Ambiente

Recuperar as praias da Caparica, Cruz Quebrada e Algés (parte 1)

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr

O BANCO DE AREIA DO BUGIO

A ligação entre a Trafaria e o farol do Bugio, designada por Golada, tem a extensão de cerca de 5 km. De acordo com o levantamento hidrográfico efetuado no final do século XIX (figura 1), existia um contínuo banco de areia, conhecido por banco de areia do Bugio, que, em preia-mar ficava emerso em mais de metade dessa distância e, em baixa-mar, era possível fazer-se todo o percurso a pé.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
1 – Levantamento hidrográfico da foz do rio Tejo 1842-1893. (Fonte Ref. 1)

De acordo com Francisco Vidal Abreu (2), “Nem sempre a Golada esteve fechada. As crónicas disponíveis ligadas à construção do Forte de São Lourenço da Cabeça Seca (Bugio), bem como planos da entrada do Porto de Lisboa dos séculos XVI a XVIII, e ainda cartas hidrográficas dos séculos XIX e XX, referem sempre uma Golada aberta com uma pequena barra (…) que nunca foi muito estável, variando ao longo do tempo, quer em localização, quer em profundidades, e que era apenas praticada por embarcações de pequeno calado.”

O ROMPIMENTO DO BANCO DE AREIA DO BUGIO

Por que motivo se terá alterado essa situação de relativo equilíbrio a partir do final da década de 1940, quando a Golada se abriu de forma tão brusca?

Existe amplo consenso no meio técnico que tal se deveu principalmente à retirada, nessa década, de enormes quantidades de areias da vertente norte do banco de areia do Bugio destinadas à construção de aterros na margem direita do rio Tejo entre Belém e Algés. De acordo com Joaquim Ferreira da Silva (3) terão sido retirados mais de 10 milhões de metros cúbicos de areias dessa margem com tal finalidade. A figura 2 mostra como evoluiu o processo de erosão costeira e como foi abrupta a alteração da linha de costa verificada até 1957 e anos posteriores.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
2 – Evolução da linha da costa. (Fonte Ref.4)

AS CONSEQUÊNCIAS DESSE ROMPIMENTO

Na margem esquerda do rio Tejo

O rompimento da barreira arenosa natural existente originou uma grande erosão das praias da Costa da Caparica, onde a faixa do areal foi desaparecendo, em grande parte da sua extensão, apesar das obras que têm vindo a ser feitas para a retenção das areias.

De acordo com Mota Oliveira (5), entre 1939 e 1985 foram acumulados na vertente norte do banco do Bugio cerca de 35 milhões de metros cúbicos de areias, o que se traduziu num avanço dessa vertente para norte de cerca de 700 m e, durante o mesmo período, a extremidade sul do Cachopo do Norte, designada por Cabeça de Pato (figuras 3 e 4), avançou perto de 800 m para sul, assoreando constantemente o canal da Barra Sul. As dragagens de manutenção do canal têm sido da ordem de 300 000 m3 por ano.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
3 – Consequências do rompimento do banco de areia do Bugio na margem esquerda do rio Tejo. Fonte Ref.5
cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
4 – Acumulação de areias na margem esquerda do rio tejo. (Fonte Ref.5)

A praia da Costa da Caparica era caracterizada há mais de 70 anos por uma extensa faixa de areal, conforme se observa na fotografia da figura 5.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
5 – Fotografia da praia da Costa da Caparica há mais de 70 anos. (Fonte Arquivo Municipal de Lisboa)

A figura 2 mostra os esporões construídos na década de 1960. Entre 2004 e 2006 foi realizada a empreitada de reperfilamento dos esporões existentes e da proteção marginal da frente urbana, no valor de 8,2 milhões de euros. De acordo com o respetivo projeto (6), estas obras de pouco serviriam se não fosse feita a alimentação regular das praias com areias. Efetivamente, entre 2007 e 2014 foi feita a alimentação da praia com 4,5 milhões de metros cúbicos de areias (curiosamente, o mesmo volume que em 1992 foi estimado como necessário para fechar a Golada, como se verá a seguir) por um custo de 22,9 milhões de euros. É importante salientar que, com o procedimento descrito, não há garantia de que uma parte do material de alimentação não se escape e, a prazo, não se vá depositar novamente na vertente norte do banco do Bugio.

A fotografia da figura 6 mostram o estado em que atualmente se encontra a praia da Costa da Caparica.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
6 – Fotografia da praia da Costa da Caparica atual. (Fonte Autor)

O farol do Bugio, monumento nacional construído no século XVII, também foi afetado pois entrou num processo de acentuada ruína e teve que ser objeto de sucessivas obras de reabilitação na década de 1990. A última obra, concluída em 2000, envolveu a construção de uma proteção com 130 000 m3 de enrocamentos e cubos de betão e o custo foi da ordem de 7 milhões de euros.

Em suma, os custos das obras realizadas na margem esquerda do rio Tejo nos últimos 18 anos ascendem a mais de 38 milhões de euros, sem contar com o custo das dragagens para a manutenção do canal de acesso ao porto. Os problemas estão, contudo, longe de estarem resolvidos e, principalmente, o areal da praia da Costa da Caparica, que era um importante património nacional, continua por recuperar.

Na margem direita do rio Tejo

Além das consequências acima referidas na margem esquerda do rio, a Golada, após o rompimento do banco do Bugio, deixa passar, com considerável energia, a ondulação proveniente do SW, principalmente em situação de temporal e na preia-mar, o que tem afetado significativamente toda a margem direita do rio, de Oeiras a Pedrouços.

O levantamento hidrográfico de 1964-1970 (figura 7) mostra a extensa faixa do areal que à época existia nas praias da Cruz Quebrada e de Algés.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
7 – Levantamento hidrográfico da foz do rio Jamor até Algés de 1964-1970. (Fonte IH)

Entre 1948 e 1950 foram construídos muros para suportar as areias da praia e regularizar a foz do rio Jamor. Pode observar-se que nesse local a largura da faixa de areal era de cerca de 240m. O levantamento do fim do século XIX (figura 1) mostra que então a largura dessa faixa era ainda bastante maior. A figura 8 mostra fotografia da antiga praia de Algés, que era a praia tradicional de Lisboa antes da inauguração da ponte sobre o Tejo (1966).

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
8 – Fotografia da praia de Algés anterior à inauguração da ponte sobre o Tejo

A figura 9 mostra o que resta dos referidos muros de suporte das areias que desapareceram.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
9 – Imagem da situação atual da foz da rio Jamor. (Fonte Autor)

A figura 10 mostra como a foz do rio Jamor se encontra atualmente exposta à ondulação nos temporais do SW, de tal forma que, em 2011, foi necessário realizar obras de emergência, no valor de um milhão de euros, para reparar e reforçar parte do muro da margem esquerda do Jamor, junto à costa, e proteger o maciço de enraizamento do emissário da SANEST e da descarga do coletor de águas pluviais da região por ameaçarem ruir.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
10 -Exposição da foz do rio Jamor aos temporais do SW. (Fonte Autor)

A figura 11 mostra o estado em que atualmente se encontra, sem areia, a praia da Cruz Quebrada e o recentemente construído passeio marítimo depois de um temporal.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
11 A – Estado em que se encontra a praia da Cruz Quebrada e o novo passeio marítimo. (Fonte Autor)

 

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
11 B – Estado em que se encontra a praia da Cruz Quebrada e o novo passeio marítimo. (Fonte Autor)

O passeio marítimo entre Paço d’Arcos e Oeiras está também sujeito a frequentes destruições sempre que ocorrem temporais do SW (figura 12) e até a Doca de Pedrouços (figura 13) passou a ser afetada por forte ondulação.

cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
12 A – Fotografia de destruição no passeio marítimo entre Oeiras e Paço d´Arcos. (Fonte Autor)
cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
12 B – Fotografia de destruição no passeio marítimo entre Oeiras e Paço d´Arcos. (Fonte Autor, 2014)
cruz quebrada, algés, costa da caparica, praias, rio tejo, josé cerejeira, golada, bugio, portugal, lisboa
13 – Vista da forte agitação na Doca de Pedrouços. (Fonte Autor, 2018)

Em suma, os prejuízos causados na margem direita do rio Tejo causados pela abertura da Golada serão, também, elevados (custos globais não disponíveis) e, principalmente, os extensos areais das praias da Cruz Quebrada e Algés, importante património que existia, estão por recuperar.

(clique aqui para ler a Parte 2)

Referências:

  1. Adolpho Loureiro (1907) – “Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes” – Imprensa Nacional, Lisboa, 1907.
  2. Francisco Vidal Abreu (2010) – “O Porto de Lisboa e a Golada do Tejo” – Revista de Marinha, nº 953, dezembro 2009/janeiro2010.
  3. Joaquim Ferreira da Silva (2013) – “Novo Terminal de Contentores em Lisboa” – Revista de Marinha, nº 973, maio/junho 2013.
  4. FEUP/IHRH (2001) – “Estudo da reabilitação das obras de defesa costeira e de alimentação artificial da Costa da Caparica”, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal (A figura 2 é extrato de uma adaptação feita neste estudo de P. Barceló, LNEC, 1971.
  5. Mota Oliveira, I. (1992) – “Port of Lisbon – Improvement of the access conditions through the Tagus estuary entrance” – Int. Conf. Coastal Engineering, Veneza, Itália, 1992 e Oliveira, I. M. (2006) – “Estuary and lagoon entrances” – PIANC Magazine AIPCN nº123, April 2006.
  6. Veloso Gomes, F., Taveira Pinto, F., Pais Barbosa, J. (2004) – “Rehabilitation study of coastal defense Works and artificial sand nourishment at Costa da Caparica, Portugal” – Proc. Int. Conf. Coastal Engineering, Lisboa, Portugal, 2004.

Engenheiro civil formado em 1962 pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, notabilizou-se na execução e direção de projetos de engenharia de infraestruturas portuárias, estaleiros navais e obras marítimas, em Portugal e no estrangeiro. Em 1981, juntamente com os Engºs. Nuno Ulrich e Cabral Menezes, foi fundou a PROMAN, empresa de alta engenharia civil portuguesa, especializada em estudos e projetos de infraestruturas portuárias e estaleiros navais. O seu nome está associado a projetos de infraestruturas portuárias e estaleiros navais em Portugal, Espanha, Brasil, Médio Oriente, Angola e Moçambique, com destaque para os grandes estaleiros da Setenave, de Cadiz, do Bahrain, o terminal de minério do porto de Sepetiba, RJ, no Brasil, os estaleiros navais de Jeddah, na Arábia Saudita e do Mindelo, em Cabo Verde. Nos últimos 8 anos tem vindo a prestar consultoria técnica na conceção e na verificação de projetos de grandes docas secas de estaleiros brasileiros de construção e de reparação naval, com destaque para o ERG, no Rio Grande do Sul, RG, o EAS, no porto de Suape, PE, o EEP, em Paraguaçu, BA, e o EBN, em Itaguaí, RJ.

1 Comentário

  1. Para evitar aquilo que se tem verificado, nas duas ultimas dezenas de anos, na margem Norte do Tejo e na Costa da Caparica não há duvida que se tem que repor artificialmente aquilo que existia como natureza e que o homem destruiu.
    O processo tem dezenas de anos, tendo-se agravado nas ultimas décadas, pelo que na Costa da Caparica já se gastaram muitos e muitos milhares de euros que outra coisa não tem sido que não seja deitar dinheiro ao mar. Gastou-se e vai continuar a gastar-se.
    O mais grave, na minha opinião, é que já podia ter sido encontrada uma solução para o problema passando pela criação de uma obra de dupla utilidade com custos comparticipados pela UE e com rentabilidade garantida.
    Foi equacionada a possibilidade de se proceder à criação de um cais de contentores desde a Cova do Vapor até ao Farol do Bugio. Esta obra para além de resolver o problema da erosão retiraria toda a movimentação de contentores do centro da cidade evitando todos os problemas resultantes dessa operação.
    O projecto foi posto de parte optando-se pelo Barreiro (?).
    As razões da opção nunca foram muito bem esclarecidas o que aliás é pratica comum nestas situações, mas de certeza que houve razões que a razão desconhece.
    Agora, não há responsáveis e não há dinheiro o que não é surpresa.
    Por sua vez como a obra é demorada e dificilmente será inaugurada por quem a iniciar o melhor é esperarmos todos sentados por uma solução para o problema.
    Entretanto vai-se deitando dinheiro ao mar na Costa, dinheiro que é nosso.
    A muralha do Rio Jamor encontra-se no estado lastimável em que se encontra há quatro dezenas de anos.
    Há turistas que visitam Lisboa regularmente, em navio cruzeiro, que pensam que a muralha do Jamor continua no estado em que está como memória da 2ª Guerra, vitima de um bombardeamento.
    Há muito que deixou de haver pachorra para levar com tanto irresponsável.