Crónicas

Sesimbra é mesmo peixe

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…respirando o vento limpo do mar

Rubem Braga

 

A melhor forma de ir a Sesimbra é de barco.

Não apenas porque a entrada na sua baia é um momento de rara beleza, como porque permite resolver o problema do estacionamento com que a Vila se debate.

Tive a sorte de o fazer numa regata organizada pelo clube naval local, com largada em Lisboa, em frente ao padrão dos descobrimentos, e ainda hoje guardo a memória gratificante dos momentos finais da viagem, com a dobragem do Cabo Espichel,  pouco depois o ingresso nas águas esmeráldicas – se é que esta palavra existe –  e harmoniosamente onduladas da baía, para nos dirigirmos ao lugar que nos estava destinado, tudo ao mesmo tempo em que começávamos a faina veleira, de colocar defensas, arriar e arrumar velas, e enrolar cabos, tudo debaixo dos habituas berros do comandante, porque as defensas de bombordo tinham sido colocadas a estibordo, as velas grandes tinham sido arrumadas em sacos pequenos, e  os cabos enrolados ao contrário, ou apenas porque era aquela a forma de exteriorizar o prazer pelo excelente resultado que tínhamos alcançado.

Já com os pés no ripado de madeira do nosso cais, dirigimo-nos para a sede do clube, onde nos esperavam uma malga de caldo verde, outra de vinho tinto e outra de arroz doce, tudo acompanhado de broa macia, e da eterna conversa que se tem nestas ocasiões.

O vento. E aqui, lembro-me sempre daquela carta de Vincent van Gogh para irmão Theo, onde regista “que os moinhos já não existem, mas o vento continua a ser o mesmo”.

Mas agora, agora, enquanto equilibro as minhas malgas, tratava-se de algo bem menos prosaico. Alguém tinha ficado com o vento de alguém.

Como já conheço o final daquela estória, que é sempre a promessa de vingança na segunda regata, de regresso, afasto-me para a mesa dos doces.

Do varandim do clube, depois de três malgas de sopa, duas de arroz doce e uma de vinho, contemplei o nosso veleiro, e fiquei a olhar a Vila por toda a minha direita, e a recordar um instante que tinha acabado de acontecer.

Sesimbra vista pela aguarela do rei D. Carlos I, de bordo do Yacht AMÉLIA, em 5 de maio de 1897.
Sesimbra vista pela aguarela do rei D. Carlos I, de bordo do Yacht AMÉLIA, em 5 de maio de 1897.

Agarrado a um dos brandais, com os pés assentes no convés, e com a Vila mesmo à minha frente, constatei que a paisagem tinha mudado desde que tinha ficado imortalizada numa aguarela na entrada do dia cinco de maio de 1897, do diário da campanha oceanográfica realizado pelo yacht Amélia naquele mesmo ano, e editado pela Marinha em 1978. Mas o que eu tinha naquele momento à minha frente, não podia ser outra coisa se não Sesimbra.

Bem pelo contrário, um amigo meu, tinha tido a triste ideia, quase trinta anos depois, de regressar ao lugar onde tinha sido feliz, e acabou por confessar que a única coisa que tinha conseguido reconhecer do local, tinham sido as estrelas, à noite no Céu.

Agora, se houver estrelas no Céu, a claridade da tarde é suficiente para não as deixar ver. E também não são precisas, porque ao mergulhar no empedrado da urbe, verifico nas paredes de muitos cafés, fotografias antigas onde se pode constatar que a principal mudança ocorrida na terra, consistiu no facto do mundo ter deixado de ser a preto e branco para passar a ser a cores.

O litoral de Sesimbra está fatiado entre o areal da praia, o empedrado da marginal, e a alvenaria do casario.

E a marginal, dividida quase ao meio pela Fortaleza de Santiago. Esta constitui um edifício imponente, a que obras muito recentes e bem feitas, acrescentaram à antiga beleza, uma nova funcionalidade.

Agora não serve já para intimidar e afoguentar forasteiros, mas para os receber e cativar.

Uma distribuição harmoniosa de abóbadas, pátios, terraços, muralhas e torreões, faz sobressair o museu da pesca, com um acervo não muito grande, mas precioso.

A praia, vista da Fortaleza de Santiago, onde hoje está instalado o Museu Marítimo de Sesimbra. (imagem Victor Oliveira https://www.flickr.com/people/21446942@N00 )
A praia, vista da Fortaleza de Santiago, onde hoje está instalado o Museu Marítimo de Sesimbra. (imagem Victor Oliveira )

Um conjunto de mais do que pormenorizadas, minuciosas, maquetas explica à perfeição os diversos formatos da pesca local, de outrora até à atualidade. Os diferentes barcos, as diferentes redes, com as diversas malhas, e sobretudo as diferentes disposições e geometrias que as redes assumem, desde a superfície até ao fundo. Numas tantas vitrines são expostos exemplares raros e antiquíssimos de artefactos.

Em frente de uma delas, um casal parou solene, perante um anzol com alguma dimensão, e que uma etiqueta explica tratar-se de um dos exemplares mais antigos de que há memória, datado de 2500 a.C.

Os anzóis evoluíram pouco desde aquele tempo

Oiço dizer a senhora, numa observação que é um convite explicito a uma segunda opinião.

Quando acabo de contornar a vitrina, e me dirijo a outra sala, ainda vou a tempo de ouvir a conclusão do senhor.

E a inteligência dos peixes ainda menos

Deixo semelhantes conjeturas para os especialistas, e dirijo-me a um dos equipamentos mais importantes do museu, e que consiste no tratamento informático dado pelo museu aos documentos de identificação dos pescadores, ou outros marítimos, da terra, sendo possível desta maneira ter uma visão panorâmica da saga de famílias inteiras, que através de gerações, labutaram naquele mar, e ajudaram de sobremaneira a construir Sesimbra, com as suas grandezas e tragédias.

E depois, claro, como em todos os museus com esta temática, a sala dos ex-votos, onde pinturas com tanto de piedoso como de ingénuo, registam o momento em que embarcações não foram tragadas por ondas maiores do que a Serra da Estrela, pela intervenção divina de última hora.

O dramatismo é tamanho, que ficamos convictos que aquela gente, uma vez salva, assim que se apanhou com os pés em terra firme, deu as costas ao mar, fez-se à terra, e pôs-se a caminho, só parando do lado de lá da grande muralha da China.

Saio para o enorme átrio da fortaleza, subo a uma simpática esplanada, peço um uísque cortado com água da torneira, e fico a olhar para o dia a acabar para ocidente, por detrás do Cabo, mas com luz suficiente para ainda vislumbrar o nosso veleiro cheio de galhardia e panache, a ondular ao sabor das suas várias amarrações.

Chegada a Sesimbra duma regata de veleiros de cruzeiro (imagem João Teixeira, do blog lisbonsouthbayblog)
Chegada a Sesimbra duma regata de veleiros de cruzeiro (imagem João Teixeira, do blog lisbonsouthbayblog)

Há veleiros ainda a entrar, tão atrasados que talvez ainda sejam da regata do ano passado, ou então meteram-se por um beco e tiveram que voltar para trás, enquanto traineiras de diferentes silhuetas zarpam em contínuo, e singram as águas cada vez mais douradas pela poalha de sol poente.

Fico a pensar que o caso de Sesimbra não é vulgar na nossa costa, onde uma náutica de recreio de excelente qualidade, convive com aquele que é simplesmente o maior porto de pesca do país.

Na maioria dos outros portos, a importância e qualidade do recreio é inversamente proporcional à da pesca. Onde esta é relevante aquele é insignificante e vice-versa.

Peço ao Criador que os das traineiras tenham uma boa faina, e que os dos veleiros ainda encontrem uma malga de caldo verde quente. Neste último caso, se calhar não é necessário ir tão alto, porque a organização do clube provavelmente tratou de tudo.

E com isto, e mais o efeito do uísque, constato que estou com fome, no exato momento em que a noite acabou de absorver o volume do promontório em frente.

Regresso à marginal, para o delicioso prazer de escolher um restaurante, e mentalmente uma ementa.

Passo por vitrinas repletas de peixes magníficos, de diversos tamanhos, cores e formatos, encharcados em frescura, acabada de escorrer de uma tela de Henri Fantin-Latour.

E de repente estou agarrado ao canto de uma mesa simpática, perto de uma parede que exibe um cartaz engraçado que anuncia que Sesimbra é peixe.

Então deixo-me sentar prazeroso no espaço restante da mesa, e ficar à mercê de um empregado que gentilmente pergunta o que é que vou comer.

E naquela altura não posso deixar de pensar numa velha piada que circulava na noite de Nova Iorque, há uns bons anos atrás, passada num restaurante grego famosíssimo, tido por ter o melhor peixe do mundo.

Um cliente senta-se e pergunta ao empregado, o que é que se podia jantar.

— Tudo o que nadar no mar

Respondeu o empregado.

— Então, disse o cliente, traga-me a Ester Williams

Mas eu acabo por pedir três salmonetes.

Esther Jane Williams (Inglewood, 8 de agosto de 1921 — Beverly Hills, 6 de junho de 2013), nadadora de competição e atriz norte-americana, famosa pelas cenas em piscina e no mar. (imagem do filme Bathing Beauty, 1944, Metro-Goldwyn-Mayer Studios)
Esther Jane Williams (Inglewood, 8 de agosto de 1921 — Beverly Hills, 6 de junho de 2013), nadadora de competição e atriz norte-americana, famosa pelas cenas em piscina e no mar. (imagem do filme Bathing Beauty, 1944, Metro-Goldwyn-Mayer Studios)
Artur Manuel Pires

Artur Manuel R.N.Pires (Luanda, Maio, 1955), Engenheiro de Minas pelo IST, consultor de engenharia em gabinetes nacionais, na multinacional DHV e, actualmente, Chefe da Divisão dos portos de Setúbal e Sesimbra.

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