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Cituci

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Mas o reino do Uganda é um conto de fadas. Não é preciso subir por um feijoeiro para se descobrir um mundo de sonho: basta percorrer uma via férrea.  (Wiston Churchill, My African Journey)

Cituci era um tipo de cigarros, mais ou menos manhosos que chegavam baratos e abundantes às tropas britânicas estacionadas no Egipto, e no restante Norte de África, por alturas do conflito da segunda guerra mundial, vindos da África do Sul.

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maço de cigarros “C to C”, tabaco Virginia

Foi quanto bastou para os seus felizes (comparados com os desgraçados que fumavam os dedos) fumadores, lhes começarem a chamar de imediato cituci.

Cituci, no linguajar expedito das tropas, e até no pubs londrinos onde chegavam, C To C, do maço de cigarros, ou nem mais nem menos do que o pomposo projecto imperial britânico, Cape to Cairo.

Ou do Cairo ao Cabo, como era conhecido pelos nossos gabinetes imperiais, e de tão má memória para uma data de povos que se atreveram a atravancar este quase desígnio inglês, apanhados a meio dele, como foi o caso português com o episódio do mapa cor-de-rosa, ou os franceses com o episódio de Fachoda.

O lado oriental africano, exprime o choque entre a ancestralidade do mundo árabe, tão profundamente diverso, oscilando entre tribalismo e cosmopolitismo, e a quase contemporaneidade e uniformidade do império britânico.

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Cartoon de 1892 “O colosso de Rhodes”, alusivo aos planos do empresário britânico da África do Sul, de construitr uma linha férrea do Cabo ao Cairo.

Os ingleses, quando no final do século XVIII, empreendem a sua visão oriental do ultramar, centrada nesse imenso farol que era a Índia, dirigiram os seus interesses para toda a faixa de África banhada pelo Indico, a qual constituiria simultaneamente um cordão sanitário aos interesses de outros no sub continente indiano, e uma linha lógica e coerente da gestão do Império,  quase tão real como o meridiano de Greenwich, e que uniria os interesses ingleses desde o Egipto, à beira do Mediterrâneo, até ao extremo de África, na confluência dos dois oceanos, o Atlântico e o Índico, tudo subordinado ao britannia rules.

Algures a meio caminho, ficava um território muito importante, administrado pela Companhia Imperial Britânica da África Oriental, a Imperial British East Africa Company (IBEAC), percursora do que seria o Protetorado Oriental, mais tarde o Quénia, e tendo como centro o porto de Mombaça. A instituição seria fundada em 1885, no rescaldo da Conferência de Berlim, e três anos mais tarde incorporada aos vastos domínios da Augusta Rainha Vitória.

Este território, localizado quase a meio da costa oriental, e tão central quanto pode ser um território assente em cima da linha do Equador, seria palco de grande efervescência politica e militar, porque na sua influência ficava o Nilo, o Sudão, e todas as extensas e elevadas terras que se estendem desde o litoral até aos grandes lagos africanos.

O projecto da IBEAC viveu substancialmente suportado por um caminho de ferro, que partindo do litoral, colocasse em contacto o oceano com o interior de África. Ou pelo menos o Quénia com o Uganda.

Assim em 1896 iniciou-se a construção desta linha, que ao fim de cinco anos, em 1901, conseguiu unir o porto e a cidade de Mombaça, com a cidade de Kisumo, a 1200 metros, à beira do Lago Vitória, ambas no Quénia, mas à custa de peripécias tais, que o projecto ficou universalmente conhecido como Lunatic Express, ou como apareceu na imprensa portuguesa da época, linha lunática.

Finalmente em Maio do ano passado, uma outra linha conseguiu unir Mombaça a Nairobi, um projecto de cerca de 430 quilómetros acidentados, com um custo aproximado de 3000 milhões de dólares, fortissimamente financiado pela China, e que prevê a extensão ao Uganda, Ruanda, Borundi e Sudão do Sul.

Toda esta movimentação articulada, vem reforçar o papel de Mombaça, como o grande porto da África Oriental.

Paradoxalmente, seria nesta região do império, bem estruturada politica e administrativamente, que os ingleses iriam deparar com o seu único problema de conflito armado no decorrer do processo de descolonização.

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Visita de cHurchil às tropas no Norte de África, Agosto de 1942

Winston Churchill em Londres, e Jomo Kenyatta, um kikuyu, iriam envolver-se numa guerra sangrenta, entre tropas inglesas e o movimento dos MauMau, de 1952 a 56, e que apenas seria resolvido em 1960, com a independência do país em 1963, negociado pelos gabinetes conservadores que se seguiram ao Velho Leão.

De tudo isto, hoje restam registos, tradições e práticas, como o diálogo em inglês petrificado (literalmente !) travado entre os grandes vultos do império britânico, num canto de um jardim indiano, para onde foram enviados pelas autoridades da União Indiana, depois de serem apeados dos dos seus pedestais, outrora disseminados pelo Raj Britânico.

Mas a memória dos povos não se faz unicamente de materiais sólidos, como o mármore da estatuária ou o ferro das construções, mas de símbolos bem menos corpóreos, mas nem por isso menos perenes.

Como, a forma de guiar.

Em África, como toda a gente sabe, guia-se sobretudo ao meio, pelo centro da estrada, e com uma ligeira tendência para se guiar por um ou por outro lado, consoante a tradição colonial do país em questão.

Assim, para que os ingleses conduzissem ao longo da sua auto estrada que se estendia do Cairo ao Cabo, ao longo de 7 500 quilómetros, como conduziam em Londres, o trânsito circulava pela esquerda. Até em Moçambique.

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maço de cigarros “C to C”, tabaco mistura turca

Mas quem hoje lá for, àquele belíssimo país, é bom estar atento ao atravessar as ruas, porque vai reparar que já não se atribui tanta importância a este tipo de pormenores.

Ou ainda com meros artefactos, como os nossos amáveis cituci, os singelos maços de cigarros, atualmente disputados por colecionadores ávidos, e que primam pela simplicidade da imagem, de um grafismo escorreito, gravemente ascético: C To C.