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Caça à baleia

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A cultura baleeira é um dos traços identitários do imaginário conceptual açoriano.

Emerge de intrincadas relações, dentro das ilhas e fora do arquipélago. Representa ligações antigas, profundas e complexas dos homens com o oceano e com os gigantes do mar. Esta relevância sociocultural institucionalizou-se em legislação própria, que promove o estudo, preservação, recuperação, utilização e divulgação deste legado singular.

Foi neste contexto que a Comissão Consultiva do Património Baleeiro Regional, entidade ligada ao Museu do Pico, aprovou recentemente uma proposta apresentada pela ACBBA – Associação de Classe do Bote Baleeiro Açoriano para a classificação de um bote açoriano como património baleeiro regional. A formalização junto da Direção Regional da Cultura iniciará um processo de restauro da embarcação no âmbito do Programa de Recuperação do Património Baleeiro, com o objetivo de ser exposta e, sobretudo, voltar ao mar para ser usada em regatas.

Exposição do bote no Museu Marineland (D.R.)
Exposição do bote no Museu Marineland (D.R.)

A proposta de classificação apresentada pela ACBBA foi inovadora. Assentou num parecer inequívoco da autoria do Prof. Doutor Rui Sousa Martins, cujo fundamento salientou o seu imenso valor imaterial, destacando uma nova ligação transcultural com França, sabendo que a baleação nos Açores está sobretudo ligada ao outro lado do Oceano Atlântico, à América do Norte.

O percurso social do bote levou-o dos Açores a França, e de França de novo aos Açores. Começou em 1973, quando dois botes baleeiros da Horta, ilha do Faial, foram vendidos para o Parc de la Mer Marineland, em Antibes, Riviera francesa. Lá, integrou a maior coleção privada de artefactos e cultura marítima da Europa pertencente a Roland de la Poype, um herói da Segunda Guerra Mundial e mais tarde industrial de sucesso.

Roland de La Poype em 1945, herói da 2 GG e em 2002 a receber a Grã-Cruz da Legião de Honra (imagens Ministère des Armées)
Roland de La Poype em 1945, herói da 2 GG e em 2002 a receber a Grã-Cruz da Legião de Honra (imagens Ministère des Armées)

Este parque temático, vocacionado para a zoologia marinha e atividades lúdicas aquáticas, adquiriu os dois botes à empresa Bensaúde & Compª, nomeadamente o “Veloz” – H46B, de 1903 e o “Gazela” – H50B, de 1904. O parque Marineland foi vendido pelo seu fundador em 2006 a uma multinacional espanhola, mas a sua coleção marítima, incluindo o bote, manteve-se na posse de Roland de la Poype até à sua morte em 2012. Três anos mais tarde, o museu foi encerrado na sequência de graves inundações. Os herdeiros colocaram o espólio à venda num leilão realizado na vizinha cidade de Cannes, onde um francês apaixonado pelos Açores e residente em Vila Franca do Campo adquiriu o bote em 2017.

O bote em França, na complexa operação de retirada das instalações do museu, em Novembro 2017 (D.R.)
O bote em França, na complexa operação de retirada das instalações do museu, em Novembro 2017 (D.R.)

Com o apoio da ACBBA – Associação de Classe do Bote Baleeiro Açoriano, conseguiu-se trazê-lo para Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel.

Conforme refere o parecer do Doutor Rui Sousa Martins, “neste processo transcultural franco–açoriano, as narrativas dos atores sociais envolvidos atribuíram ao bote um novo valor patrimonial, de caráter afetivo, vinculado à baleação histórica açoriana e a práticas de navegação pedagógicas e turísticas, em embarcação baleeira”. É este o facto que justifica a sua classificação como património baleeiro regional.

A Associação levou a cabo um extenso trabalho de caracterização do bote, da sua história e dos seus elementos construtivos, que incluiu um levantamento fotográfico orientado pela artista Andrea Santolaya, a análise técnica das madeiras e construção pelo mestre carpinteiro naval vilafranquense José de Melo, e o estudo cromático e de conservação pelo restaurador David Silva, tudo compilado num dossier entregue ao Museu dos Baleeiros.

José de Melo, mestre carpinteiro naval vilafranquense. fazendo análise técnica das madeiras e da construção do bote (imagem ACBBA)
José de Melo, mestre carpinteiro naval vilafranquense. fazendo análise técnica das madeiras e da construção do bote (imagem ACBBA)

A ACBBA, com sede em Vila Franca do Campo, destaca a unanimidade da votação da sua proposta na Comissão do Património Baleeiro, facto que atesta que a cultura baleeira e a sua gestão patrimonial são prioridades assumidas e partilhadas pelas diversas entidades ali representadas. Destacou também o apoio do Museu dos Baleeiros. O bote está desde 2018 em Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, propriedade de Alain Braud, que é membro da Associação de Classe do Bote Baleeiro Açoriano. Culminam três anos de intenso trabalho de pesquisa histórica que valoriza a Cultura Baleeira dos Açores, que une todos os Açorianos e enriquece o sistema identitário insular.

Nota da redação: para melhor conhecimento dos nossos leitores de todo este processo levado a cabo pela ACBBA, em Vila Franca do Campo, disponibilizamos a MEMÓRIA DESCRITIVA e o PARECER DA UNIVERSIDADE DOS AÇORES.