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Foi antes de aparecerem os homens-rãs, mas já existiam os escafandristas, num tempo em que a mestrança (os “sargentos”) tinha peso nas manobras de bordo. O primeiro daqueles especialistas do mergulho submarino foi acabar os seus dias nas águas calmas da baía de Luanda, como aqui se relata pela pena do comandante Fernando Branco, dada à estampa em 1929 (ele que logo depois assumiria a pasta ministerial dos Negócios Estrangeiros).  João Moreira Freire

«[…] Nesta altura, ligou-se ao capacete o tubo de borracha da passagem de ar e, fazendo trabalhar a bomba, experimentou-se se o ar chegava convenientemente dentro do capacete. O “Senhor 58”, sorrindo sempre e com a maior calma, dizia pela abertura circular da frente, ainda sem vidro, que o ar chegava muito bem e que estava tudo muito bem. […]

Amarraram-lhe ainda a corda dos sinais à cintura, fazendo-a passar sobre os ombros assim como o tubo de ar, segundo-se então o costumado diálogo entre ele e o tenente para assentarem definitivamente nos sinais combinados.

Dizia o tenente:

— Um sacão da corda?

Respondia o “Senhor 58”:

— Está tudo muito bem.

— Dois sacões da corda?

— Dê mais ar.

— Três sacões da corda?

— Dê menos ar.

– Quatro sacões da corda?

— Faça-me subir. […]

À medida que ia mergulhando, as caras dos espectadores iam-se franzindo e contorcendo, estendendo-se cada vez mais os pescoços para fora da borda, para verem bem o momento solene da desaparição completa.

Faltava agora já só o capacete e, nesta altura, os que olhavam espantados viram-no inclinar pesadamente o grande escafandro um pouco para trás, virando o vidro da frente para cima, através do qual apenas se enxergava, numa penumbra fugidia e no meio de umas sombras indistintas, o louro fulvo do bigode e o azul marinho dos olhos brilhantes!

Depois, num gesto pesado mas decisivo, fez com a manápula desmedidamente grande um adeus, e desapareceu por ali abaixo […].

(excerto do livro Novelas Marítimas, de Fernando Branco,  Lisboa, Sá da Costa, 1929: 115-133, incluído no texto “O primeiro mergulhador”, um dos textos da obra MEMÓRIA NAVAIS, de João Moreira Freire.

A bordo do NRP S. GABRIEL, um marinheiro ajusta o colar do escafandro clássico semi-autónomo de circuito aberto “SIEBE GORMAN”, numa missão de salvamento marítimo . (foto de Joshua Benoliel, Revista "Ilustração Portuguesa”, 26 de setembro de 1910)
A bordo do NRP S. GABRIEL, um marinheiro ajusta o colar do escafandro clássico semi-autónomo de circuito aberto “SIEBE GORMAN”. (foto de Joshua Benoliel, Revista “Ilustração Portuguesa”, 26 de setembro de 1910)

Na bibliografia deixada por gente do mar distinguiram-se as belíssimas obras de cronista de um Joaquim Pedro Celestino Soares com os seus Quadros Navais, ou João Braz d’Oliveira com as não menos famosas Narrativas Navais, que nos desenharam imagens e vivências muito características do século XIX português.

Depois, com a viração do século, outros “marujos” escreveram as suas memórias, de um tempo […] pintado com arte por Wenceslau de Moraes ou Jaime do Inso.

Na nossa geração, […], o cenário das últimas guerras coloniais está muitas vezes presente, com gente que palmilhou com as suas “botas cardadas” de fuzileiro os trilhos e as picadas africanas.

“Memórias Navais” reune um conjunto alargado de textos, cronologicamente cobrindo o período desde o início do século XIX até à atualidade, abordando situações passadas a bordo de navios de guerra, ou mercantes, ou de alguma forma ligadas ao mar, na nossa costa do Continente, nos Açores e na Madeira, no Mediterrâneo, na costa de África e até marchando no Sul de Angola com Afonso Júlio de Cerqueira (1915). Alguns destes textos, como os de Maurício de Oliveira, já os conhecia, mas a maioria foram novidade, uma saborosa novidade, é justo dizê-lo.

Professor Doutor João Moreira Freire
Professor Doutor João Moreira Freire

A escolha dos autores e a seleção dos textos foi feita pelo Professor Doutor João Moreira Freire, que com o seu conhecimento alargado e com a sua sensibilidade de sociólogo procurou escolher episódios, incluindo alguns picarescos ou dramáticos, que permitissem obter uma amostra representativa de temas e circunstâncias da vida marítima portuguesa. Como o compilador e organizador desta antologia refere:

Trata-se de uma contribuição, de subsídios para uma história não-oficial das diversas marinhas portuguesas nos últimos dois séculos.