Política e Estratégia Marítimas

Portugal e o Mar

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Metade da fronteira portuguesa é marítima, num contexto em que o Mar ocupa cerca de 71% da superfície da Terra.

Muito antes de sermos país, fomos portos. O nome que depois tivemos também foi o de um porto: Portus Cale.

Como escreveu Camões foi na praia, na «ocidental praia lusitana» que se fez o país, com o privilégio de ter uma varanda atlântica. Fernando Pessoa na Mensagem escreveu “ó Mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal “.

Com o sentido coletivo que o Romantismo deu à palavra, o Mar fez-nos Nação.

Do Mar chegou-nos a metade materna da segunda dinastia da monarquia, foi por Mar que a expansão nos garantiu casamentos com princesas castelhanas, foi por Mar que Portugal se expandiu para muito longe, foi por Mar que a Restauração se sustentou, pois dificilmente o conseguiria sem o Brasil, foi por Mar que Portugal sobreviveu a Napoleão, na transferência da corte para o Rio em 1808, foi por Mar que o liberalismo desembarcou definitivamente em 1832, para embarcar de novo na segunda metade de oitocentos na ocupação africana que perdurou até 1975.

O Mar não nos deixa indiferentes à sua grandeza, mistérios e simbolismos. Sempre foi um espaço lendário, associado a numerosos mitos e lendas.

Descobrimentos

Nascemos a ver, ouvir e sentir o Mar. Desde os alvores da nacionalidade, e terminada a conquista do solo português, o Mar era o nosso grande chamamento, a nossa vocação. Por isso desbravámos o lendário Mar tenebroso, tornámo-lo no nosso Mar, alterando o rumo da nossa História e transformando a face do mundo até então conhecido.

Consolidada a conquista da terra pátria, a nação portuguesa via no Mar a sua porta natural – Onde a terra acaba e o Mar começa. Portugal lançou-se na maior aventura coletiva da sua História: a descoberta de novas terras.

Devidamente preparados, encetámos a grande e sonhada aventura dos Descobrimentos, cometimento grande de todo um povo.

Modelo em corte da famosa nau MADRE DE DEUS, mostrando a arte da construção naval portuguesa do século XVII, Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves, Museu de Marinha de Lisboa, Portugal)
Modelo em corte da famosa nau MADRE DE DEUS, mostrando a arte da construção naval portuguesa do século XVII, Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves, Museu de Marinha de Lisboa)

Cultura e saber científico

A literatura e a cultura portuguesas estão salpicadas de Mar, cheiram a maresia.

Desde sempre o Mar foi a nossa paisagem quotidiana, impregnando profundamente as tradições, a literatura, a arte e a gastronomia portuguesas.

A riquíssima literatura de viagens do período dos Descobrimentos constitui um valioso tesouro, de elevadíssimo interesse humano, literário e etnográfico-cultural. Ela representa o espanto do Homem perante o Mundo descoberto.

O saber de experiência feito dos navegadores portugueses foi proporcionado por repetidas viagens, novas rotas, explorações terrestres, relação com outros povos e outras terras, outras línguas e outras religiões, outros climas e outras culturas.

Originando uma enorme massa de conhecimento, as Descobertas alargaram decisivamente os horizontes do saber científico e humanístico do seu tempo.

Camões celebra, em verso heroico e eloquente, a descoberta do caminho marítimo para a Índia como o clímax da História de Portugal e um dos feitos mais altos da Humanidade, justamente nos Lusíadas, exaltação máxima da nossa gesta dos Descobrimentos. Ergue-se como a nossa grande epopeia nacional e o símbolo maior do esplendor que Portugal alcançou na cultura europeia.

O progresso do conhecimento científico e o florescimento cultural dos séculos XV e XVI receberam o inestimável contributo dos Descobrimentos portugueses e da prosperidade económica então vivida.

Milagre de S. Francisco Xavier na nau SANTA CRUZ nos mares da China, quando mergulhando os pés na água a transformou de salgada em doce, e assim, salvou os tripulantes de morrerem à sede. Óleo sobre madeira, anónimo, séc.XVII, Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)
Milagre de S. Francisco Xavier na nau SANTA CRUZ nos mares da China, quando mergulhando os pés na água a transformou de salgada em doce, e assim, salvou os tripulantes de morrerem à sede. Óleo sobre madeira, anónimo, séc.XVII, Museu de Marinha de Lisboa (imagem João Gonçalves)

Difusão da Fé Cristã

A difusão da fé cristã acompanhou sempre as viagens dos portugueses. Nas velas brancas desfraldadas ao vento, as embarcações que saíam da barra do Tejo ostentavam a Cruz de Cristo desenhada a vermelho vivo.

Tão importante como a nossa privilegiada situação geográfica, a ânsia de conhecimento, ou a vocação marítima e comercial, o nosso ancestral zelo de expansão da fé cristã constituiu um dos grandes fatores impulsionadores dos Descobrimentos.

Os Descobrimentos constituíam a ocasião privilegiada de concretizar o apelo evangélico de levar a mensagem cristã a todos os povos.

Ativos missionários foram os grandes protagonistas da expansão da fé pelos novos mundos. Embarcavam nas naus ou galeões que largavam da praia do Restelo. Pertenciam a várias ordens religiosas. Nas longas viagens, representavam o alento espiritual, presidindo aos atos de culto quotidiano. Como eram das poucas pessoas cultas, elaboraram algumas das mais notáveis descrições da vida a bordo, bem como dos contactos estabelecidos com outros povos.

Quando se descobria uma nova terra, assinalava-se a posse com um padrão duplamente simbólico, ostentando, ao alto, a Cruz de Cristo e as quinas da coroa portuguesa.

Além de se ter divulgado como língua comercial, o português era o idioma da cristianização de tantas gentes, de tão remotos e desconhecidos lugares.

Pela boca e ação dos missionários, difundimos a fé, expandimos a nossa cultura, divulgámos a língua portuguesa. Ficámos ainda a dever-lhes a execução de um trabalho intelectual de valor incalculável: obras históricas, gramáticas e dicionários das línguas autóctones, tratados científicos, descrição dos hábitos e dos costumes em preciosos trabalhos etnográficos, e até a decisiva influência ao nível da criação cultural e artística.

Atuneiros varados no porto da Madalena, ilha do Pico, Maior 2021 (imagem João Gonçalves)
Atuneiros varados no porto da Madalena, ilha do Pico, Maior 2021 (imagem João Gonçalves)

Regresso ao “cais” de partida

Cumprida a vocação expansionista, feito e desfeito o império ultramarino, foi hora do regresso às areias de Portugal e ao cais da partida.

Retornados ao chão europeu, que fazer do Mar, ou que deixaremos o Mar fazer de nós?

Portugal está de novo confinado à sua dimensão terrestre. Seguramente que nos ficou um saudável sentimento de autoestima, perante o nosso passado histórico.

O Mar faz parte do nosso devir histórico, está-nos no sangue. É um dos traços da nossa idiossincrasia como povo de vocação marítima. Ainda assim, Portugal, nas últimas décadas, esqueceu ou menosprezou essa relação. Por isso, hoje, mais do que nunca, o Mar, a sua economia (chamada de azul), os seus recursos sustentáveis, deverão ter um papel cada vez mais relevante.

Portugal tem de ver no Mar e nas relações transatlânticas, o outro lado do nosso pêndulo europeu, e, ver no Mar, não apenas o nosso passado, mas, sobretudo, o nosso futuro. Muito há ainda a fazer quer através dos nossos próprios recursos e vontades quer em articulação com as políticas para o Mar da União Europeia.

Rebentação na baía da Praia do Norte, Faial (imagem João Gonçalves)
Rebentação na baía da Praia do Norte, Faial (imagem João Gonçalves)

Assim deve e pode ser porque os avanços tecnológicos permitem agora realizar operações no alto Mar a profundidades cada vez maiores, os cidadãos estão cada vez mais conscientes de que os recursos da Terra são finitos, nomeadamente a água, e que é imprescindível reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, o que tem levado à implantação de instalações de produção de energia renovável junto à costa oceânica, o que favoreceu a poupança de energia e a utilização do transporte marítimo em detrimento do terrestre.

Em suma, é inquestionável a aposta na Economia do Mar que assume em Portugal uma dimensão muito reduzida, cerca de 2,5% do PIB, enquanto alavanca de crescimento e desenvolvimento, na circunstância de sermos não só a maior zona económica exclusiva da Europa, 11ª no mundo, a que acresce a potencial extensão da Plataforma Continental que permitirá ficarmos entre os primeiros países oceânicos.

António Bossa Dionísio

Contra-Almirante. Presidente da Direção da Confraria Marítima - Liga Naval Portuguesa. Como oficial-general da Armada foi Diretor da Comissão Cultural de Marinha e Diretor do Museu de Marinha. Exerceu igualmente vários cargos no mar, embarcado em fragatas e corvetas.

11 Comentários

  1. Schieder Da Silva Responder

    Aquando da minha visita ao Museu Da Marinha em Lisboa,que acho algo de muito fantästico,que mostra o esplendor da nossa Marinha no passado,vi um motor de um aviao da M.A.N. =
    München,Augsburg,Nürnberg è isto que quer dizer MAN sao tres cidades de Bayern,passo lä muitas vezes para ir para o lago local,Karlsfeldersee,aqui hä muitos lagos,porque tiram a areia e godo da terra e ao fim de alguns anos fica lä uma superfìcie enorme de alguns km2 e com a neve e a chuva torna-se em lago e praìa para os visitantes,portanto,as praias aqui sao feitas dos lagos onde lhes foram retiradas as areias,mais uma vez se ve a imaginaçqo a funcionar na falta de prais,porque äfua aqui nao falta. os motores dos navios e avioes sao construidos em Hamburgo,assim como os

    submarinos,tive a oportunidade de falar com um dos responsäveis da venda dos submarinos a
    Portugal,fui täxista,a melhor escola do mundo! Se bem me lembro vi um motor do tempo da Primeira Guerra Mundial,M.A.N. que tinha equipado um dos avioes na travessia para o Rio de Janeiro,e como sabemos nesta altura estava Portugal a lutar contra a Alemanha,sendo o autor do artigo Presidente do Museu da Marinha deve concerteza saber como è que o inimigo vai vender motores ao seu adversärio,nao sö esta estoria,mas muitas outras nos vai poder contar o Senhor Presidente do Museu Da Marinha aqui neste espaço!

  2. Schieder Da Silva Responder

    O Presidente da Repüblica portuguesa è automaticamente o presidente dos templarios em Portugal,aquando da extinçao dos templarios em 1307,o Templo de Cristo foi a ünica praça templaria que nao foi afetada e os restantes templärios puderam encontrar refugio aqui.
    Como estamos na religiao,falo sobre o milagre de S.Francisco Xavier,nao ponho milagre entre aspas,porque è um milagre possìvel de ter existido,porque se estes homens morressem a Historia ficaria mais pobre,entao aqui e neste caso,os atores exerceram fè e o milagre pode ter acontecido,esta exlicaçao è necessäria,porque muita gente morre nas äguas salgadas,exercem fè,mas mesmo assim morrem e neste caso nao,è preciso entender de que è necessärio morrer para passarmos a outro estado,ao estado da Biologia sem sangue,que postei algo sobre este assunto no outro artigo da revista,mas no caso dos marinheiros portugueses ,esse tempo ainda nao tinha chegado e eles ainda tinham muito que fazer,por isso è que estamos hoje aqui a falar sobre eles,porque fizeram Histöria.
    Morrer cedo ou tarde,nao importa,desde que tenhamos feito tudo para evitar essa morte prematura,termos dado tudo para permanecermos vivos,esta è a nossa missao,e äs vezes sao precisos milagres acontecer para que possamos viver um pouco mais.

  3. Schieder Da Silva Responder

    Devido ä riqueza de diversidade de assuntos neste artigo,vou agora falar sobre a fundaçao de Portugal.
    Em 1118 o Papa Urban 2 mandou organizar um exèrcito,eram a criaçao dos Templarios para proteger os peregrinos nas suas viagens ä Terra Santa,foi Hugo de Payns que foi encarregue dessa missao,depois de assegurarem de certa forma a segurança nessas paragens e viraram-se para a Peninsula Ibèrica,que libertam dos mouros em 1129,portanto 11 anos depois de começarem as Cruzadas estas terras denominadas de Portugal,a Cruz e os sinais da bandeira sao as praças templarias na Europa,nao estavam todas,porque eram mais,mas talvez as mais importantes.
    A ordem mais importante era a Ordem de Avis que se pode ver o sinal desta ordem em Santo Domingo, na Republica Dominicana,embora a ilha seja espanhola o sinal estä lä no busto do governador è da Ordem de Avis,eu estive lä.
    Em Tomar pode-se ver no Convento de Cristo mais sobre a Historia dos Templarios e da sua influencia na fundaçao de Portugal e depois no mundo em geral,e que faz de nös hoje a grande naçao que somos,de grandes homens que lutam nos quatros cantos do mundo e quase sempre que muito sucesso.
    A composiçao dos templarios era primeiramente francesa,inglesa,alema,austrìaca e um pouco de todos os europeus,isto mostra o interesse pelo mar,muito mais do que os anteriores ocupantes,porque naquele tempo ainda nao existia a confederaçao alema e a maior parte da Alemanha nao tem mar,sö a norte,a Austria hoje tambem nao tem mar,portanto,quando estes guerreiros templarios virao este paraìso ä beira mar plantado,tiveram a inspiraçao de ir ainda mais longe e descobrir o mundo,construindo barcos,coisa que os povos anteriores nao conseguiram.

  4. Schieder Da Silva Responder

    Se comermos as galinhas todas da Terra acabam-se as galinhas,se comermos os peixes todos do mar,esses nunca acabam,os vulcoes submarinos dao continuidade ä flora e fauna marìtima,com isto deve-se entender que a vida maritima è infinita,desde que os vulcoes maritimos estejam ativos,os vulcoes terrestes tambem ajudam neste ciclo de vida,atravès das enchurradas,dos rios,dos deslizes de terras para o mar,dos tsunamis,e tudo o que arrasta terra pada o mar,sao todos eles responsäveis pela produçao de matèria organica nas äguas,sejam elas doces ou salgadas,os vulcoes marìtimos sao tambem responsäveis pela salinidade da ägua,porque aquilo que os vulcoes marìtimos despejam,fica na ägua e como sabemos,sao rochas derretidas que conteem os ingredientes ä vida,è daqui que tudo vem que vive no mar,mas a ajuda dos rios…

  5. Artur Manuel Pires Responder

    Trata-se de um conjunto de verdades que felizmente conhecemos desde que temos memória, mas que nem por isso deixam de ser agradáveis e reconfortantes de recordar, sobretudo quando muito bem escritos e ilustrados, como é o caso.
    Os parabéns ao Senhor Almirante António Bossa Dionísio e à Revista de Marinha.

    Cordialmente, Artur Manuel Pires

  6. Vicente M M Magalhães Ferreira Responder

    Belíssimo contributo para a defesa , divulgação r promoção da cultura marítima .
    Parabéns .

  7. É um texto de grande qualidade histórica e literária, que está servido por uma boa ilustração. Parabéns ao autor e à Revista de Marinha!

  8. Alfredo Messeder Responder

    Portugal já foi um pais de marinheiros. Actualmente quase tudo que se relaciona com o mar tem sido muito mal tratado pelos nossos governantes. A situação da marinha de recreio por exemplo, com as aberrações do novo regulamento, tem empurrado para o registo em bandeiras estrangeiras inúmeras embarcações, que ai se refugiam para fugir aos totais disparates do novo regulamento, que em vez de facilitar e desenvolver a chamada Náutica de Recreio (em vez de Marinha de Recreio). A burocracia imposta é na maior parte das vezes o motivo para afastamento dessas embarcações.
    Tendo eu entrado em diversos grupos de trabalho, desde 1976, para elaboração de partes do regulamento em causa, verifiquei que neste último , todas as correções e sugestões respeitante a um draft que nos foi enviado para apreciação, deitaram por terra quase seis meses de reuniões, pois nada ou quase nada foi alterado naquele draft.
    Isto é apenas uma parte das marinhas, pois todas as outras tem bastantes queixas da maneira como estão a ser tratadas.

  9. Luís Macieira Fragoso Responder

    Excelente texto, escrito com alma mas com muito rigor, enquadrando muito bem todos os aspetos que caracterizam a maritimidade de Portugal.

  10. Elizabeth Teixeira antunes tei Responder

    Portugal, aquele Pais que fica onde o mar começa e a Europa acaba.
    Pais de navegadores q deram ao mundo outros mundos e q muito contribuíram cientificamente pata a navegação.
    Bem Haja almirante Bossa Dionísio .
    Elizabeth Antunes

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