Património Cultural Marítimo

Os “Schnellboote” na Armada Espanhola

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Durante a Guerra Civil Espanhola, ambos os lados receberam ajuda externa em consonância com as simpatias políticas que representavam na ocasião. O lado republicano recebeu ajuda de Estaline e o lado nacionalista ajuda de Hitler e Mussolini. Foi assim que o lado nacionalista, o que sairia vencedor, recebeu seis lanchas torpedeiras da “Kriegsmarine”, denominadas tipo S, ou Schnellboote.

 

Como surgiram os Schnellboote

Os Schnellboote foram uma das criações alemãs para contornarem as limitações impostas pelo Tratado de Versailles em termos de navios armados. Os aliados não lhes deram a devida importância devido à baixa tonelagem. E sob o disfarce de procurarem um navio rápido para a “caça de submarinos” (e por isso denominados UZ, de “Unterseeboote Zerstören), os alemães iniciaram uma procura por embarcações que pudessem ser rápidas e simultaneamente aptas e resistentes para as diversas condições de mar. A base do projecto veio a recair sobre um pequeno e luxuoso iate que tinha sido construído em 1927 pela Lürssen Bootswerft para o rico banqueiro Otto Hermann Kahn. Daí o nome de Oheka II, as suas iniciais. Tinha 22,5m de comprimento, um deslocamento de 22,5ton e conseguia alcançar os 34 nós com os seus três motores Maybach de 550hp a gasolina.

Inicialmente considerados insignificantes pelos aliados (os ingleses iriam chamar-lhes E-Boats, E de “Enemy”), estes pequenos e rápidos navios que haviam de surgir, acabaram por desempenhar algumas acções de uma autêntica “Blitzkrieg” naval. (…)

O iate OHEKA II construído pela Lurssen em 1927

Inicialmente considerados insignificantes pelos aliados (os ingleses iriam chamar-lhes E-Boats, E de “Enemy”), estes pequenos e rápidos navios que haviam de surgir, acabaram por desempenhar algumas acções de uma autêntica “Blitzkrieg” naval. O primeiro modelo construído foi inicialmente designado por UZ (S)16 (Unterseeboote Zerstören (Schnell) 16). Seria o protótipo de uma longa série de navios que acabariam mesmo por serem divididos em várias Classes, tais eram as diferenças de melhoramentos ao longo das várias construções.

Os planos da lancha alemã S-1 ou LT-1, na Armada Espanhola.

Validadas as suas “performances” (nomeadamente a velocidade também de 34 nós), foi então transferido para a Reichsmarine com a designação S1, ou Schnellboote 1. Mantinha o mesmo desenho básico do Oheka, mas via aumentadas as dimensões e deslocamento, para acompanhar as alterações que tinha sofrido. Já deslocava 47ton e tinha um comprimento de 26,8m. Os alemães apelidaram-no carinhosamente de “Mäxchen” (pequeno Max). Estava equipado com três motores Daimler-Benz BFZ de 12 cilindros em V, 800/900hp, quatro tempos e a gasolina (três hélices). Possuía, ainda, um motor Maybach S5 de 100hp a gasolina, para navegação silenciosa e/ou de cruzeiro (cerca de 6 nós). Transportava dois tubos lancha torpedos de 500mm à proa, com a característica de poderem ser rapidamente removidos, caso fosse necessário escondê-lo de olhares indiscretos. A ré possuía um canhão de 20mm e dos lados da ponte duas metralhadoras MG34 de 7,9mm.

Montagem das balizas, durante a construção dum S-boot, no estaleiro da Lurssen.

Com o sucesso desta construção, os estaleiros Lürssen receberam de imediato nova encomenda de mais quatro unidades com alguns melhoramentos. Isso levou a um pequeno aumento da tonelagem. A potência dos motores foi incrementada para os 1100hp, através da introdução de turbo-compressores. Os navios seriam numerados de S-2 a S-5, ficando o projecto conhecido por Classe S-2. Depois deste grupo, outro melhoramento que se procurou foi a introdução de motores Diesel. Procurava diminuir-se o risco de explosão e incêndio, de modo a aumentar a segurança. Na ocasião, a escolha recaiu sobre os motores MAN de 1320hp e foi construído mais um navio denominado S-6. O deslocamento voltou a ser incrementado e foram montados pela primeira vez dois tubos lança torpedos de 533mm, deixando-se finalmente a preocupação da possibilidade da sua desmontagem imediata. Estas seis unidades terão sido fornecidas algum tempo depois ao lado nacionalista espanhol.

Montagem de motores mercedes-benz da serie 500 na fábrica da Daimler-Benz.

 Depois do S-6, o estaleiro voltou a receber nova encomenda de mais sete unidades, com características melhoradas. Seria a Classe S-7, a que se seguiriam posteriormente as Classes S-14, S-18, S-26, S-30, S-38, S-38b, S-100 e S-151, com sucessivas alterações e melhoramentos. A Classe S-151 foi constituída por oito navios de 57ton (S151 a S158) capturados incompletos aos holandeses e que estavam a ser construídos nos estaleiros Gusto N.V., Schiedam. Todos estes navios revelaram excepcionais características de navegação e flutuabilidade, tendo as suas “performances” sido sucessivamente melhoradas. A Classe S-100 terá atingido o maior grau de sofisticação.

Ao serviço da Armada Espanhola

No que respeita à ajuda militar por meios navais durante a Guerra Civil Espanhola (1936/39), a alemã foi fraca, comparativamente com a italiana. Provavelmente porque os alemães ainda se encontravam a reestruturar a sua própria marinha face às suas necessidades e dificilmente consideravam excedente qualquer meio naval. A ajuda acabou por se resumir a lanchas, nomeadamente as torpedeiras designadas “Schnellboote”. Os alemães forneceram aos espanhóis as suas primeiras seis unidades, apenas depois de já possuírem outras com diversas melhorias, comparativamente a essas mesmas seis primeiras. Essa necessidade alemã reflectiu-se no estado geral das lanchas quando foram fornecidas. Tinham sido tão intensamente usadas em exercícios navais de preparação de guarnições, que sobretudo os motores se apresentavam bastante degradados. Acabaram por ter uma utilização muito modesta ao serviço dos nacionalistas espanhóis.

O Schnellboot S-1, futura LT-15, a navegar sob o pavilhão da Kriegsmarine. (foto Schäfer, via s-boot.net)

 A lancha S-1 chegou a Espanha em Março de 1937. Tomou o nome de “Badajoz” e a numeração LT15. Era abandonado o “S” designativo dos alemães e adoptada a sigla “LT” de lanchas torpedeiras. A S-2 e a S-4 terão chegado no final de 1936. Foram-lhes atribuídos os nomes de “Falange” e “Requeté” com, respectivamente, as designações LT13 e LT11. A S-3 tomou o nome de “Oviedo” e terá chegado em Março de 1937.

 Ficou com a designação LT12. A S-5 recebeu o nome de “Toledo” e a designação LT14. Terá chegado apenas em Fevereiro de 1939. Por vezes, na literatura especializada sobre o assunto não há total concordância quanto à numeração adoptada pelos espanhóis, assim como uma justificação para a mesma ter tido início no número 11.

As primeiras lanchas torpedeiras entregues aos nacionalistas. Aqui atracadas em Ceuta, com o respectivo navio de apoio, durante o período da segunda guerra mundial.

As embarcações foram todas transportadas por navio até Cádiz. E foi aí, que a S-3 e a S-5 terão ficado bastante danificadas durante a sua descarga. Esse acontecimento terá impedido as mesmas de uma verdadeira prestação de serviços sob a nova bandeira. O facto já referido de todas apresentarem os motores em condições muito debilitadas, sancionou também muito a utilização de todas.

(…) O navio da Royal Navy, patrulhava a costa Sul de Espanha, impondo o embargo de armas decidido pelo Comité de Não-Intervenção. O navio britânico ficou bastante danificado, mas sobreviveu, tendo sido rebocado e reparado.

No dia 12 de Maio de 1937, a Falange e a Requeté, realizaram uma operação de minagem junto ao porto de Almeria, que viria a atingir o contratorpedeiro britânico HMS HUNTER. O navio da Royal Navy, patrulhava a costa Sul de Espanha, impondo o embargo de armas decidido pelo Comité de Não-Intervenção. O navio britânico ficou bastante danificado, mas sobreviveu, tendo sido rebocado e reparado.

HMS Hunter na baía de Plymouth, circa 1936.  (foto IWM)

Depois, a “Falange” (ex S-2) viria a sofrer uma violenta explosão a 18 de Junho de 1937 no porto de Málaga, provocada por vapores de gasolina, dando razão aos alemães pela adopção posterior de motores Diesel. Cinco membros da sua guarnição de 12 homens sofreram queimaduras muito graves e a lancha ficou totalmente destruída. A “Oviedo” sairia de serviço logo em 1940, seguindo-se a “Badajoz” e a “Toledo” em 1944 e a “Requeté” em 1946.

A S-6, a primeira das lanchas alemãs deste tipo a receber motorização Diesel e a “base” das restantes que se lhe seguiram, foi também vendida a Espanha em 1938. Alguma literatura especializada assim o refere. Todavia, é difícil encontrar qualquer outra informação adicional sobre o seu serviço. Será que substituiu alguma das danificadas e serviu debaixo da designação da mesma, perdendo-se assim o seu rasto?

Quanto a outro tipo de lanchas fornecidas pelos alemães ao lado nacionalista, deve mencionar-se uma que os alemães levaram para a ilha de Maiorca, em particular para a base de hidroaviões de Pollensa, quando em Julho de 1937 aí estacionou um esquadrão da célebre Legião Condor com os seus hidroaviões Heinkel 59 B-2. A sua principal função era actuar como unidade auxiliar de salvamento das tripulações dos hidroaviões. Foi sempre classificada como lancha de salvamento, embora alguns relatos pretendam que foi uma ex-lancha torpedeira. Dispunha de um potente farol à proa, com o qual orientava as manobras de levantar e amarar destes aparelhos durante os voos nocturnos. Participava, também, no transbordo das tripulações para a zona portuária e reboque dos aparelhos. Com o final da guerra civil em Maio de 1939 e retirada alemã, ela permaneceu no local juntamente com alguns dos hidroaviões. Continuou ao serviço de Espanha como unidade auxiliar dos esquadrões de hidroaviões de patrulha e reconhecimento, enquanto o país teve este tipo de aeronaves. Acabou retirada apenas em 1978. Tinha um canhão Reinmetall de 20mm à popa e uma metralhadora anti-aérea à proa. Dispunha de dois motores Diesel (MAN ou, MWM?). Depois da retirada alemã, essa lancha acabou por ser chamada de “Pollensa”, o nome da referida base e localidade onde esteve sediada na ilha de Maiorca. Prestou excelentes serviços aos alemães e viria a prestá-los também aos espanhóis.

A lancha POLLENSA, na Base de Hidroaviões de Polença, perto de Formentor, Maiorca.

Algum tempo após a guerra civil espanhola e em pleno conflito mundial, entre Junho e Agosto de 1944, a “Luftwaffe” cedeu a Espanha mais três unidades semelhantes (mas desarmadas), para que Espanha pudesse proporcionar junto às ilhas Baleares, um serviço de salvamento no mar de pilotos derrubados, semelhante ao seu “Seenotdienst” (organização que viria a ser copiada pelos aliados). Obviamente com interesse para os próprios alemães. Essas lanchas seriam semelhantes à inicial Pollensa. Tinham sido construídas em madeira no estaleiro Kröger, em Warnemünde, com dois motores Diesel MWM. São referidas como sendo do tipo FL. B600. Em Espanha receberam a designação LS1 a 3, significando o “LS” lancha de salvamento, nada tendo de comum com o “Leichte-Schnellboot” dos alemães. Depois da 2ª Guerra Mundial receberam a designação V20 a 22, montaram armamento semelhante à Pollensa e passaram para o serviço de fiscalização das pescas.

As lanchas da Classe S-38

 

É sabido que Franco e Hitler mantiveram sempre uma relação especial. A Hitler interessava que Franco interviesse na guerra, nomeadamente para a tentativa de domínio de Gibraltar. Franco resistiu sempre, mas manteve ao longo de toda a 2ª Guerra uma neutralidade “pouco neutra” com a Alemanha. Essa “amizade” especial refletiu-se, (…)

A posse de lanchas “Schnellboot” por parte de Espanha não se limitou ao período da sua guerra civil. É sabido que Franco e Hitler mantiveram sempre uma relação especial. A Hitler interessava que Franco interviesse na guerra, nomeadamente para a tentativa de domínio de Gibraltar. Franco resistiu sempre, mas manteve ao longo de toda a 2ª Guerra uma neutralidade “pouco neutra” com a Alemanha. Essa “amizade” especial reflectiu-se, por exemplo, na recepção de lanchas Classe S-38 em plena guerra mundial e ainda uma posterior recepção de meios para a sua produção em Espanha. As lanchas da Classe S-38 constituíram um grupo muito sofisticado deste tipo de navios. Tinham várias alterações e melhorias relativamente às Classes anteriores, o que provocou um aumento do deslocamento até às 92,5ton. Possuíam três potentes motores Diesel Mercedes-Benz MB 511 (uma evolução do MB 501) com 2200hp, capazes de chegarem até aos 39,5 nós.

A LT-21 a navegar na costa Sul de Espanha durante a segunda guerra mundial, com a bandeira de Espanha na amura identificando a sua neutralidade (Archivo del Museo Naval)

Em Agosto de 1943, a Alemanha transferiu para Espanha seis das suas próprias lanchas S-38. A transferência de tripulações aconteceu em Bordéus. Fizeram parte desse grupo de lanchas alemãs, a S-73, S-78, S-124, S-125, S-126 e S-145 (ou 134?). Passaram a ser, respectivamente, a LT-23, LT-24, LT-21, LT-25, LT-26 e LT-22 espanholas. Seriam retiradas de serviço entre 1955 e 1957. A S73 e a S78 ainda possuíam motores Daimler-Benz MB501, mas as restantes já montavam o modelo MB511, mais potente. As tripulações espanholas receberam o mesmo treino das tripulações alemãs, tendo mesmo participado em acções de combate no Mar Báltico contra os russos.

As lanchas LT-21, 24 e 25, respectivamente ex-S-124, S-78 e S-125, a navegar, provavelmente entre Bordéus e Tarifa, circa 1944 (Archivo del Museo Naval)
Antigo bilhete postal da Armada Española, Propaganda Marítima, com desenho a carvão da LT-23 (Archivo del Museo Naval)
A lancha LT-24 a navegar, circa 1944 (Archivo del Museo Naval)

As lanchas espanholas

Mas, o programa das lanchas não ficou por aqui. A Alemanha iniciou também a transferência de tecnologia. Foi assinado um acordo de licença de construção com a “Lürssen” a 24/06/1942, para a construção de 10. Em finais de 1944, deu-se início à construção das primeiras duas lanchas em Espanha (em La Carraca, Cádiz). Quando a 2ª Grande Guerra terminou, os alemães já tinham transferido os motores e equipamentos necessários para a construção de seis lanchas. Todavia, a ausência de conhecimentos para a sua construção sem assistência alemã, atrasou o programa até 1953/59. E já não se construíram as 10 inicialmente previstas. Duas destas lanchas iriam sair de serviço apenas em 1977.

Lancamento à água da LT-27, no Arsenal de la Carraca, Cádiz, pela E. N. Bazán de Construcciones Navales Militares, em 1952 (Archivo del Museo Naval)
As guarnições formadas nas LT 27, 28 e 29, no dia 10 de Julho de 1953, aquando da sua entregue à Armada Espanhola (Archivo del Museo Naval)
Lançamento dum torpedo pela LT-32 (Archivo del Museo Naval)

Bibliografia

Alejandro Yanez, <<Schnellboote in the Spanish Navy>>, Schnellboote of the Armada;

Jean-Philippe Dallies-Labourdette, S-Boote German E-boats in action 1939-1945, Histoire & Collections;

Schnellboot, www.wikipedia.org;

Steve Wiper, German S-Boats, ShipCraft 6;

Garth Connelly/David L. Krakow, Schnellboot in action, Warships Number 18 – squadron/signal publications.

José Branco

Sargento Maquinista Naval da Armada e ex-submarinista (submarinos Classe Albacora). Enquanto modelista, foi um dos fundadores da AMA (Associação de Modelismo de Almada). A sua paixão pelos aviões também já lhe permitiu colaborar com a Revista "Mais Alto" da FAP, com um artigo intitulado "Os aviões de hélice propulsivo"

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