História

Os príncipes educam-se à sombra das palmeiras

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Transformei-me numa pessoa inteligente quando fui para o Brasil

Disse Fernand Braudel, em outubro de 1985, no Colóquio de Chateuavallon.

Membro da Academie, e do Collège de France, colaborador proeminentíssimo de l´Ecole des Annales, autor entre outras obras referenciais da cultura universal, de O Mediterrâneo e o Mundo na Época de Filipe II, que muitos consideram o melhor livro de história que até hoje se escreveu, Braudel esteve no Brasil entre 1935 e 1937, mais precisamente em S. Paulo, na USP, a lecionar História da Civilização.

Fernand Braudel quando esteve no Brasil, entre 1935 e 1937 (imagem Edusp via História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Fundação Oswaldo Cruz www.revistahcsm.coc.fiocruz.br)
Fernand Braudel quando esteve no Brasil, entre 1935 e 1937 (imagem Edusp via História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Fundação Oswaldo Cruz www.revistahcsm.coc.fiocruz.br)

Integrava na altura aquela que ficou conhecida como a Missão Universitária Francesa, que naqueles anos reuniu um conjunto notável de intelectuais, ainda bastante jovens, como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o fundador do estruturalismo, e que registou o seu amor pela terra, num livro intitulado Saudades do Brasil, Pierre Deffontains, geógrafo, Roger Bastide, sociólogo, e claro Fernand Braudel, historiador, mas já suficientemente promissores, e que poucos anos mais tarde constituiriam o que de melhor existiu na cultura humanística na Europa à época, sobretudo francófona, e tantos outros, que começavam a ficar incomodados com o clima da guerra que se aproximava, e foram para o Brasil, lançar as fundações da Universidade de S. Paulo, uma referência cultural entre as suas outras ilustres congéneres.

Quase dois séculos antes, aquela mesma afirmação podia ter sido perfeitamente atribuída a D. Pedro, primeiro do Brasil e quarto de Portugal.

E se acabou por não ser aquela, foi outra que denota uma vontade expressa e voluntária de aprendizado, como quando confessou ao Visconde de Barbacena.

Eu e o mano Miguel havemos de ser os últimos malcriados da família

Mas o mano Miguel acabou por não cumprir aquele desígnio, e o mano Pedro, nunca deixou de ficar irritado por isso, sobretudo quando, conforme registou Macaulay, aquele assinava as suas cartas como Migel.

D. Miguel e D. Pedro, "os últimos malcriados da família"
D. Miguel e D. Pedro, “os últimos malcriados da família”

D. Pedro chegou muito jovem ao Brasil, no estado cultural lastimável que era na altura típico dos Braganças, e custa a acreditar que uma pessoa que fundou o Brasil independente, foi o seu primeiro imperador, foi rei de Portugal, e que quando morreu antes de completar trinta e cinco anos, deixou um filho no trono brasileiro e uma filha no trono português, ainda tenha tido o entendimento necessário para deixar à sua descendência de príncipes uma educação primorosa, que surpreendeu e maravilhou todos os que beneficiaram da orientação destes príncipes.

E tudo começou à sombra das palmeiras imortais do Rio de Janeiro, na educação do último ramo da última dinastia portuguesa, a de Bragança, os Braganças tropicais, ou como gosto de os entender, os cariocas.

Esta educação está intimamente relacionada com a própria formação liberal de D. Pedro, e como consequência dos seus descendentes, e como principal consequência ainda, com a política portuguesa nos cem anos que vão de 1826, e os reinados de D. Pedro IV e da sua filha D. Maria II, a 1926, e o Estado Novo, clerical, corporativo e anti-liberal.

Aquele liberalismo, contudo, era mais político e legislativo, do que cultural ou económico.

E permanece por saber, sobretudo, se o povo português se sentia confortável naquele formato.

Desterrado para lá do Equador, rodeado da Mata Atlântica, e sob o céu do Cruzeiro do Sul, Pedro de Orleães e Bragança, arranjou maneira de que chegassem até ele as obras de Benjamin Constant, Filangieri, Rousseau, Burke, Adam Smith, Puffendorf, Grotius, Raynal, Mably, e tantos outros, as quais leu, comentou, assimilou, e incorporou aos seus programas de governação.

D. Maria, a carioca, c. 1825, com 5 anos, retratada por Jean-Baptiste Debret (colecção particular de Vasco da Câmara Pereira) e em 1829, com 10 anos, pintada por Thomas Lawrence (Royal Collection)
D. Maria, a carioca, c. 1825, com 5 anos, retratada por Jean-Baptiste Debret (colecção particular de Vasco da Câmara Pereira) e em 1829, com 10 anos, pintada por Thomas Lawrence (Royal Collection)

No meio da sua atribulada vida pública e privada, arranjou sempre tempo para acompanhar diretamente a educação dos filhos, legítimos ou não, e sobretudo daqueles que vieram a reinar.

Uma parte substancial da programação cultural da formação dos príncipes, foi simultaneamente causa e efeito do liberalismo, e traduziu a sua forma de exercício do poder por excelência, que foram as monarquias constitucionais, quando não, as repúblicas, nomeadamente as mais aristocráticas do que democráticas.

Os decisores políticos tiveram que começar a dividir e articular a condução dos negócios do Estado, com agentes saídos das universidades, e até das escolas politécnicas, e que tinham chegado aos conselhos de ministros precisamente pela via da formação superior, ao invés de, como acontecia até aí, por privilégios inerentes à nobreza antiga e hereditária.

Os reis constitucionais para entenderem as leis e os relatórios (nem que fossem apenas os dos negócios estrangeiros, que alertavam para chegada das ideias lá de fora, como o anarquismo, o niilismo, o comunismo, etc.)  precisavam daquela gramática.

É notável que Pedro de Alcântara, longe dos centros culturais e políticos europeus como Londres, Berlin, Paris ou Viena, tivesse tido esta visão tão atempadamente, e se tivesse preparado para conviver e governar com os seus processos, e ainda de os incutir na educação dos filhos, porque seria daquela forma o futuro.

Quando já separado do filho imperador, D. Pedro não se cansa de o incitar aos estudos.

Sim, meu amado filho, é mui necessário, para que possas fazer a felicidade do Brasil tua Pátria de nascimento e minha de adoção, que tu te faças digno da Nação sobre que imperas, pelos teus conhecimentos, maneiras etc., etc., pois, meu adorado filho, o tempo em que se respeitavam os Príncipes por serem Príncipes unicamente acabou-se; no século em que estamos em que os Povos se acham assaz instruídos dos seus direitos é mister que os Príncipes igualmente o estejam e conheçam que são homens e não divindades…

D. Pedro II, autor desconhecido c. 1845 (Coleção Brasiliana Iconográfica)
D. Pedro II, autor desconhecido c. 1845 (Coleção Brasiliana Iconográfica)

Esta edução esmerada, misto de cultura e liberalismo, foi transmitida desde o Brasil a toda a sua descendência, a monarquia constitucional portuguesa, até D. Carlos, o último dos cariocas.

Seria também firmemente impulsionada por D. Fernando, marido de D. Maria II, Príncipe Consorte, e por breves momentos monarca, nos períodos de sucessão da rainha, e depois do seu filho D. Pedro V, e que era possuidor de um espirito educado, talvez mesmo requintado, característico das casas nobres dos reinos do Reno e do Danúbio, aquele típico território da Renânia, e da Europa central, que eram preparados, fruto da conjuntura politica, não para reinar, mas para abrilhantar pelo casamento com os verdadeiros monarcas, as cortes e salões onde de facto se exercia o poder.

D. Fernando e D. Maria II, foram ao que tudo indica sinceramente felizes, uma felicidade assente no destino de mãe por parte da monarca, e na educação dos filhos.

Por mais que possa chocar algumas sensibilidades atuais, na literatura existente sobre o assunto não são escassos os registos da Augusta Mãe e Monarca, a aplicar um par de estalos aos filhos e futuros reis, por faltas de respeito com terceiros, sobretudo se estes eram de condição humilde.

Nos apontamentos do casal sobre pedagogia, podem encontrar-se passagens onde se menciona

a urgente necessidade e conveniência de recuperar pelas virtudes, pelas luzes e pelo mérito pessoal o respeito tradicional perdido.”

A família real Portuguesa c. 1858, da esquerda para a direita: Raina D. Estefânia, Rei D. Pedro V, D. Luís (então Duque do Porto), Infanta D. Antónia, Rei emérito D. Fernando II, Infanta D. Maria Ana, infantes D. Fernando, D. Augusto e D. João. (monarquiaportuguesa.blogs.sapo.pt)
A família real Portuguesa c. 1858, da esquerda para a direita: Raina D. Estefânia, Rei D. Pedro V, D. Luís (então Duque do Porto), Infanta D. Antónia, Rei emérito D. Fernando II, Infanta D. Maria Ana, infantes D. Fernando, D. Augusto e D. João. (monarquiaportuguesa.blogs.sapo.pt)

D. Fernando inclusivamente, estendia o conceito de cultura até às ciências, coisa rara em Portugal, e inclusivamente para lá desta, coisa raríssima, para a tecnologia.

No Natal de 1850, a prenda do futuro D. Pedro V, então com treze anos, foi um torno e uma caixa de instrumentos, comprados numa exposição organizada pela Sociedade Promotora da Indústria Nacional.

A monarquia portuguesa seria recompensada por esta educação e cultura dos príncipes, e o país usufruiria das suas consequências.

Excursionando pela Europa nas clássicas viagens de aprendizado, os infantes raramente regressavam surpreendidos com o conhecimento dos primos, próximos ou afastados, e numa delas o grande Humboldt, reconheceu que os rapazinhos portugueses, Pedro e Luís, efetivamente “sabiam muito”, conforme se pode ler na correspondência da época.

E apesar disto, não muito tempo depois, em Abril de 1859, Pedro iria referir-se àquilo que ele considerava a deficiente educação do mano Luís, e explicitava que

A natureza não foi avara com ele, mas ao lado do despertar da sua capacidade mental, houve o efeito amolecedor da sua indolência, poucas vezes igualada…”

e dotado para além disso,

de uma educação literária miseravelmente inadequada…”

Mas nada disto impediu que António Cândido, em julho de 1890, no discurso fúnebre daquele mesmo Luís, proferido na Academia das Ciências, tivesse referido que ele tinha sido “talvez, o monarca mais instruído da Europa” e depois de o destino ter intervindo como agente político, e D.Luís I, em 1861 ter substituído D.Pedro V, morto prematuramente aos vinte e quatro anos.

Este pequeno apontamento permite percecionar o nível de exigência de instrução e cultura dos infantes.

A família real britânica em 1857, da esquerda para a direita: Alice, Arthur (mais tarde Duque de Connaught), O Príncipe Consorte (Albert), O Príncipe de Gales (mais tarde Eduardo VII), Leopold (mais tarde Duque de Albany, na frente do Príncipe de Gales), Louise, Rainha Victoria com Beatrice, Alfred (mais tarde Duque de Edimburgo), a Princesa Real (Victoria) e Helena (Caldesi and Montecchi, The Royal Collection)
A família real britânica em 1857, da esquerda para a direita: Alice, Arthur (mais tarde Duque de Connaught), O Príncipe Consorte (Albert), O Príncipe de Gales (mais tarde Eduardo VII), Leopold (mais tarde Duque de Albany, na frente do Príncipe de Gales), Louise, Rainha Victoria com Beatrice, Alfred (mais tarde Duque de Edimburgo), a Princesa Real (Victoria) e Helena (Caldesi and Montecchi, The Royal Collection)

O casal real correspondia-se de forma intensa com os seus primos reinantes nos principais impérios europeus e ultramarinos.

E as cartas, quando não transportam as inquietações políticas, transportam cenas da intimidade doméstica, e de entre estas, as diferenças pedagógicas da educação.

Numa carta de Março de 1847, uma prima direita de D. Maria, confessava entre entusiasmada com os primos portugueses, e dececionada com a sua prole:

Temo que eles estejam bem mais desenvolvidos que os nossos filhos.”

A prima direita era a Rainha Vitória, e um daqueles filhos, seria o futuro Eduardo VII.

Artur Manuel Pires

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.

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