Etiqueta

Açores

Browsing

Foi planando as ondas, que o robot marinho cumpriu o extraordinário feito de navegar sozinho mais de 2.000 milhas náuticas (3.704 kms)

Combinando a monitorização marítima tradicional com tecnologias de ponta, o projeto iFADO (Innovation in the Framework of the Atlantic Deep Ocean), é um projeto europeu cofinanciado pelo programa INTERREG Espaço Atlântico, composto por um consórcio de 12 parceiros de cinco países, a saber Portugal ((Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Universidade da Madeira, Fundo Regional para a Ciência e a Tecnologia e Instituto Português do Mar e da Atmosfera), Espanha (Instituto Español de Oceanografía e Plataforma Oceánica de Canarias), França (NOVELTIS e Pole Mer Bretagne Atlantique), do Reino Unido (Plymouth Marine Laboratory e Natural Environment Research) e da Irlanda (Marine Institute).

O WaveGlider da PLOCAN, na Horta, pronto para ser lançado na sua última missão. (imagem PLOCAN)
O WaveGlider da PLOCAN, na Horta, pronto para ser lançado na sua última missão. (imagem PLOCAN)

O consórcio internacional, liderado pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, tem, para a totalidade dos 54 meses de duração do projeto,  um orçamento de 3,6 milhões de euros para desenvolver trabalhos de pesquisa e investigação, tendo em vista a facilitação do surgimento de novos produtos, serviços e processos.

Os trabalhos científicos envolvem a utilização de tecnologias de ponta, nomeadamente a deteção remota, a modelação numérica e o emprego de plataformas emergentes de observação autónomas (por exemplo, veículos autónomos e boias oceânicas), para demonstrar a sua aplicação em produtos inovadores com impacto na implementação da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha (DQEM).

A cidade da Horta, sede do DOP e da OKEANOS da FCT da UAc (imagem de jacqueline macou por Pixabay)
A cidade da Horta, sede do DOP e da OKEANOS da FCT da UAc (imagem de jacqueline macou por Pixabay)

Sozinho, 57 dias no mar à escuta das baleias

Planando as ondas, a uma velocidade máxima de 3,6 km/h e mínima de 0,1 Km/h, o robot marinho cumpriu o extraordinário feito de navegar sozinho mais de 2.000 milhas náuticas entre as ilhas do Faial, nos Açores e Gran Canaria, nas Canárias.

O robot, um veículo de superfície não tripulado (USV) modelo WaveGlider, da Liquid Robotics (Boeing), foi equipado com um conjunto de sensores meteorológicos e oceanográficos, no âmbito do projeto iFADO, com os quais obteve variáveis ​​meteorológicas e oceanográficas.

Um mergulhador nada com o propulsor do Waveglider (Gif do filme da Liquid Robotics)
Um mergulhador nada com o propulsor do Waveglider (Gif do filme da Liquid Robotics)

Adicionalmente, foi-lhe instalado um sistema monitorização acústica passiva incorporado por uma equipa da Universidade do Algarve, possibilitando a recolha do ruído ambiente marinho, em especial registar os sinais acústicos dos grandes mamíferos marinhos, contribuindo assim para um melhor conhecimento dos comportamentos dos cetáceos no Oceano Atlântico, particularmente na região da Macaronésia.

O WaveGlider foi recolhido no passado dia 9 de janeiro de 2020, após 57 dias de navegação autónoma no imenso espaço que medeia entre os Açores e as Canárias, no âmbito de colaboração entre os projetos europeus iFADO e JONAS (Joint Framework for Ocean Noise in the Atlantic Seas).

Imagem do WaveGlider durante a sua recuperação no passado 9 de Janeiro de 2020 a frente da costa de Gran Canaria. (imagem PLOCAN)
Imagem do WaveGlider durante a sua recuperação no passado 9 de Janeiro de 2020 a frente da costa de Gran Canaria. (imagem PLOCAN)

A PLOCAN, uma entidade fundamental para a investigação marinha na Macaronésia

O WaveGlider, pertence à PLOCAN – Plataforma Oceánica de Canarias (Espanha), um consórcio público espanhol, criado em 2007 entre o Ministério da Ciência, Inovação e Universidades do governo de Espanha, e o Governo da Comunidade Autónoma das Ilhas Canárias, com o objetivo de construir, equipar e operar um conjunto de infra-estruturas marinhas para pesquisa no campo das ciências e tecnologias marinhas. A PLOCAN tem neste momento oito veículos autónomos, sendo quatro Gliders (planadores submarinos), dois USV’s (Veículos de superfície não tripulados) e dois ROV’s (veículos submarinos de operação remota).

O laboratório offshore da PLOCAN, está assente no fundo, a uma cota de 30,5 m de profundidade, numa posição a cerca de 0.5 milhas náuticas da costa noroeste da ilha de Gran Canária. (imagens PLOCAN)
O laboratório offshore da PLOCAN, está assente no fundo, a uma cota de 30,5 m de profundidade, numa posição a cerca de 0.5 milhas náuticas da costa noroeste da ilha de Gran Canária. (imagens PLOCAN)

Esta missão tratou-se da mais ambiciosa do projeto em termos de distância percorrida, e a sua rota foi otimizada utilizando previsões de correntes marinhas fornecidas pela Universidade de Lisboa, através do Instituto Superior Técnico.

De referir a possibilidade de qualquer interessado, seja investigador ou um mero curioso da ciência, poder aceder em tempo quase real à posição do veículo, rota percorrida e dados científicos recolhidos, através do sítio na internet.

Esquema detalhado dum Wave Glider da Liquid Robotics.
Esquema detalhado dum Wave Glider da Liquid Robotics.

40 mergulhos aos 1.000 metros de 6 em 6 quilómetros

Enquanto o WaveGlider era recolhido em Las Palmas, um outro veículo, desta feita um planador submarino modelo Slocum, propriedade do Marine Institute (Irlanda), era lançado ao largo do Porto da Horta (Faial), com o apoio da lancha RV (Research Vessel) ÁGUAS VIVAS e do navio RV ARQUIPÉLAGO, ambos da Universidade dos Açores. Esta missão do Glider Slocum, manteve-o 15 dias no mar até ser recuperado ao largo da ilha do Faial, em fevereiro, contabilizando de 250 km percorridos e mais de 40 mergulhos profundos, nos quais registou informações sobre temperatura, salinidade e correntes do oceano, que transmitiu para terra através de comunicações por satélite em tempo real nas fases que passava junto à superfície, após e antes de cada mergulho.

A embarcação pesquisas da Universidade dos Açores, RV ÁGUAS VIVAS, e o UUV Slocum na costa sul da Ilha do Faial no dia 23 de Outubro de 2019 (Fonte Luís Sebastião – ISTISR-Lisboa)
A embarcação pesquisas da Universidade dos Açores, RV ÁGUAS VIVAS, e o UUV Slocum na costa sul da Ilha do Faial  (Fonte Luís Sebastião – ISTISR-Lisboa)

Duas missões de elevado valor científico

Estas missões de monitorização foram realizadas no âmbito da 5ª Reunião de Consórcio do projeto iFADO, realizada na Horta (Faial) e organizada localmente pelo Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia (FRCT). Alem do valor intrínseco dos dados obtidos que serviram para avaliar o estado das águas, pretende-se por meio destas missões demonstrar a capacidade de se monitorizarem as águas da Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias) com tecnologias emergentes e valorizar a cooperação internacional para se obter uma monitorização efetiva da região Atlântica Europeia. A realização das missões acima descritas contou com a participação de equipas portuguesas, espanholas e irlandesas. Ambas as missões tiveram a contribuição de diversas entidades dos Açores, as quais estiveram envolvidas durante o planeamento, comunicação e realização desta atividade. Nesse sentido, a equipa do projeto iFADO agradece a colaboração do IMAR – Instituto do Mar, Observatório do Mar dos Açores, Portos dos Açores S.A. e Capitania do Porto da Horta.

Francisco Campuzano, Project Manager do iFADO, fala a uma plateia de estudantes faialenses (imagem OMA)
Francisco Campuzano, Project Manager do iFADO, fala a uma plateia de estudantes faialenses (imagem OMA)

Mensagens dos jovens faialenses para o fundo do mar

É importante referir que na véspera do lançamento do planador Slocum, este veículo foi exibido ao público no Terminal Marítimo do Porto da Horta. Esta atividade foi bastante entusiasmante para alunos de uma escola da Horta, os quais tiveram a oportunidade de interagir com os membros da equipa do projeto iFADO, além de assistir a vários vídeos sobre operações e missões de planadores. Finalmente, e para alegria dos alunos, eles foram autorizados a deixar mensagens escritas no planador.

O Slocum SCARLET NIGHT, em exibição no Museu Smithonian de História Natural, em Whashington (imagem João Gonçalves)
O Slocum SCARLET NIGHT, em exibição no Museu Smithonian de História Natural, em Whashington (imagem João Gonçalves)

O planador Slocum e o primeiro navegador solitário

Foi no mês de dezembro ano de 2009, 221 dias e 4.600 milhas após ter largado de New Jersey (EUA) que o SCARLET NIGHT ou RU27 foi recolhido ao largo de Baiona, Espanha, completando a primeira travessia submarina autónoma do Atlântico. O RU27 (RU de Rutgers University) foi o segundo Glider a tentar esta façanha, o primeiro, o RU17 perdeu-se ao largo dos Açores, após um incidente violento, que se suspeita ter sido um ataque dum animal marinho. O sucesso do SCARLET NIGHT abriu caminho para uma nova era de exploração e monitorização dos oceanos, com drones marinhos de baixo custo, possibilitando uma melhor avaliação e entendimento do nosso ambiente marítimo e das alterações climáticas.

A chalupa SPRAY, de 11,20 metros de comprimento, que Joshua Slocum adaptou para solitário. Foto tirada em 1898 (fonte Wikimedia commons)
A chalupa SPRAY, de 11,20 metros de comprimento, que Joshua Slocum adaptou para solitário. Foto tirada em 1898 (fonte Wikimedia commons)

Um Slocum, é um veículo submarino não tripulado (UUV), que plana, ora subindo ora descendo, realizando perfis verticais entre a superfície e profundidades programadas que podem ir até aos 1.000 metros. Nesse movimento vai recolhendo dados oceanográficos (por exemplo condutividade, temperatura, profundidade, fluorescência, turbidez e oxigénio dissolvido). Foi concebido pelos investigadores norte-americanos Douglas C. Webb e Henry Stommel , do Woods Hole Oceanographic Institution, no Massachussets. O seu nome é inspirado no primeiro navegador a dar a volta ao Mundo em solitário,  Joshua Slocum, entre 1895 e 1898.