Ambiente

Recuperar as praias da Caparica, Cruz Quebrada e Algés (parte 2)

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A OBRA DO FECHO DA GOLADA

Com o objetivo de melhorar as condições de acesso marítimo ao porto através do Canal da Barra Sul e permitir receber, sem restrições, os navios porta contentores da 4ª geração, a APL- Administração do Porto de Lisboa contratou, no início da década de 1990, serviços especializados de engenharia, cujas responsabilidade e coordenação estiveram a cargo da HP- Hidrotécnica Portuguesa e tiveram intervenções fundamentais do LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil e do IH- Instituto Hidrográfico. Dos estudos realizados (5), que envolveram ensaios em modelos físico e matemático, concluiu-se que, para combater as citadas consequências do rompimento do banco do Bugio e o agravamento do assoreamento devido, principalmente, ao avanço para Sul da Cabeça de Pato (figura 3), deveria ser realizada a obra do fecho da Golada por meio de um dique de areia ligando a Cova do Vapor ao Bugio.

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Levantamento hidrográfico (1991), à data do projeto do Fecho da Golada . Fonte, IH, carta 45

Além da vantagem anterior, a execução dessa obra teria ainda outras igualmente valiosas, nomeadamente as seguintes:

  1. A melhoria das condições de exploração das instalações portuárias existentes e a concretização futura de outras.
  2. A redução da agitação marítima na margem direita do rio e, consequentemente, a melhoria do comportamento das obras de proteção marginal existentes e do custo de outras, a realizar.
  3. O robustecimento da faixa do areal da praia da Caparica.
  4. A proteção natural com areia do farol do Bugio.

Em resultado destas conclusões, em 1990 a APL decidiu lançar um concurso internacional para a adjudicação da empreitada de construção da obra do fecho da Golada. O projeto desta obra consistia na execução do referido dique de areia, que envolvia o volume de dragagem de areias da ordem de 4,5 milhões de metros cúbicos, dos quais um milhão se destinava a proteger o farol do Bugio. A obra seria executada numa única época de verão, de Junho a Setembro, e, de acordo com o Presidente da APL, A. Conceição Rodrigues (7), essa obra seria “ a mais importante do século (século XX) para garantir o futuro do porto de Lisboa”.

A execução dessa obra teria feito estancar a evolução dos fenómenos descritos, cujas consequências, como vimos, têm sido muito gravosas, não só para o erário público, como para o ambiente. Os estudos e projetos executados pelas instituições e técnicos mais qualificados do País na área das engenharias costeira e portuária demonstravam, sem margem para dúvidas, as vantagens da realização dessa obra. Procurava-se, simplesmente, repor as condições que há muito existiam.

Contrariamente à recomendação dessas entidades e técnicos, por despacho ministerial de Junho de 1992, o Governo decidiu não realizar a obra e hoje, infelizmente, estão bem à vista as trágicas consequências dessa decisão.

Sentimo-nos orgulhosos quando recordamos notáveis realizações da engenharia nacional feitas no nosso país e no estrangeiro durante o século XX (8), como foi, por exemplo, a da ampliação da praia de Copacabana e do aterro do Flamengo no Rio de Janeiro. Perguntamo-nos: como é que foi possível que se tenha deixado desaparecer as naturalmente amplas praias da Caparica, da Cruz Quebrada e de Algés, que constituíam um importante património nacional?

De acordo com António Lamas (9), “Em 1990, travei, juntamente com Carlos Pimenta, uma bem-sucedida luta contra o projecto que se designava por Fecho da Golada”.

A obra não foi, por conseguinte, realizada por causa de uma aguerrida campanha promovida, em ano de eleições, por um pequeno, mas influente grupo de pressão, alegando, ironicamente, a defesa do ambiente.

SÉRIE DE DECISÕES ERRADAS

As antigas praias da Costa da Caparica, da Cruz Quebrada e de Algés constituíam um importante património nacional que foi delapidado devido a erradas decisões nas décadas de 1940 e de 1990. Foi errada a dos anos 40 por não terem sido devidamente avaliadas as consequências de uma intervenção que iria alterar o sistema de equilíbrio dinâmico que a natureza tinha criado e estabilizado ao longo de décadas na região. Foi errada a dos anos 90 por impedir o restabelecimento da situação anterior, ou seja, corrigir o erro anterior. Se a primeira ainda se pode compreender pela circunstância de à época não se conhecerem bem os fenómenos ligados à dinâmica costeira e estuarina, conforme refere Francisco Vidal Abreu (2), a segunda, quando tinham sido realizados estudos que permitiam identificar perfeitamente tais fenómenos, é realmente incompreensível.

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Vista aérea da linha da Costa da Caparica em 2004. (Fonte, Ortofotomapa do IGP)

 

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Vista aérea da linha da costa Cruz Quebrada-Algés. (Fonte, Google)

Finalmente, está patente que o procedimento que tem vindo a ser seguido, de continuar a lançar areias na praia da Caparica, baseado no projeto de reabilitação dessa praia (6), não resolve, com carácter permanente, mesmo com custos muito elevados, o problema da retenção das areias nessa praia e do assoreamento do canal de navegação e, ainda menos, os problemas gerados ao longo da margem direita do rio Tejo.

A DECISÃO IMPORTANTE QUE SE AGUARDA

O que julgamos necessário e urgente será a realização dos estudos requeridos para fundamentar uma solução que resolva, de forma abrangente, os vários problemas da região: a recuperação da praia da Costa da Caparica, a melhoria das condições de acesso marítimo ao porto através do Canal da Barra Sul, a redução da agitação marítima ao longo da margem direita do rio e a recuperação das praias da Cruz Quebrada e Algés. Será, por conseguinte, uma atualização do estudo realizado no início da década de 1990 que baseou o projeto da obra do Fecho da Golada. Como é óbvio, passados quase 30 anos, os dados de base sobre as condições locais são bastante diferentes e os novos estudos e projetos deverão atender os condicionamentos e objetivos atualmente requeridos pelas entidades competentes.

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4 – Acumulação de areias na margem esquerda do rio tejo. (Fonte Ref.5)

A figura 4 mostra, como vimos, que a acumulação das areias na margem esquerda do rio entre 1939 e 1985 foi de 36 milhões de metros cúbicos. Estimativa baseada em levantamento mais recente indica que esse volume já excederá os 40 milhões. É interessante observar que a superfície desse volume acumulado de areias se mantém próxima, ou pouco abaixo, do ZH. Esta circunstância constitui um fator muito favorável para a realização da obra do fecho da Golada, pois as alturas dos aterros a formar são relativamente reduzidas e curtas as distâncias ao local de empréstimo dos materiais a dragar. Por isso, o preço por metro quadrado de área a conquistar será muito baixo, da ordem de € 40, admitindo 8 m de altura do aterro e € 5/m3 de material dragado.

Como, em princípio, a elaboração do projeto deverá procurar restabelecer, o melhor possível, as condições geomorfológicas que existiam antes do rompimento do banco do Bugio (10), constitui circunstância muito feliz a existência de um tão grande volume de areias que, em grande parte, se encontra disponível para realizar, na medida das necessidades, não apenas a obra inicial do fecho da Golada como, também, a posterior recuperação das praias e, atendendo à amplidão e enorme potencialidade da área da Golada, o aproveitamento desta para vários outros fins. Realizada a primeira, com um dique de areia (cujo volume estimamos ser da ordem de 5 milhões de metros cúbicos), protegido ou não no talude exterior em resultado dos estudos a realizar, podem prosseguir as obras de abastecimento, com carácter permanente, das praias da Costa da Caparica, da Cruz Quebrada e de Algés com areias dragadas na referida zona de empréstimo e, também, na abertura do Canal da Barra Sul com as dimensões requeridas atualmente para o acesso dos navios ao porto.

Recuperadas as praias deixarão de ter utilidade parte dos enrocamentos das obras de retenção e proteção, que ficarão disponíveis para eventual aplicação em outras obras marítimas.

A praia sem enrocamentos, junto à arriba fóssil, na Fonte da Telha. (foto Anabela Luís, CMAlmada Flickr)

Julgamos que a recuperação das praias da Costa da Caparica, da Cruz Quebrada e de Algés será certamente do maior interesse para as autarquias principais beneficiárias, as câmaras de Almada e de Oeiras, e que, para a APL, que detém a jurisdição do local da obra, será a oportunidade de levar a efeito a obra que pretendia realizar há 26 anos e reputava ser da maior importância para o futuro do porto de Lisboa.

Tendo, contudo, em atenção o conjunto de competências e responsabilidades das várias entidades envolvidas, julgamos que este importante empreendimento só terá condições de se concretizar se se basear numa decisão empenhada a nível governamental.

(Clique aqui para ler a Parte 1)
REFERÊNCIAS
  1. Adolpho Loureiro (1907) – “Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes” – Imprensa Nacional, Lisboa, 1907.
  2. Francisco Vidal Abreu (2010) – “O Porto de Lisboa e a Golada do Tejo” – Revista de Marinha, nº 953, dezembro 2009/janeiro2010.
  3. Joaquim Ferreira da Silva (2013) – “Novo Terminal de Contentores em Lisboa” – Revista de Marinha, nº 973, maio/junho 2013.
  4. FEUP/IHRH (2001) – “Estudo da reabilitação das obras de defesa costeira e de alimentação artificial da Costa da Caparica”, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal (A figura 2 é extrato de uma adaptação feita neste estudo de P. Barceló, LNEC, 1971.
  5. Mota Oliveira, I. (1992) – “Port of Lisbon – Improvement of the access conditions through the Tagus estuary entrance” – Int. Conf. Coastal Engineering, Veneza, Itália, 1992 e Oliveira, I. M. (2006) – “Estuary and lagoon entrances” – PIANC Magazine AIPCN nº123, April 2006.
  6. Veloso Gomes, F., Taveira Pinto, F., Pais Barbosa, J. (2004) – “Rehabilitation study of coastal defense Works and artificial sand nourishment at Costa da Caparica, Portugal” – Proc. Int. Conf. Coastal Engineering, Lisboa, Portugal, 2004.
  7. Conceição Rodrigues (1990) – Apresentação do “Estudo Histórico Hydrográphico sobre a barra e o porto de Lisboa” – A. A. Baldaque da Silva, Tomo 1, APL, 1990.
  8. Ordem dos Engenheiros (2000) – “100 Obras de engenharia civil no século XX em Portugal” e Ordem dos Engenheiros (2003) – “100 Obras de engenharia portuguesa no mundo no século XX”.
  9. António Lamas (2007) – Artigo no Jornal “Público”, julho de 2007.
  10. José Manuel G. Cerejeira (2013) – “ O Plano de reestruturação do porto de Lisboa” – Revista de Marinha, nº 973, maio/junho 2013.

Engenheiro civil formado em 1962 pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, notabilizou-se na execução e direção de projetos de engenharia de infraestruturas portuárias, estaleiros navais e obras marítimas, em Portugal e no estrangeiro. Em 1981, juntamente com os Engºs. Nuno Ulrich e Cabral Menezes, foi fundou a PROMAN, empresa de alta engenharia civil portuguesa, especializada em estudos e projetos de infraestruturas portuárias e estaleiros navais. O seu nome está associado a projetos de infraestruturas portuárias e estaleiros navais em Portugal, Espanha, Brasil, Médio Oriente, Angola e Moçambique, com destaque para os grandes estaleiros da Setenave, de Cadiz, do Bahrain, o terminal de minério do porto de Sepetiba, RJ, no Brasil, os estaleiros navais de Jeddah, na Arábia Saudita e do Mindelo, em Cabo Verde. Nos últimos 8 anos tem vindo a prestar consultoria técnica na conceção e na verificação de projetos de grandes docas secas de estaleiros brasileiros de construção e de reparação naval, com destaque para o ERG, no Rio Grande do Sul, RG, o EAS, no porto de Suape, PE, o EEP, em Paraguaçu, BA, e o EBN, em Itaguaí, RJ.

4 Comentários

  1. Ricardo Carvalho Responder

    Este interessante artigo sobre o Fecho da Golada, publicado pelo Eng.º José Cerejeira, aborda um tema que vem sendo discutido, pelo menos, desde os anos 90 do século passado, e provavelmente desde que se iniciaram os problemas na década de 40. Por paradoxal que possa parecer, quanto mais tempo passa mais atual este tema se torna. Como bem aponta o artigo, o rompimento artificial da restinga motivou um brusco desequilíbrio aluvionar, com consequências nefastas para as praias da Costa de Caparica, e também para o forte do Bugio e, provavelmente, agravou o reassoreamento da Barra Sul. Na Caparica, esta situação gerou a necessidade de construção de um campo de esporões, com alimentação artificial com areias periódica, ou seja, implica investimentos muito avultados, recorrentes e de eficácia sempre temporária, e incerta. O referido rompimento da restinga, conjugado com o enfraquecimento do Cachopo do Norte, também se revelou desfavorável para a costa de Oeiras, nomeadamente para o passeio marítimo entre Paço d’Arcos e Oeiras, praias da Cruz Quebrada e de Algés, Porto de recreio de Oeiras, Molhes do Jamor, etc. Ao longo destas décadas, em particular nas duas últimas, múltiplas entidades e técnicos reputados se debruçaram sobre este assunto, apresentando ideias e apontando soluções que, na prática, acabam por se resumir às soluções de intervenção de emergência, que adiam o problema. Conforme o artigo do Eng.º Cerejeira muito bem aponta, é necessária uma decisão importante que se aguarda, começando pelos estudos necessários e tendo em conta o avanço do conhecimento nestes últimos anos. Não só a ciência dos processos litorais e estuarinos evoluiu, mas também a sofisticação dos modelos matemáticos respetivos. Há também mais dados e informação recolhida, que permitem uma melhor caraterização e interpretação dos complexos processos e agentes modeladores da embocadura do Rio Tejo. Concordo em pleno com a necessidade urgente de se fazer a atualização do estudo do início da década de 1990, visando a reposição da geomorfologia anterior ao rompimento, ou seja, como o artigo refere, fazer a obra que a APL pretendia realizar há 26 anos e dizia fundamental para o futuro do porto de Lisboa. Mas em tais estudos haverá que acautelar diversos interesses, sejam eles ambientais, ecológicos, navegacionais ou portuários. Neste entendimento, tão importante assunto deve contar com o aporte de diversas entidades, procurando-se uma base de entendimento e consenso que, de uma vez por todas, permita avançar para soluções definitivas.

  2. Pedro Figueira Responder

    O Engº José Manuel Cerejeira aborda de forma suportada com muita objectividade, um tema que todos os interessados nos problemas da nossa costa conhecem bem, quanto mais não seja, pelo tempo exagerado que tem corrido desde que o problema nasceu até à actualidade. É uma constatação óbvia que o “fecho da Golada”, ou, por outras palavras a criação de uma ligação estabilizada entre a Cova do Vapor e o Forte do Bugio, é a única maneira racional de evitar que as areias provenientes da Caparica sejam transportadas para o leito do estuário do Rio Tejo. Porém no início da década de 1990 um grupo de pessoas, algumas das quais com elevados graus académicos e/ou com responsabilidades políticas, passaram um atestado de menoridade a quem nessa altura fazia um esforço para solucionar o problema e, com acusações de haver segundas intenções nessa solução, contribuíram para evitar que um projecto de fecho da Golada fosse executado.
    Uma das justificações que na altura foi apresentada publicamente para evitar a realização da obra, foi a de que não se devia fechar a Golada, pois isso corresponderia à intenção de criar uma plataforma que iria ser aproveitada como terminal de contentores, o que não era admissível naquele local. Ou seja, os governos futuros não seriam capazes de evitar a construção de uma obra portuária no local.
    Os partidários da não realização do fecho da golada tiveram, e provavelmente ainda têm, a convicção de que os orgãos de governo do país não têm autoridade suficiente para decidir. No entanto alguns estiveram nesses orgãos, a maior parte das vezes, felizmente, por pouco tempo.
    É tempo de corrigir a posição que os sucessivos governos têm tido relativamente a esta situação. Sugiro aos responsáveis pela gestão da orla costeira que leiam atentamente o artigo do Engº José Manuel Cerejeira, a quem felicito, e pensem nas consequências de continuar a não realizar o fecho da Golada. Talvez se possa terminar de vez com as alimentações provisórias de emergência das praias do norte da Caparica, e evitar que a médio prazo o canal da barra do Tejo seja invadido pelas areias que passam pela Golada.

  3. Li com o maior interesse o presente artigo do Eng.º José Manuel Cerejeira, com o qual concordo inteiramente e cuja conclusão pugnamos, aqui incluímos os saudosos Eng.os Fernando Abecassis, Mota de Oliveira e Carlos Pita, pelo necessidade premente do fecho da golada.
    Resumidamente, os passos a seguir seriam:
    – Revisão dos estudos de 1990;
    – Elaboração do projeto tirando partido dos saldos das areias a movimentar para outros fins úteis (como sugerido no artigo);
    – Lançamento da respetiva empreitada, a financiar parcialmente com fundos comunitários no âmbito da proteção costeira;
    – Munitorização dos resultados da implementação do projeto.

  4. Artur Manuel Pires Responder

    Trata-se de mais um excelente trabalho do Sr. Engº José Manuel Cerejeira, sobre um tema que lhe é caro, e que expõe e defende sempre com brilhantismo.

    Os parabéns ao autor e à Revista de Marinha.

    Artur Manuel Pires