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Armada Portuguesa

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No dia 5 de Maio de 1897 Carlos saboreava a brisa de Sesimbra, no mar calmo onde tinham lançado ferro, mesmo em frente à vila.

Céu limpo, vento noroeste regular, mar pouco agitado

…escreveu no diário de bordo.

Era filho de um marinheiro, neto de uma carioca, e rei de Portugal.

Devia sentir-se tão agradado, que pintou a vila ali mesmo à sua frente, para com ela ilustrar a entrada daquele dia do diário do Iate AMÉLIA, em plena campanha oceanográfica. Outras aguarelas marinhas pintadas pelo monarca iriam embelezar ementas servidas a bordo, para uns tantos eleitos como íntimos, ou intimas, ou para as tripulações, onde avultava a oficialidade ilustre da Armada Portuguesa, como Roberto Ivens, Serpa Pimentel, Pinto Basto ou Hugo O’Neill.

Sesimbra, ou melhor Cezimbra, pintada pelo punho de aguarela do Rei, no Diário de Bordo do Yacht Amélia. (fac-simile da obra)
Sesimbra, ou melhor Cezimbra, pintada pelo punho de aguarela do Rei, no Diário de Bordo do Yacht Amélia. (fac-simile da obra)

A adorável Sissi, Raínha da Hungria, esposa do Imperador Francisco José, não iria ser apunhalada até à morte nas margens bucólicas de um lago suíço?

Quase todas as monarquias europeias, os primos, que haveriam de enterrar os seus povos nas trincheiras da terra agrícola francesa, tinham uma frota de iates, onde desfrutavam uma paixão sincera pelo mar e a segurança do tabuado dos seus conveses, entre os seus, escolhidos a dedo, longe do empedrado das ruas das cidades, onde era moda abater cabeças coroadas. E não apenas nas urbes turbulentas e cosmopolitas. A adorável Sissi, Raínha da Hungria, esposa do Imperador Francisco José, não iria ser apunhalada até à morte nas margens bucólicas de um lago suíço? Utilizavam as embarcações em regatas, campanhas oceanográficas, ou para simples passeios familiares. Ou ainda para, de acordo com a imprensa sensacionalista da época, promoverem encontros inconfessáveis.

Ilustração de um trachypterusrei (rei-dos-arenques), por Carlos de Bragança. Biblioteca do Museu Oceanográfico D. Carlos I, Aquário Vasco da Gama
Ilustração de um trachypterusrei (rei-dos-arenques), por Carlos de Bragança. Biblioteca do Museu Oceanográfico D. Carlos I, Aquário Vasco da Gama

Mais ao menos por essa altura o Príncipe Alberto do Mónaco, com os sucessivos HIRONDELLE e PRINCESSE ALICE, tinha dado um impulso extraordinário à oceanografia, através de uma acção combinada de trabalhos de campo e investigação em aquários.

Carlos ia fazer algo de semelhante com o Aquário Vasco da Gama, em Algés, e depois com a Estação de Biologia Marítima, que o monarca ansiou instalar no Forte de Albarquel em Setúbal.

 O aquário Vasco da Gama, em Algés (foto Vitor Oliveira, Flickr)
O aquário Vasco da Gama, em Algés (foto Vitor Oliveira, Flickr)

Uma das características da frota, era a adopção de um nome de baptismo, que depois era repetido em ordem crescente de numeração, à medida que as embarcações eram substituídas por outras mais sofisticadas. Em 1897 tratava-se do AMÉLIA II, assim baptizado em honra da Rainha, a Senhora D. Amélia de Orleães e Bragança, e o segundo de uma série de quatro. Tinha uma tripulação de trinta homens, contando já com o Monarca ao comando; dois oficiais, catorze marinheiros, um mestre, um contramestre, dois mecânicos, cinco fogueiros, um cozinheiro, dois criados, e Mr. Albert Girard, o naturalista. O AMÉLIA IV já seria comandado por um Capitão-de-mar-e-guerra.

O Yacht AMÉLIA fundeado em Sesimbra, muito provavelmente em 1897.(Blog Restos de Colecção)
O Yacht AMÉLIA II fundeado em Sesimbra, muito provavelmente em 1897.(Blog Restos de Colecção)

Alguns anos depois, na tarde calma de 28 de Junho de 1914, uma baleeira dirigiu-se ao iate METEOR V, propriedade do Imperador da Alemanha, Wilhelm II, e a participar em regatas na baía de Kiel, para entregar ao Kaiser uma caixa de charutos com uma mensagem acabada de receber pelo telegrafista. Em duas linhas, a mensagem informava que

o Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do império Austro-Húngaro tinha sido assassinado em Sarajevo.

Os dias bons da belle époque estavam a acabar. Como aconteceu com Carlos, em frente a Sesimbra. Daí a dias levantaram ferro, e D. Carlos separou-se da sua adorada colecção de conchas. Deixou de caçar e folgar cabos, e o AMÉLIA rumou a Lisboa, às Necessidades, ao seu gabinete, onde a única coisa que lhe dava verdadeiro prazer era uma pequena estatueta em bronze do seu grande amigo Eça de Queirós, e aos enfadonhos, complexos e perigosos assuntos de Estado. Separaram-se naquela Primavera aprazível.

D. Carlos e alguns companheiros, escolhendo exemplares a bordo do Yacht AMÉLIA  (foto arquivo do Museu de Marinha)
D. Carlos e alguns companheiros, escolhendo exemplares a bordo do Yacht AMÉLIA  (foto arquivo do Museu de Marinha)

Sesimbra continuou a ter o melhor peixe do mundo e a vila conservou toda a sua beleza, mais tarde acrescentada por um porto que parece saído de um conto de Robert Louis Stevenson, Corto Maltese ou Pierre Loti, tudo debaixo de um céu azul, claro de dia, e escuro de noite.

Carlos enfronhou-se na governação do reino, refém de partidos onde ninguém gostava de ninguém. As coisas complicaram-se, e agudizaram-se ao ponto de no dia 1 de Fevereiro de 1908 (outra vez céu limpo), nas arcadas do Terreiro do Paço, e no meio de uma daquelas ruas que os Monarcas receavam, D. Carlos ser assassinado a tiros.

D. Carlos de Bragança.
D. Carlos de Bragança.

Existem diversas descrições daquele momento, e nem todas coincidentes, e por isso é legítimo acrescentar mais uma, segundo a qual Carlos antes de morrer teria sentido por uma última vez a brisa de Sesimbra, onde tinha sido feliz, seguro entre os que lhe eram fiéis, no convés do seu navio.