Crónicas

Os dioramas do Orlogsmuseet – A batalha de canhoneiras de Dragør

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Quando uma fatalidade dita que uma Marinha se improvise…

Para compensar as perdas do confisco britânico e da destruição de grande parte da frota dinamarquesa durante o assalto a Copenhague de 1807, o governo Dano-Norueguês decidiu construir canhoneiras em grande número. As canhoneiras foram projetadas originalmente por um sueco, Fredrik Henrik af Chapman, com a vantagem estratégica de poderem ser produzidas de forma rápida e barata em todo o reino. Por serem muito manobráveis, especialmente em águas restritas e fundos baixos, e apresentarem-se como alvos menores (o stealth do século XIX), as novas embarcações tinham inegáveis vantagens táticas. Em oposição, eram muito frágeis e vulneráveis ​​perante a artilharia e provavelmente afundariam com um único tiro. De igual modo não podiam ser empregues ​​em mares agitados, sendo menos eficazes contra grandes navios de guerra. Ainda assim, foram produzidas mais de 200 canhoneiras de dois modelos: uma canhoneira guarnecida por 76 homens, com dois canhões entre as 18 e as 24 libras, um na proa e outro na popa, e outra menor, que tinha uma guarnição total de 24 homens, armados com uma única peça de 24 libras.

Esta alteração forçada da composição da Marinha Dinamarquesa, originou aquela que é conhecida pela Gunboat War ou Guerra das Canhoneiras, que durou entre 1807 e 1814, tendo terminado com a assinatura do tratado de Kiel, a 15 de janeiro de 1914, que incluiu importantes cedências dos dinamarqueses aos ingleses.

O comboio de Karlskrona…

No dia 15 de outubro de 1808, a fragata britânica HMS AFRICA, sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra John Barrett, deixou Karlskrona na Suécia escoltando um comboio de 137 navios mercantes a caminho do estreito de Øresund, a única saída do Báltico na sua rota para a Grã-Bretanha. Integravam esta frota a lancha bombardeira HMS THUNDER e dois brigues armados. Na manhã do dia 20, devido ao pouco vento, decidiram fundear no estreito, ao largo de Malmö.

Ao meio dia, uma flotilha de canhoneiras dinamarquesas foi avistada a navegar em direção ao comboio e a AFRICA levantou ferro e largou a todo o pano para as intercetar. A flotilha consistia de 25 canhoneiras e sete lanchas armadas, somando cerca de 70 canhões e um total de cerca de 1600 homens, sob o comando do comodoro dinamarquês J.C. Krieger.

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Kanonbåde (a guerra das canhoneiras), 1808.

A batalha durou enquanto foi dia

Às 13h30, o vento caiu e a fragata britânica ficou imobilizada. Às 14h50, as canhoneiras alinharam-se nos quadrantes da proa e da popa da AFRICA, de onde poucas armas poderiam disparar, e abriram fogo. A batalha durou até as 18h45, quando a noite fechou e não foi mais possível fazer pontaria.  Se a luz do dia durasse mais uma hora, os dinamarqueses provavelmente teriam capturado a AFRICA. Várias canhoneiras foram atingidas, resultando em 25 mortos e 34 feridos. A bordo do navio inglês registaram-se 10 mortos e 42 feridos, incluindo o comandante, mas os estragos foram tão avultados que a fragata foi obrigada a deixar o comboio e regressar a Karlskrona para ser reparada. O comboio, no entanto, conseguiu chegar à Grã-Bretanha.

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Armas e pavilhão da Marinha Real Dinamarquesa

Esta batalha está imortalizada num impressionante diorama à escala 1:250, construído pelo Clube de Modelistas do Orlogsmuseet, Real Museu Naval de Copenhaga, recentemente extinto. Presentemente, encontra-se em exposição no Museu do Real Arsenal, Tøjhusmuseet, em Copenhaga.

Oficial da Marinha de Guerra. Especializou-se em submarinos, onde navegou cerca de seis anos. Foi representante nacional na NATO para Electronic Warfare e Psychologic Operations. Esteve colocado cerca de sete anos nos Açores onde foi Autoridade Marítima local. Em 1997 ganhou o prémio de melhor colaborador da Revista da Armada.