sem interagir com as embarcações.

Orcas da família residente na costa portuguesa (imagem CIRCE)
Orcas da família residente na costa portuguesa (imagem CIRCE)

Os cientistas que estão a estudar estas alterações de comportamento dos animais, optaram por baptiza-las com o nome Gladis, porém, para melhor facilitar a identificação, uma é a Gladis Preta, outra é a Gladis Branca e a última é a Gladis Cinzenta. Estes jovens interagem com as embarcações, numa espécie de jogo, mas tratando-se de animais entre as 4 e as 5 toneladas, é um jogo extremamente perigoso para as embarcações.  Permanece  em estudo, o motivo que explique estas interacções, pelo seu quê de novidade, porque é bem conhecida a presença das orcas no corredor entre Gibraltar e a Galiza, em sucessivas observações feitas ao longo dos anos.

Reinaldo Delgado

Autor do blog "Navios e Navegadores", é um amante do mar e dos navios, que fotografa com regularidade. Investigador sobre história marítima (marinhas de guerra e de comércio), é colaborador da Revista de Marinha há vários anos, escrevendo principalmente sobre temas relacionados com o norte do país. Durante a sua vida profissional exerceu funções na agência Sofrena - Sociedade de Afretamentos e Navegação, Lda. de Matosinhos, hoje integrada no grupo E.T.E. - Navex

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