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Há já alguns anos que me venho debruçando sobre a temática dos barcos rabelos e acompanhando toda a polémica em torno do estaleiro que ainda os constrói e repara, situado junto da Ribeira de Vila Nova de Gaia, próximo do convento de Corpus Christi.

Curiosamente, este estaleiro situa-se próximo do local onde outrora existiu um outro estaleiro no qual se construíram naus e, facto interessante, quando a quantidade de naus a construir ultrapassava a capacidade do equipamento, recorria-se à cerca do convento de Corpus Christi. A autorização de ocupação era concedida pelas freiras da comunidade com a condição de, quando tal ocupação se tornasse desnecessária, repor a área ocupada nas condições anteriores.

Foi-me contado por um colega e amigo, que foi arquitecto na Câmara de Gaia que, quando das obras de remodelação do edifício para o adaptar para novas funções, fizeram-se escavações no terreno com vista a detectar eventuais vestígios da sua ocupação como estaleiro. Eis-nos, portanto, perante indícios que nos apontam, não apenas para a antiguidade do uso do local para a actividade de construção naval, como também matéria interessante para os investigadores. Sabe-se lá se o estaleiro da Socrenaval será o herdeiro, ou pelo menos o continuador, da estrutura na qual, em séculos passados, se construíram muitas naus!

No entanto, apesar da sua previsível antiguidade e de, modernamente, ter vindo a ser gerido, há mais de um século, por três ou quatro gerações da mesma linhagem familiar, nos últimos anos tem-se visto envolvido em lutas motivadas pelos mais diversos motivos e interesses, que tenho vindo a acompanhar pela comunicação social.

Vista do Estaleiro e do edifício do Convento de Corpus Christi (imagem da CM de VN de Gaia)
Vista do Estaleiro e do edifício do Convento de Corpus Christi (imagem da CM de VN de Gaia)

Agora, por diversas vias, chega-me o relato de mais uma ameaça que há pouco tempo se abateu sobre o estaleiro. A primeira deu-se no início deste século, quando a APDL notificou os responsáveis de que a estrutura teria que ser desmantelada pois era incompatível com as obras projectadas para o local. Sob a responsabilidade da Gaiapolis, projectava-se o alargamento da via marginal pública entre a Ribeira de Gaia e a Afurada, que depois seria prolongada até à orla costeira, assim como a instalação de um colector de águas pluviais da marginal, o que implicaria a desmontagem do estaleiro por constituir um obstáculo. Seria inconveniente, portanto, a sua permanência.

A polémica instalou-se, com argumentos e contra-argumentos, que forneceram matéria farta para a comunicação social. O bom senso acabaria por prevalecer. A obra projectada foi executada, o estaleiro ficou e pôde prosseguir a sua actividade, até hoje em paz. E digo em paz até hoje, pois nova ameaça se abateu sobre si em Janeiro deste ano de 2021.

Efectivamente, em 27 de fevereiro é recebida uma notificação da APDL, intimando ao encerramento da actividade e ao desmantelamento do estaleiro, com a consequente remoção das embarcações, estejam no estado em que estiverem, possam ou não navegar, num prazo de 15 dias. Como motivo invocado para tal intimação apresenta-se o não pagamento das taxas pela ocupação do terreno, o que está em contradição com a informação, que por outra fonte me chegou, que apontava para a pretensão de ali se instalar uma rampa de cimento para uso de autocarros anfíbios. Afinal, onde estará a verdadeira motivação para o desmantelamento do estaleiro, e com tanta pressa?

se é para ali instalar viaturas monstruosas como aquelas que já vi em Lisboa, sempre é preferível vermos a navegar no Douro a beleza rústica dos rabelos.

Procurei informar-me sobre estas matérias e o que foi dito seria que, depois de a APDL deixar de emitir facturas, foi aberta conta numa instituição bancária onde seriam depositados os montantes das taxas da ocupação do terreno ocupado pelo estaleiro, pelo que não tem pendente qualquer dívida à APDL; mas que, numa reunião com a administração desta empresa, em Outubro de 2020, esta “não se revelou profícua, com a APDL a manifestar o seu interesse numa parcela do terreno para aí desenvolver a actividade dos autocarros anfíbios”. Afinal, em que ficamos? Qual o verdadeiro motivo? Na verdade, se é para ali instalar viaturas monstruosas como aquelas que já vi em Lisboa, sempre é preferível vermos a navegar no Douro a beleza rústica dos rabelos.

Barcos Rabelos, no estaleiro da Socrenaval. Ao fundo o edifício do Convento ( imagem Fernando Paiva Leal)
Barcos Rabelo, no estaleiro da Socrenaval. Ao fundo o edifício do Convento ( imagem Fernando Paiva Leal)

Mas vamos analisar, porém e de espírito aberto, as consequências da introdução deste corpo estranho nesta artéria fundamental do turismo do Porto e Vila Nova de Gaia e o pretendido desmantelamento do estaleiro da Ribeira de Gaia e dos malefícios advenientes da introdução de algo que nada tem que ver com as tradições e o espírito portuenses.

Por exemplo: desmantela-se o estaleiro. Quem fará a manutenção dos últimos rabelos que restam no Douro, aqueles que estacionam na Ribeira de Gaia, próximos das caves do Vinho do Porto, a quem eles pertencem? A resposta é simples: ninguém! Quais as consequências? São fáceis de prever: os rabelos que restam no rio, dentro em pouco desaparecem por falta de manutenção. Desaparecidos estes, desaparecerão também as anuais regatas sanjoaninas, a maior das atracções das festas das cidades do Porto e de Gaia, com as velas dos rabelos colorindo o Douro, para gáudio dos milhares de turistas que a elas assistem ao longo das margens.

Outra pergunta: desmantelado o estaleiro, quem fará a manutenção das embarcações tipo rabelo, que navegam no Douro, pejadas de turistas? A resposta é igualmente simples: ninguém! E a conclusão será clara: dentro em poucos anos também desaparecerão, por falta de manutenção. Desaparecidas estas embarcações, desaparecem os turistas amantes deste tipo de distracção, as empresas que as exploram fecharão portas e, quem sofre as consequências, serão o turismo e as centenas de colaboradores que serão lançados no desemprego. Ficarão as avantesmas, impantes corpos estranhos introduzidos nesta artéria agora  plena de vida, completamente desinseridos do espírito e das tradições do rio Douro!

Os problemas, porém, são ainda mais. A Câmara Municipal de Gaia pretende candidatar a Património Material da Humanidade, pela UNESCO, o centro histórico da cidade, sendo o estaleiro uma das âncoras do projecto de candidatura. É compreensível que assim seja pela sua ligação à construção e reparação de barcos rabelos, as embarcações que outrora transportavam os barris do Vinho do Porto do Alto Douro Vinhateiro para as caves junto à Ribeira de Gaia. Desaparecido o estaleiro, quebra-se a tríade estaleiro — rabelos e transporte de vinho — caves de Vinho do Porto e centro histórico/Ribeira de Gaia!

Os barcos rabelos no plano inclinado do estaleiro da Socrenaval(imagem Fernado Paiva Leal)
Os barcos no plano inclinado do estaleiro da Socrenaval(imagem Fernado Paiva Leal)

Mas ainda há mais: pretendem a Câmara Municipal da Régua e a Confraria dos Vinhos do Douro fazer um projecto de candidatura do barco rabelo a Património da Humanidade, para o qual foi convidado o estaleiro da Ribeira de Gaia. Justifica-se tal convite pelo facto de este estaleiro ser o único, em todo o curso do rio Douro, capacitado para a construção e reparação de barcos rabelos nos moldes tradicionais, por aqui trabalharem os últimos calafates e carpinteiros navais artesanais, artes em vias de extinção. Se o estaleiro desaparecer, e com ele os derradeiros rabelos, o que restará para justificar a pretensão? Serão os postais ilustrados, as fotografias e os painéis de azulejos das estações ferroviárias do Pinhão, Rio Tinto ou  São Bento chamados a suportar o projecto?

Posto isto, daqui resulta a pergunta fundamental: quem assumirá a responsabilidade de inviabilizar tudo o que acima se enunciou, com a destruição de uma estrutura indispensável para manter o Douro pleno de vida e para suportar artes que, de outro modo, se perderão para sempre?

Poderá ser um lirismo de quem já viu os barcos rabelos navegarem de velas de pano-cru desfraldadas ao vento, descendo o Douro carregados de barris e subindo carregados de géneros, afrontando as águas de um rio que Miguel Torga definiu como “magro e viril” e que o mesmo Torga terá descido “de credo na boca, a saltar de sorvedouro em sorvedouro”, vê-lo de novo navegado por frotas de rabelos, novamente carregados, se bem que agora vogando num rio ”entoirido, manso, paralítico”, depois que as barragens que o domesticaram o transformaram numa sucessão de lagos de águas paradas. Mas quem os poderá construir, se o único estaleiro capacitado para o fazer tiver sido desmantelado?

Parece não ser necessário acrescentar mais nada para justificar a imprescindibilidade de se manter esta estrutura em laboração. Mais, em vez de desmantelado, deveria ser acarinhado e ser-lhe concedido um especial estatuto de estaleiro de formação, encarregado, não apenas de manter as artes tradicionais de calafate e carpinteiro naval artesanais, únicas no país, como também formar novas gerações para que estas artes não desapareçam definitivamente, e para que tanto os barcos rabelos como as embarcações tipo rabelo continuem a animar as águas do rio Douro.

Oxalá, que o bom senso prevaleça. Que assim seja!