Modelismo

Quem não tem cão…

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Esta não é a primeira vez que partilho os modelos do António Marranita, como tenho mencionado anteriormente, a originalidade dos seus trabalhos, o pensar out-of-the-box, a criatividade e engenho que são realmente apanágio das suas produções.

No seguimento desta pequena introdução, gostaria de acrescentar que desde que conheço o Marranita e os seus trabalhos, ele nunca teve medo de encarar um projeto que o motivasse, arriscando inclusive a opção “construção integral”, e, tendo o gosto por “coisas navais esquisitas”, esta é a única opção.

Aproveitando as suas aptidões para modelação e impressão 3D, que serve como base e que será depois refinada com plasticard foi construído o casco e superestruturas, sendo os restantes acrescentos sido retirados de vários modelos disponíveis no mercado, apresento-vos a Lancha Canhoneira Couraçada MBK-161, de fabrico soviético e usada durante a Segunda Guerra Mundial, realizada à escala 1/72.

Uma lancha couraçada Projekt. 161, provavelmente em 1943, em Leninegrado, hoje São Petersburgo. (Foto https://topwar.ru/)
Uma lancha couraçada Projekt. 161, provavelmente em 1943, em Leninegrado, hoje São Petersburgo. (Foto https://topwar.ru/)

Documentado com os planos e fotos de uma destas lanchas preservada como Museu, com o inventário do que necessita adquirir para o armamento (principalmente) e outros acessórios para compor esta embarcação, o autor tem que planear o que irá imprimir por secções dadas as limitações da impressora 3D na impressão de objetos longos. Assim o casco é dividido em 14 secções, longitudinalmente e por bordo. Esta será a base para começar a laminar a estrutura em placas de polistireno e iniciar o detalhamento, também em plástico. Cabeços, vergueiros, ventiladores e uma imensidão de detalhes são fabricados e colados, seguindo constantemente os planos (mais gerais) e as fotos do real, pois esta escala permite-nos colocar esses elementos, que se não estiverem lá, parece que “falta qualquer coisa”. As superestruturas, embora aparentemente simples, seguem o mesmo tratamento, sendo de destacar as vigias desta área com a sua blindagem reforçada, o holofote e a bitácula.

Pormenor das superestruturas, vendo-se as três metralhadoras DShK de 12,7mm (foto A. Marranita)
Pormenor das superestruturas, vendo-se as três metralhadoras DShK de 12,7mm (foto A. Marranita)

Sendo estas lanchas uma forma de combater a partir do rio as posições inimigas em terra, estavam armadas com o melhor que havia à época e no País, aproveitando o armamento dos seus “camaradas terrestres”. Assim as duas torres de 76mm do tanque T-34, as duas peças antiaéreas de 45mm e de 37mm, as metralhadoras DShK de 12,7mm e as cargas de profundidade foram retiradas de modelos comercializados de várias marcas, usando apenas esses elementos e poupando muito trabalho. Balaustres e vigias em latão completam o rol de aquisições e segue-se a fase da pintura.

A proa da lancha, vendo-se a torre blindada de 76mm, originária dum carro de combate T-34 (foto A. Marranita)
A proa da lancha, vendo-se a torre blindada de 76mm, originária dum carro de combate T-34 (foto A. Marranita)

Em Ecaterimburgo, no Museu de Equipamentos Militares da Companhia Mineira e Metalúrgica dos Urais (Muzey Voyennoy Tekhniki), a lancha-Museu está preservada com uma pintura camuflada no casco e superestruturas a quatro cores (ocre, preto, verde claro e uma cor tipo zarcão / vermelho óxido), mas a opção do António Marranita foi de a apresentar numa versão mais operacional, a cinzento, provavelmente com o que seria mais usado, pois estariam mais ocupados a combater e não a manter a pintura impecável. Pintura foi feita em acrílicos, com um cinza “soviético” e o habitual convés em “laranja óxido”, que vem até aos dias de hoje.

Em Ecaterimburgo, no Museu de Equipamentos Militares da Companhia Mineira e Metalurgica dos Urais (Muzey Voyennoy Tekhniki), a lancha-Museu está preservada com uma pintura camuflada no casco e superestruturas a quatro cores. (foto https://topwar.ru/)
Em Ecaterimburgo, no Museu de Equipamentos Militares da Companhia Mineira e Metalurgica dos Urais (Muzey Voyennoy Tekhniki), a lancha-Museu está preservada com uma pintura camuflada no casco e superestruturas a quatro cores. (foto https://topwar.ru/)

Alguns volumes e variações são dados, assim como alguns desgastes e ferrugem de forma a criar algum interesse e quebra de monotonia.

Ao fim de cinco meses de trabalho, este projeto fica concluído e devo dizer que, como é habitual nos seus trabalhos, está espetacular, fora do comum, feito com qualidade e mestria!

Detalhe da proa, vendo-se inúmeros pormenores, os ferros, o pau de Jaque,  os cabeços de amarração, as amarras, o cabrestante e a peça de 45mm (foto A. Marranita)
Detalhe da proa, vendo-se inúmeros pormenores, os ferros, o pau de Jaque,  os cabeços de amarração, as amarras, o cabrestante e a peça de 45mm (foto A. Marranita)

Fica aqui a prova que não é preciso depender dos modelos vendidos por fabricantes para poder ter algo na nossa vitrina que seja original e com qualidade – quem não tem cão, caça com gato – quem quer ter “aquele modelo” e não há em kit, ataca o desafio e faz de raiz!

Parabéns António Marranita por mais uma obra que chegou a bom Porto!

Nota: O modelista em questão até tem um cão, o Nito!

António e Nito (foto A. Marranita)
António e Nito (foto A. Marranita)

Bons Modelos

Rui Matos

Modelista Naval amador, co-fundador da Associação de Modelismo de Almada em 1996 e membro do International Plastic Modellers Society-UK desde 2006. Iniciou a sua colaboração com a Revista de Marinha em 2009.

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