Etiqueta

marinha de guerra

Browsing

Numa operação que faz lembrar o famoso romance gótico de Mary Shelley[1], publicado em 1818, os estaleiros franceses do Naval Group em Cherbourg-en-Contentin quiseram desempenhar o papel do jovem cientista suíço que procurava o segredo da geração da vida, tentando criar um novo ser vivo a partir de dois cadáveres.

Nas docas, engenheiros e operários altamente especializados, tal como os médicos e enfermeiros numa sala de cirurgia, cruzam-se em grande azáfama unindo cabos e encanamentos, quais nervos e artérias, soldando o aço elástico do casco, como que suturando a pele dos dois corpos que o destino tinha subtraído ao mundo dos vivos, com a esperança de dar mais uns anos de atividade a um dos irmãos RUBIS, nascidos há mais de trinta anos.

Ilustração presente na 3ª edição da obra "The Modern Prometheus", de Mary Shelley, publicada pelos editores Colburn and Bentley, London, em 1831 (imagem Tate.org)
Ilustração presente na 3ª edição da obra “The Modern Prometheus”, de Mary Shelley, publicada pelos editores Colburn and Bentley, London, em 1831 (imagem Tate.org)

A longa vida do SAPHIR

O SAPHIR (S602) foi o segundo dos seis irmãos a que a Marine Nationale tinha batizado (com uma exceção) com nomes de pedras preciosas (RUBIS, SAPHIR, CASABIANCA, EMERAUDE, AMETHISTE e PERLE). Estes irmãos desempenham um papel extremamente importante na Force Océanique Stratégique (FOST). Esta força compreende os Sous-marin Nucleaire Lace-Engins (SNLE), que são os submarinos de mísseis balísticos nucleares, o porta-aviões CHARLES DE GAULLE e os Submarinos Nucleares de Ataque (SNA).

Os RUBIS são SNA’s, ou seja, submarinos dotados com propulsão nuclear que lhes permite navegar períodos muito longos em imersão, sem necessidade de cometerem as indiscrições resultantes da exposição de mastros à superfície do mar, ou seja, conseguem, em teoria, manter-se ocultos e praticamente indetetáveis desde que saem a base e até que regressam.

Foi no dia 1 de setembro de 1981 que o SNA SAPHIR foi lançado à água nos estaleiros da DCAN, em Cherbourg (imagem DCAN)
Foi no dia 1 de setembro de 1981 que o SNA SAPHIR foi lançado à água nos estaleiros da DCAN, em Cherbourg (imagem DCAN)
O SAPHIR numa vinda à superficie em exercício de emergência. (imagem Marine Nationale)
O SAPHIR numa vinda à superficie em exercício de emergência. (imagem Marine Nationale)

A sua construção iniciou-se no dia 1 de setembro de 1979, nos estaleiros da Directions des Constructions et Armes Navales (DCAN), hoje Naval Group, em Cherbourg. Entrou ao serviço no dia 6 de julho de 1984, tendo sido atribuído à Esquadrilha de Submarinos Nucleares de Ataque (ESNA), sediada em Toulon. A sua cidade madrinha é Épinal, na região francesa do Grand Est.

Ao longo da sua vida em serviço ativo, o SAPHIR percorreu 1.200.000 milhas náuticas, ultrapassando mais de 120.000 horas de imersão (mais de 13 anos), efetuando cerca de 100 escalas. Fiel à memória dos seus gloriosos homónimos das duas guerras mundiais, o SAPHIR participou em inúmeras missões, do Oceano Índico ao Caribe e do extremo Norte às costas sul-americanas. As suas operações mais emblemáticas foram: Balbuzard em 1993, Kotor em 1999 e Harmattan em 2011.

A vida a bordo dum submarino é um trabalho intenso e contínuo. No Posto de Comando, a concentração é fundamental para a escuta, deteção e análise dos sons no fundo do mar. (imagem Marine Nationale)
A vida a bordo dum submarino é um trabalho intenso e contínuo. No Posto de Comando, a concentração é fundamental para a escuta, deteção e análise dos sons no fundo do mar. Aqui, estão os “olhos” do submarino. (imagem Marine Nationale)
No Posto de Controlo, os marinheiros revesam-se em turnos (quartos) manobrando o navio. Um submarino é como um avião, movimenta-se nas três dimensões. (imagem Marine Nationale)
No Posto de Controlo, os marinheiros revezam-se em turnos (quartos) manobrando o navio com os lemes de profundidade e o leme vertical. Um submarino é como um avião, movimenta-se nas três dimensões. (imagem Marine Nationale)
No compartimento dos Auxiliares, um marinheiro controla os vários equipamentos fundamentais ao funcionamento do submarino, desde os compressores de ar até aos sistemas de esgoto dos sanitários. (imagem Marine Nationale)
No compartimento dos Auxiliares, um marinheiro controla os vários equipamentos fundamentais ao funcionamento do submarino, desde os compressores de ar até aos sistemas de esgoto dos sanitários. (imagem Marine Nationale)
O SAPHIR, em junho de 2005, pronto para receber o piloto da barra, na entrada do porto de Toulon. (imagem Marine nationale, Christophe Géral)
O SAPHIR, em junho de 2005, pronto para receber o piloto da barra, na entrada do porto de Toulon. (imagem Marine nationale, Christophe Géral)
Na quarta-feira, 3 de julho de 2019, sob o comando do Capitão-de-Fragata Frenais de Coutard, o SNA SAPHIR entrou a bacia de manobra do porto de Cherbourg, dando encerrada a sua vida operacional. Em homenagem, o rebocador portuário FRÉHEL, acionou o canhão de água, criando uma espécie de "Arco do Triunfo". (imagem Marine Nationale)
Na quarta-feira, 3 de julho de 2019, sob o comando do Capitão-de-Fragata Frenais de Coutard, o SNA SAPHIR entrou a bacia de manobra do porto de Cherbourg, dando encerrada a sua vida operacional. Em homenagem, o rebocador portuário FRÉHEL, acionou o canhão de água, criando uma espécie de “Arco do Triunfo”. (imagem Marine Nationale)

Apesar de uma vida útil inicialmente planeada para durar 25 anos, o SAPHIR navegou por 35 anos, tendo sido desativado em julho de 2019. Foram 10 anos a mais do que o previsto devido ao atraso do programa BARRACUDA (classe SUFFREN). Foi, no entanto, o primeiro SNA classe RUBIS a ser desativado, com previsão de ser substituído pelo DUGUAY-TROUIN, o segundo SNA da nova classe SUFFREN.

Em termos humanos, o SAPHIR morreu em julho de 2019. O seu funeral (desmantelamento), seria mais demorado que num navio a propulsão convencional por possuir uma central nuclear na secção de ré. Mas o futuro reservou-lhe uma surpresa.

O navio de assalto USS SAIPAN, o SNA PERLE e o porta-aviões nuclear CHARLES DE GAULLE fotografados no dia 28 de junho de 2005, em Portsmouth, por ocasião da revista naval internacional no bicentenário da batalha de Trafalgar. (D.R.)
O navio de assalto USS SAIPAN, o SNA PERLE e o porta-aviões nuclear CHARLES DE GAULLE fotografados no dia 28 de junho de 2005, em Portsmouth, por ocasião da revista naval internacional no bicentenário da batalha de Trafalgar. (D.R.)

O submarino PERLE

O SNA PERLE (S606), ou LA PERLE, como os franceses denominam carinhosamente os seus navios, era nove anos mais novo que o SAPHIR, tendo sido entregue em julho de 1993. Como os seus irmãos, teve uma vida cheia de aventuras, no meio das quais se ia renovando nas manutenções e modernizações que intermediavam os ciclos operacionais.

No dia 13 de janeiro de 2020, o submarino PERLE entrou no porto de Toulon, no Mediterrâneo, para iniciar a sua última Interruption Programmée pour Entretien et Réparation (IPER), mas, no dia 12 de junho de 2020, pelas 10:35, estando em doca seca, deflagrou um incêndio “incrivelmente violento” na secção de vante do submarino. Felizmente, como relataram fontes oficiais da Marine Nationale, não existam nem armas, nem bateria, nem combustível nuclear a bordo, mas os danos foram tais que o submarino quase foi dado como perdido. De facto, durante as catorze horas que durou, o incêndio causou a destruição de toda a secção de vante, provocando alterações nas propriedades do aço especial do casco resistente, situação que quase decretou a morte do submarino.

Vista do exterior da Base de Toulon durante o incêndio. (imagem Perfecture Navale)
Vista do exterior da Base de Toulon durante o incêndio. (imagem Perfecture Navale)
Pormenor do combate ao incêndio no SNA PERLE. (imagem Ministère des Armées)
Pormenor do combate ao incêndio no SNA PERLE. (imagem Ministère des Armées)
O comando das operações de combate ao incêndio inteirando-se da planta do interior do PERLE (imagem Préfecture maritime)
O comando das operações de combate ao incêndio inteirando-se da planta do interior do PERLE (imagem Préfecture maritime)
O combate ao incêndio no SNA PERLE contou com várias corporações de bombeiros e durou cerca de 14 horas. (imagem Préfecture maritime)
O combate ao incêndio no SNA PERLE contou com várias corporações de bombeiros e durou cerca de 14 horas. (imagem Préfecture maritime)
Imagens da destruição no interior do navio (D.R.)
Imagens da destruição no interior do navio (D.R.)

Não tivessem os engenheiros do Naval Group assumido o papel do ficcionado jovem estudante de ciências Victor Frankenstein, e o atestado de óbito teria sido assinado pelos responsáveis políticos franceses. Mas essa incrível ideia trouxe a esperança de ressuscitar a “criatura” e, em outubro de 2020, foi anunciado que o PERLE seria reparado usando a secção dianteira do SAPHIR. O planeamento destes trabalhos, que seriam executados, não em Toulon, mas sim no estaleiro construtor, em Cherbourg-en-Contentin, na costa atlântica, foi uma prova da vitalidade da indústria naval gaulesa.

A perda de um SNA significaria um grande golpe na manutenção da capacidade operacional da Force Océanique Stratégique (imagem Marine Nationale)
A perda de um SNA significaria um grande golpe na manutenção da capacidade operacional da Force Océanique Stratégique (imagem Marine Nationale)

Uma reparação inovadora e inédita.

Para a França, a perda dum SNA significaria um grande golpe na manutenção da capacidade operacional da Force Océanique Stratégique (FOST). Para evitar essa situação, a marinha francesa e o serviço de apoio à esquadra, por um lado, e o Naval Group, por outro, coordenaram-se para organizar a transferência e a reparação do navio, entre Toulon e Cherbourg.

Várias situações permitiram esta solução:

  • Em primeiro lugar, podemos considerar a capacidade tecnológica do Naval Group;
  • Em segundo, o facto do incêndio se ter restringido à secção avante, tendo poupado toda a a zona da propulsão;
  • Em terceiro, a disponibilidade, em bom estado, do casco avante do SAPHIR que tinha sido recentemente docado para o seu desmantelamento.

Entretanto, enquanto se preparava e procedia ao embarque do SNA PERLE a bordo do navio semisubmersível ROLLDOCK STORM, cerca de 100 operários de Toulon partiam para Cherbourg, onde se juntavam a outros 200, formando uma força de 300 pessoas que começaram logo a trabalhar no corte e preparação da secção de vante do SAPHIR.

Na base de Toulon, procedeu-se à manobra de embarque do submarino PERLE no navio doca semisubmersível ROLLDOCK STORM (imagem Marine Nationale, Enzo Lemesle)
Na base de Toulon, procedeu-se à manobra de embarque do submarino PERLE no navio doca semisubmersível ROLLDOCK STORM (imagem Marine Nationale, Enzo Lemesle)
O navio semisubmersível ROLLDOCK STORM, transportando o casco danificado do PERLE, largou de Toulon no dia 10 de dezembro de 2020 (imagem Marine Nationale, Guillaume Izard)
O navio semisubmersível ROLLDOCK STORM, transportando o casco danificado do PERLE, largou de Toulon no dia 10 de dezembro de 2020 (imagem Marine Nationale, Guillaume Izard)
O PERLE chegou a Cherbourg no dia 18 de dezembro de 2020 e imediatamente entrou a doca dos estaleiros do Naval Group para ser elevado e colocado a seco. (imagem Marine Nationale)
O PERLE chegou a Cherbourg no dia 18 de dezembro de 2020 e imediatamente entrou a doca dos estaleiros do Naval Group para ser elevado e colocado a seco. (imagem Marine Nationale)

Para conseguir a hibridação dos dois submarinos, as secções de vante e de ré foram cortadas e separadas, o que ocorreu em março de 2021. E no mês de abril, a secção de ré do PERLE foi colocada frente à secção de vante do SAPHIR, com apoio dos movimentadores que servem para mover os novos submarinos da classe SUFFREN, navios muito mais pesados do que a classe RUBIS.  (Ver aqui as fases da reparação do SNA PERLE)

Os trabalhos foram inovadores e inéditos, nomeadamente concretizar o desenho em pormenor de toda a área de junção, usando para o efeito um modelo digital do PERLE, realizado por uma equipa de cinco desenhadores que criaram um gémeo digital da área de integração, onde se definiram todas as posições dos 135 cabos, das 60 tubagens e dos respetivos suportes. Este modelo 3D foi igualmente aproveitado pelos eletricistas e instaladores das tubagens, ensaiando as posições em realidade virtual. Para viabilizar a interligação das cablagens de energia e dados, e das tubagens dos vários circuitos de fluidos e gases, foi necessário acrescentar uma secção cilíndrica que comportasse as várias caixas de junção, o que obrigou ao alongamento do navio em 1,40 m. Assim dos originais 76.3, o “Moderno Prometeu” passou a ter 77.7 m de comprimento.

A secção de vante do PERLE (incluindo a torre, já separada da secção de ré, após o corte do casco. (imagem Naval Group)
A secção de vante do PERLE (incluindo a torre, já separada da secção de ré, após o corte do casco. (imagem Naval Group)
Vista de drone, da fase de reposicionamento das metades dos dois submarinos utilzando os movimentadores dos SNA classe SUFFREN (imagem Naval Group)
Vista de drone, da fase de reposicionamento das metades dos dois submarinos utilzando os movimentadores dos SNA classe SUFFREN (imagem Naval Group)
O interior do submarino foi digitalizado em modelo 3D, o que permitiu aos engenheiros estudarem múltiplas possibilidades (imagem Naval Group, Adrien Daste)
O interior do submarino foi digitalizado em modelo 3D, o que permitiu aos engenheiros estudarem múltiplas possibilidades (imagem Naval Group, Adrien Daste)
A popa do PERLE apontada à proa do SAPHIR (imagem Naval Group)
A popa do PERLE apontada à proa do SAPHIR (imagem Naval Group)
Para a soldadura dos dois semissubmarinos, 18 soldadores, trabalhando em turnos de 2x8 horas, revezando-se durante 5 dias (imagem Naval Group)
Para a soldadura dos dois semissubmarinos, 18 soldadores, trabalhando em turnos de 2×8 horas, revezando-se durante 5 dias (imagem Naval Group)

A soldadura decorreu no final de maio e durou 5 dias, envolvendo 18 soldadores especializados em turnos de 2×8. Apenas 5 meses depois do arranque dos trabalhos no estaleiro do Naval Group, a secção da popa do SNA PERLE estava unida à secção de vante do SNA SAPHIR, e no dia 9 de junho, após uma equilibragem dos pesos a bordo, foi feita a reflutuação por meio dum elevador de navios, sendo o submarino conduzido para a grande doca seca do Homet, na base naval, onde foi docado.

Neste momento, os trabalhos de reparação encontram-se sensivelmente a meio. Até ao outono as equipas do Naval Group, em Cherbourg e, especialmente, em Toulon, terão que ligar todos os cabos e encanamentos cortados para realizar a hibridização do casco. Então, no final de outubro ou início de novembro, o submarino será novamente embarcado num navio semisubmersível e transportado para a doca seca de Toulon, onde irá retomar os trabalhos de IPER, interrompidos pelo incêndio. Se tudo correr bem, deverá ser entregue à marinha francesa em 2023. Será um submarino substancialmente diferente e muito mais moderno, integrando, por exemplo, um novo sonar, um periscópio de ataque optrónico não penetrante, consolas tácteis idênticas às que equipam a nova classe BARRACUDA e virá equipado com os novos torpedos F21.

O ambiente do futuro PERLE será semelhante ao dum SNA classe SUFFREN, aqui reconstituído no simulador NEPTUNE. (imagem Naval Group)
O ambiente do futuro PERLE será semelhante ao dum SNA classe SUFFREN, aqui reconstituído no simulador NEPTUNE. (imagem Naval Group)
O moderno torpedo F21 do Naval Group tem um diâmetro padrão da OTAN (533 mm), um comprimento de 6 metros e pesa 1.550 kg. A sua velocidade é superior a 50 nós e o seu alcance de mais de 50 km (27 milhas náuticas). Opera numa profundidade de ataque operacional compreendida entre 10 e os 500 m. (imagem Navy Recognition)
O moderno torpedo F21 do Naval Group tem um diâmetro padrão da OTAN (533 mm), um comprimento de 6 metros e pesa 1.550 kg. A sua velocidade é superior a 50 nós e o seu alcance de mais de 50 km (27 milhas náuticas). Opera numa profundidade de ataque operacional compreendida entre 10 e os 500 m. (imagem Navy Recognition)

A operação total representará 250.000 horas de trabalho no plano industrial, a acrescentar às mais de 100.000 horas de estudos e projetos, mobilizando cerca de 300 pessoas.

Os custos totais da reparação estão estimados em 120 milhões de euros, sendo 50 milhões suportados pelo seguro do estaleiro e o restante pelo orçamento da defesa.

[1]The Modern Prometheus ou Frankenstein (1817) é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres. É considerada a primeira obra de ficção científica da história.

Assista aqui ao vídeo dos trabalhos: