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Canal do Suez

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À primeira luz do dia, ergueu a picareta quase completamente ao alto, e enterrou-a fundo na terra seca e dura do deserto, para abrir uma vala.

Ao final da tarde, com o sol a entrar no ocaso, nos bazares de Alexandria, já se sabia que se tratava de um canal.

E a meio da noite, nos boulevards de Paris, sob o céu estrelado da Primavera, corria a notícia de que tinha começado o Canal do Suez.

«Aquele que consistia essencialmente numa brecha aberta no deserto com pouco mais de 165 quilómetros» – Carta Geográfica Alemã de 1914

Aquele que consistia essencialmente numa brecha aberta no deserto com pouco mais de 165 quilómetros de comprimento, 50 metros de largura, e 8 de profundidade, ligando as cidades de Port Said no Mediterrâneo e Suez no Mar Vermelho, e que permitia encurtar a viagem para a Índia em sete mil quilómetros, era o mesmo que seria inaugurado dez anos depois, na presença de um grupo reduzido e escolhido de convidados do mundo inteiro, de onde fazia parte o grande Eça de Queiroz.

A dezassete de novembro de mil oitocentos e sessenta e nove, há cento e cinquenta anos, portanto, José Maria Eça de Queiroz apontou no seu caderninho de notas, aquilo que observou e registou, e que nós pudemos ler na edição do Diário de Notícias de dezoito de janeiro do ano seguinte:

Mas naquele dia 17, da inauguração, Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da Europa, cheias de flâmulas, de arcos, de flores, de música, de cafés improvisados, de barracas de acampamento, de uniformes, tinha um belo e poderoso aspeto da vida. A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas.

 

Port Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo ruidoso dos tiros dos canhões e dos urras da marinhagemAs festas prosseguiram, e felizmente para nós, também as crónicas, publicadas nos três números do jornal dos dias seguintes, ou seja, ao todo entre 18 e 21 de janeiro de 1870.

Hoje podem ser lidas nos diversos formatos que os editores encontraram para nos vender o mesmo artigo sob diversos nomes, mas que são sempre fonte de enorme prazer:

Aconteceu no Egipto, O Canal, À sombra das pirâmides, Entre beduínos e paxás, Tâmaras versus cerejas, etc., etc.

Eça flanou por entre ruelas de pedras anteriores ao nosso calendário, cortou o deserto, viu as mesmas estrelas que os Reis Magos, e observou a política local, escrevendo sempre a favor do povo da terra. Até que…

Na Primavera de 1869, estávamos uma tarde – o Antero de Quental e eu – na casa que então habitávamos a São Pedro de Alcântara, quando entrou o Eça de Queiroz que chegara, havia pouco, do Oriente, e ainda não víramos.

Esta descrição que Jaime Batalha Reis faz na introdução da obra Prosas Bárbaras (Lello & Irmão – Editores Porto) de Eça de Queiroz, nem por aquele ligeiro erro, porque na Primavera de 1869 Eça ainda estava a preparar a viagem, deixa de ser menos maravilhosa.

Ao tempo, Batalha Reis e Antero de Quental habitavam numa sobreloja que dava para o Jardim São Pedro de Alcântara, muito próximo do Convento do mesmo nome, e a narrativa prossegue, e extraímos dela pedaços de prosa, não bárbara, mas requintada.

Rua de São Pedro de Alcântara vendo-se a entrada para o convento. (Arquivo da CML)

Seguiu-se a enorme novidade, que a partir daqui, ficaria para sempre associada à figura do genial escritor.

O jovem Eça de Queiroz, em 1869 tinha 25 anos

E olhava-nos com um monóculo que estava sempre a cair e que ele, por isso, abrindo a boca em esgares sarcásticos, amiúde reentalava.

Depois o melhor, que todos aguardavam, incluindo o próprio personagem inesquecível.

Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos tipos, cenas nos bazares do Cairo, no deserto egípcio, os guias, os xeques, e à noite, em volta das fogueiras, os camelos, “de expressão humorística, sorrindo ironicamente”, e alongando as cabeças para escutar o narrador, por sobre os ombros dos beduínos atentos, graves e encruzados.

O tempo suspenso em paragens longínquas, mas sempre para escutar o narrador.

Ouvimo-lo toda aquela tarde, fomos jantar com ele – não o podíamos largar.

E quando finalmente o deixaram, espalhados no chão, não tenho dúvidas, havia grãos de areia, restos daquele dia dezassete passado a oriente próximo.

A casa de chá Khan el-Khalili no Cairo, ca 1880 (foto de Sebah Pascal)

Artur Manuel Pires, na Primavera de dois mil e dezanove, cento e cinquenta anos depois, portanto.