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ilha graciosa

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Provavelmente por ser fértil nelas, uma república fez recentemente publicitar sob a forma de edital, a atribuição de uma ilha do seu domínio público marítimo, e o que mais me despertou a atenção foi uma das características anunciadas:

Rodeada de mar em abundância

As ilhas integraram desde sempre o nosso imaginário, com impressões que oscilam entre duas diferentes ancoragens: de insegurança, face ao desconhecido e ao mistério, ou pelo contrário, de segurança, assente no afastamento dos problemas, oferecido pelo mar.

Nas ilhas o que falta em terra, sobra em horizonte. E o tempo torna-se circular, aprisionado em mostradores de relógios, onde os ponteiros navegam vagarosos.

Em algumas, existem janelas de casas que abrem diretamente para o horizonte, e este é utilizado pelos proprietários das casas como se tratasse de um jardim, ou de um grande lago, onde nem sequer falta ao longe a esquadra soberba do sultão, ou apenas, mas mais maravilhosamente, um barco em demanda do seu porto.

Casas e rampa do porto de pesca de S. Roque, na ilha do Pico, Açores (imagem João Gonçalves)
Casas e rampa do porto de pesca de S. Roque, na ilha do Pico, Açores (imagem João Gonçalves)

E depois existe o deslumbramento pela beleza da maior parte delas, que leva a crer que são pedaços soltos do paraíso a boiar no meio do mar. Uns e outros, as ilhas e os pingos do paraíso, unidos pelo encanto e pelo sentimento de exclusividade, ou pelo menos de raridade. O paraíso não é para todos, é necessário merecê-lo, e o acesso à ilha depende do horário do próximo barco.

Da Ítaca, de Ulisses, à Ilha Negra de Tintin, a nossa cultura transborda de ilhas, como a de Próspero, a de Utopia, que um marinheiro português, Rafael Hitlodeu, ofereceu a Thomas More, e este ofereceu-nos a todos, juntamente com o conceito encerrado no nome, a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, a dos Amores de Camões, a da Páscoa, com suas cabeçorras pétreas, que sugerem uma entrega de encomenda mal sucedida, ou pelo contrário, uma outra qualquer encomenda que acabou por nunca ser entregue ali, a de Robinson Crusoe, as do mau tempo no canal de Vitorino Nemésio, e claro, as que enxameiam os contos de Somerset Maugham.

The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, Londres, 1719, edição original exposta na Fundação Fondation Martin Bodmer. (imagem Deniev Dagun via Wikimedia Commons)
The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, Londres, 1719, edição original exposta na Fundação Fondation Martin Bodmer. (imagem Deniev Dagun via Wikimedia Commons)

Outras bem menos prosaicas, representam a materialização de projetos mercantis ou de soberania.

Na segunda metade do século XIX até aos primeiros anos do século seguinte, a navegação a vapor, sobretudo a de longo curso, baseada na voragem de combustível para alimentar as caldeiras, necessitou de semear as suas rotas de depósitos carvão que permitissem o reabastecimento, e fornecessem autonomia às embarcações.

Quase rochedos perdidos nos oceanos, representados por vezes apenas a uma escala muito próxima de um para um, serviram para estes fins, e quando a navegação prescindiu deles, foram utilizadas para criar conflitos diplomáticos de direito e posse, como por exemplo as Malvinas.

As ilhas são formações geológicas de diversas origens, segregadas pelo horizonte, como as pérolas são das ostras.

Capa de A ilha Negra, edição de 1938 (imagem de bdzoom.com)
Capa de A ilha Negra, edição de 1938 (imagem de bdzoom.com)

Os marinheiros voltavam dos mares do Sul, carregados delas, que eram depositadas nas salas da cartografia, para ficarem eternamente cristalizadas nas cartas náuticas.

Umas eram desertas como uma página do Nouveau Roman, outras estavam viradas para a Lua, mas outras eram habitadas por povos ancestrais, que assistiram à própria formação das ilhas.

Todas, iam parar ao património de príncipes longínquos ou de repúblicas patrícias, e por vezes a ambos simultaneamente.

Île d'or perto de S. Raphael, na costa Sul da França, uma das ilhas que serviu de inspiração à Ilha Negra de Hergé (imagem Loïc Bigard via wikimedia commons)
Île d’or perto de S. Raphael, na costa Sul da França, uma das ilhas que serviu de inspiração à Ilha Negra de Hergé (imagem Loïc Bigard via wikimedia commons)

Outras ainda, que durante muitos anos não tiveram qualquer outra serventia senão como produtoras de guano, revelaram-se do dia para a noite estratégicas, quando a comunidade internacional concebeu e implantou o conceito de Zona Económica Exclusiva (ZEE), que veio complementar a tradicional marcação das águas territoriais.

Na altura houve uma correria às salas da cartografia, à procura de ilhas esquecidas em mapas vetustos. Muitas tinham desaparecido, engolidas pelo mar, umas, e outras, tinham sido trocadas por diplomatas pouco atentos, por vantagens alfandegárias à beira de rios no coração de África, de cujo nome já ninguém se lembrava.

Felizmente, Portugal pôde com algumas das ilhas mais bonitas do planeta, como sejam as do Arquipélago dos Açores e a Madeira, constituir com os quase 1,8 milhões de quilómetros quadrados, a 3ª ZEE mais extensa da União Europeia, e a 11ª do mundo.

A ilha de S. Jorge, nos Açores, vista na Ponta do Rosais (imagem João Gonçalves)
A ilha de S. Jorge, nos Açores, vista na Ponta do Rosais (imagem João Gonçalves)

As ilhas transformaram-se em reservas de horizonte. E este é um bem escasso, e quase tão precioso quanto a água.

Mais recentemente as ilhas voltaram a revelar a sua preciosidade, e uma vez mais estamos a fazer um excelente uso delas, com o trabalho da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) em prol da fixação do limite exterior da plataforma continental para além das 200 milhas marítimas garantidas pela ZEE.

Pingos do Paraíso 51
Navios de cruzeiro no porto do Funchal, ilha da Madeira (imagem de AndPon via Pixabay)

E de volta ao nosso imaginário, e a outra das ilhas mais extraordinárias que existem, ficou célebre na minha família, o comentário que um tio fez no regresso da Irlanda, onde, jovem, tinha estado a estudar.

A Irlanda?… a Irlanda… ah, a terra é verde, o mar é azul, a cerveja é preta, e as raparigas são cor de laranja.”