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A pandemia veio submeter as tripulações, de todos os navios em todo o mundo, a um confinamento particularmente duro.

Milhares de marítimos estão aprisionados nos seus navios, impedidos de desembarcar, de realizar as normais rendições e de regressar aos seus países de origem, aos seus lares e convívio das familias. Vive-se um mal-estar e há uma afectação do equilíbrio emocional das tripulações que não podem ser menorizados. Todos nós já sentimos mal-estar, quando não revolta, quando os nossos planos de descanso ou de férias são alterados, adiados, anulados. No caso presente junta-se o risco sanitário de uma infecção insidiosa, a COVID-19, para a qual faltam tratamento e vacinas.

Se em tempos normais, períodos prolongados de trabalho a bordo, sem paragens para repouso e em particular sem uma estabilização em terra, originam situações anormais de fadiga, com prejuízo da segurança, em tempos de pandemia há riscos acrescidos.

O arrrastar das rendições, atrasando datas e tornando incerta e sucessivamente adiada a rendição, cria um estado de ansiedade, de desgaste físico e psicológico, propício à ocorrência de falhas humanas e subsequentes acidentes.

Navios de cruzeiro, ancorados com as suas tripulações a bordo, aguardam pelo regresso da atividade económica. (créditos na imagem)
Navios de cruzeiro, ancorados com as suas tripulações a bordo, aguardam pelo regresso da atividade económica. (créditos na imagem)

Os primeiros a embarcar e os últimos a desembarcar

Pelos media fomos acompanhando as vicissitudes dos navios de cruzeiros obrigados a sucessivas tentativas de escala para desembarcar os respectivos passageiros turistas, sejam os já infetados, sejam essas centenas ou milhares de cruzeiristas, “ainda” não infetados, ou talvez já infetados, mas na duvidosa situação de assintomáticos, todos qualificados de suspeitos e indesejados.

Uma muito menor atenção foi dada à situação dos tripulantes, com meras referências ao desembarque faseado de uns tantos, sempre após a libertação dos passageiros, com a retenção a bordo do número mínimo indispensável à segurança dos navios, às rotinas de manutenção e a uma navegação segura para o porto de registo, ou para um qualquer outro porto disposto a receber estes inóspitos visitantes.

Em diversas situações houve autorização para movimentar os contentores, mas as tripulações foram mantidas a bordo, impedidas de desembarcar.

Marítimos, retidos a bordo do porta-contentores MSC EYRA, enviam uma mensagem de solidariedade à população mundial. (créditos na imagem)
Marítimos, retidos a bordo do porta-contentores MSC EYRA, enviam uma mensagem de solidariedade à população mundial. (créditos na imagem)

A complexa logística das rendições

Segundo estimativas da OMI/IMO (Organização Marítima Internacional/International Maritime Organization), os cerca de 55.000 navios mercantes a navegar, guarnecidos por mais de um milhão de marítimos, implicaria a rendição, numa média mensal de cerca de 200.000 marítimos. Alguém comparou, com pitoresca felicidade, este permanente movimento a um gigantesco carrocel. Um carrocel que estava rotinado e a funcionar com normalidade e as rendições efectuavam-se nas datas e condições planeadas e os imprevistos eram solucionados, com maior ou menor rapidez e facilidade, encaixando as novas situações no planeamento estabelecido.

Mas o imprevisto da pandemia ultrapassou todos os limites e colocou em questão todos os planeamentos. Estabelecimento aleatório de quarentenas, segundo protocolos variáveis de país para país, de região para região, variáveis no tempo e nas circunstâncias, com vistos sanitários específicos e inesperados e em constante mutação, o caos aéreo com o cancelamento generalizado das ligações aéreas, desafiam os planeamentos e exasperam as tripulações.

Se pontualmente tem sido possível resolver situações específicas não nos deixemos iludir com felizes excepções, com tratamento mediático assegurado, porque a situação é efectivamente muito crítica podendo vir a colocar em risco as cadeias logísticas de abastecimento, na medida em que os navios podem vir a ser obrigados a parar. E será sempre oportuno lembrar que o transporte marítimo é responsável por cerca de 90 % do comércio mundial.

Em finais de julho, a IMO estimava “120,000 a 150,000 marítimos estariam ainda a bordo esperando a rendição e o regresso a casa” e simultaneamente “um semelhante grande número de marinheiros estará em casa esperando o regresso ao trabalho a bordo”

O Sr. Muis, contramestre do navio de cruzeiros CELEBRITY EDGE, ladeado pelo seu irmão e pelo seu filho. O Sr. Muis está à 12 meses consecutivos a bordo sem ir a terra. (créditos na imagem)
O Sr. Muis, contramestre do navio de cruzeiros CELEBRITY EDGE, ladeado pelo seu irmão e pelo seu filho. O Sr. Muis está à 12 meses consecutivos a bordo sem ir a terra. (créditos na imagem)

Pandemia pouco democrática

Não são iguais para todos, as dificuldades nos desembarques e rendições. As tripulações indianas sofrem um bloqueio total e mesmo que conseguissem desembarcar estando as fronteiras da India fechadas não conseguiriam regressar ao seu país. Idêntica situação padecem as tripulações africanas, com a quase totalidade das fronteiras dos seus países encerradas. Situação semelhante, mas menos rígida, aflige as tripulações filipinas, que podem desembarcar, mas não havendo ligações aéreas internas ficam bloqueadas em Manila.

É singular a situação dos marítimos retidos a bordo, melhor diríamos aprisionados, que são compelidos a sucessivas renovações dos seus contratos de trabalho, ficando desprovidos de qualquer capacidade negocial. As situações de tensão (stress), fadiga e pressão psicológica são aqui comulativas.

O moderno navio de cruzeiros CELEBRITY EDGE, fundeado na baía de Cococay, nas Bahamas (créditos na imagem)
O moderno navio de cruzeiros CELEBRITY EDGE, fundeado na baía de Cococay, nas Bahamas (créditos na imagem)

Sinais de melhoria e um apelo internacional

A singularidade e gravidade da situação já motivou chamadas de atenção e pedidos de apoio da parte do Papa Francisco, do Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres, da Comissão Europeia, da IMO/OMI, para além de diversas ONG’s.

A 9 de julho, a convite do governo do Reino Unido, teve lugar uma Cimeira ministerial virtual, sobre a rendição das tripulações, que deu lugar a uma declaração conjunta dos representantes dos 13 países participantes, em que se exprime uma profunda preocupação face à atual crise e se reconhece que a impossibilidade de efetuar a rendição das tripulações “representa o desafio operacional marítimo mais urgente para garantir a segurança e a eficiência do comércio mundial”.

Marítimos a bordo do CELEBRITY EDGE aguardam o dia da sua rendição, enquanto o Sol se põe em mais um dia sem solução à vista. (créditos na imagem)
Marítimos a bordo do CELEBRITY EDGE aguardam o dia da sua rendição, enquanto o Sol se põe em mais um dia sem solução à vista. (créditos na imagem)

Mercê do Registo Internacional de Navios da Madeira (MAR) perto de 700 unidades arvoram a bandeira portuguesa, embora com interesses estrangeiros, designadamente alemães. Foi por isso, e pelo sentido humanitário do apelo, que com curiosidade e expectativa, procurei Portugal entre os treze participantes. Procura infrutífera.

Na sequência da cimeira e da declaração conjunta o Secretário-Geral da OMI/IMO, Kitack Lim, endereçou uma carta circular de apelo aos Estados Membros, a favor do repatriamento e rendição das tripulações.

 As últimas referências têm sido no sentido de uma significativa melhoria da situação, como confirma perito do sindicato Verdi(1) que usa no entanto uma expressiva linguagem para caracterizar a situação; “ainda que o número de pessoas “aprisionadas” (as aspas são nossas) se tenha vindo a reduzir, a questão é mais urgente do que nunca”.

Uma tripulação feliz por ter sido rendida em Cochim, Índia (imagem @hesler_alex)
Uma tripulação feliz por ter sido rendida em Cochim, Índia (imagem @hesler_alex)

Bom seria que à data da publicação desta crónica esta fosse uma questão ultrapassada, com a logística das rendições das tripulações normalizada. Bom seria, mas com a COVID-19 instalada, sem fim à vista, uma normalização possível, exigirá novos procedimentos, protocolos mais pormenorizados e rigorosos. Tudo somado, rendições mais desgastantes, que será necessário aceitar em prol da segurança e bem-estar de todos nós.

(1) Verdi é o acrónimo do forte sindicato alemão, com mais de 2 milhões de associados, Vereinte Dienstleistungsgewerkschaft, em inglês United Services Trade Union ou seja Sindicato dos Serviços Unidos. (Perdoem-me os leitores, mas não resisti à tentação de evidenciar a beleza e simplicidade do idioma alemão)